sexta-feira, 8 de março de 2013

O Caminho da Beleza 16 - IV Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 16
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

Domingo da Quaresma                  10.03.2013
Js 5, 9a.10-12                    2 Cor 5, 17-21                    Lc 5, 1-3.11-32


ESCUTAR

“No dia seguinte à Páscoa, comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia. O maná cessou de cair no dia seguinte, quando comeram dos produtos da terra” (Js 5, 11-12).

“Irmãos, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo” (2 Cor 5, 17).

“Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15, 32).


MEDITAR

“Onde dizes lei, eu digo Deus; onde dizes paz, justiça e amor, eu digo Deus! Onde dizes Deus, eu digo liberdade, justiça e amor” (D. Pedro Casaldáliga).

“O Cristo encarnado e humilhado pela morte mais infame, a morte de Cruz, é proposto aos cristãos como modelo de vida. Com efeito, estes devem ter ‘os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus’ (Fl 2, 5): sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade” (Bento XVI).


ORAR

A conversão não é um fenômeno excepcional, clamoroso, mas um dever fundamental e habitual para o cristão que deve vivê-la no cotidiano. Converter-se é ter a lucidez de que a lógica de Deus é diferente da nossa; que nossos sentimentos não vibram no mesmo acorde que os Seus e nem os nossos passos estão sincronizados com os passos do Senhor. A conversão não é um pequeno ajuste, nem um retoque de fachada, nem uma minúscula mudança que não perturba demasiado, mas uma transformação radical. A conversão é uma recusa do passado cujas misérias ficam apagadas por Deus e uma abertura ao futuro sob a insígnia da novidade e da liberdade. A parábola do pai pródigo revela a conversão como a possibilidade de perder-se e uma simpatia com os capazes de movimento e risco. Estes sempre entrarão em confronto com o orgulho paralisante dos que não tomam nenhuma iniciativa; dos que tudo esperam e exigem porque estão agrilhoados em seus pretensos direitos; dos que se consideram irrepreensíveis e por esta razão são, constitutivamente, incapazes de se converter e de realizar o menor gesto e esforço para isto. Na parábola, o irmão mais jovem é “abusado” e o mais velho um insuportável “possuidor de direitos”; nunca cometeu faltas graves, mas vive sem amor e sua farisaica justiça o amargou. É aquele que necessita de segurança e jamais trocará o certo pelo duvidoso, permanecerá imóvel até o fim da sua vida e morrerá como um triste burocrata das suas próprias “virtudes”. É aquele que sempre se afirma pela negação do outro na espera de um necrológio derradeiro que possa lhe prestar, finalmente, a “justa homenagem”. A linguagem do irmão mais velho e do pai não é a mesma. O primeiro fala de novilhos, cabras, bois, do “justo” e do “injusto”. Repete a retórica da lei, do castigo e da intransigência. O pai fala d0 filho encontrado, ressuscitado, que voltou a viver. Fala a língua do amor, do perdão, da ternura e da gratuidade. O pai ofereceu a festa ao filho que voltara, só não pôde oferecer a acolhida do irmão mais velho, pois o coração dele não estava dilatado de perdão e de bondade. Nós devemos sempre colocar à disposição de todos um coração em festa para que a nossa casa se torne, de verdade, acolhedora. Para que os que amamos não tenham medo de arriscar a liberdade de viver, de trocar o certo pelo duvidoso, pois sabem que sempre haverá dois braços que os apertarão contra o peito, numa fusão de corações, e lábios que dirão palavras de amor e os cobrirão com beijos de ternura. Está escrito que “haverá no céu mais festa por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se” (Lc 15, 7). Compreendamos, de uma vez por todas, que o Senhor ama com maior compaixão a ovelha esgarrada que retorna aos seus braços porque é ela que acaba encontrando um novo caminho para todo o rebanho.

CONTEMPLAR

O Pai que perdoa, Frank Wesley, 1998, pintura em bloco de madeira impressa em papel de seda, Índia.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 15 - III Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 15
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


III Domingo da Quaresma                 03.03.2013
Ex 3, 1-8.13-15                  1 Cor 10, 1-6.10.12                       Lc 13, 1-9


ESCUTAR

“Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair daquele país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel” (Ex 3, 7-8).


“Não murmureis, como alguns deles murmuraram e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1 Cor 10, 10.12).
“Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou” (Lc 13, 6).

MEDITAR

“O Reino une. A Igreja divide quando não coincide com o Reino” (D. Pedro Casaldaliga).

“Deus, que se fez Cordeiro, diz-nos que o mundo é salvo pelo Crucifixo e não pelos que crucificam. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens” (Bento XVI).


ORAR

O Senhor se revela, sobretudo, nas ações realizadas em favor do seu povo e estas ações exigem, de nossa parte, uma resposta precisa. Não basta maravilhar-se apenas, é necessário corresponder a elas no dia a dia. Muitas vezes o orgulho habita as nossas práticas e deturpa o sentido real da vida cristã. Os sacramentos não são a garantia contra a tentação, o risco da concessão e o perigo da infidelidade. Eles não são o ponto definitivo da chegada, mas acompanham a largo caminho que devemos percorrer, passo a passo, na imperiosa busca de coerência e de verdade. Os que acreditam são itinerantes, peregrinos e permanecem firmes “como se vissem o Invisível” (Hb 11, 27). Nesta travessia, a existência cristã estará sempre ameaçada pela arrogância: “Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair”. Devemos estar alertas para não seguirmos as trilhas de uma espiritualidade irresponsável, uma vez que, a esperança não dispensa a vigilância e a confiança não exclui os olhos abertos. O Senhor vê a aflição do seu povo e está presente no mundo se não estivermos ausentes; está perto dos homens se nos fizermos próximos. Quando o Senhor se revela não é para satisfazer a curiosidade nem para facilitar informações gratuitas, mas para que assumamos o que deve ser feito. Moisés se aproxima curioso: “Vou aproximar-me desta visão extraordinária para ver por que a sarça não se consome” e a sua curiosidade se converte em missão: recebe do Senhor a ordem de libertar o seu povo da escravidão. O evangelho revela que nenhuma árvore plantada pelo Senhor é puro adorno. As figueiras e as vinhas para os israelitas eram o sinal de que um dia possuiriam a Terra Prometida e os fazia recordar o paraíso perdido. A vinha do Senhor é o povo eleito e contém algo de misterioso: ela só vale pelos frutos que produz e oferece. O Filho pede ao Pai um pouco de paciência para que o tempo do amor, que ainda será dedicado à figueira sem frutos, possa garantir a ela uma nova possibilidade. A figueira pode se tornar uma intrusa na vinha do Senhor caso não frutifique assim como a Sinagoga não criava comunidades de amor, mas relações mercantilizadas em que o dinheiro era o grande e o único ídolo. O Senhor é tão clemente que se compadece, quando nós, rompendo o orgulho, confessamos a nossa impossibilidade de dar frutos. Podemos ser atacados pelo fungo das boas intenções e pelo caruncho da acomodação que nos aprisionam num espiritualismo de fuga que confunde a vida espiritual – conduzida pela liberdade do Espírito – com uma vida interior presa dentro de si e para si. O Senhor pode até esperar que descubramos e abracemos a Cruz do Filho que é a única árvore que não trai as nossas esperanças. É a compaixão do Pai que nos permite o arrependimento e o recomeçar de cada novo dia, pois nenhuma instituição religiosa poderá colocar limites à misericórdia de Deus. Meditemos as palavras do dominicano Bruckberger: “O demônio é um puritano de finos tratos. Estou certo que o anticristo será semelhante a ele neste ponto: a sua corte será virtuosa no sentido mais vulgar e corrente do vocábulo; as esposas tricotarão para as suas obras de caridade e seus maridos beberão leite e não terão amantes, pois as verdadeiras cumplicidades com o demônio não estão no plano destes pecados ordinários”. Quem puder entender que entenda!

CONTEMPLAR

A Sarça Ardente, Shraga Weil, 1990, serigrafia n. 244/400, 107 cm x 76 cm, Israel.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 14 - II Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 14
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo da Quaresma                   24.02.2013
Gn 15, 5-12.17-18             Fl 3, 17- 4,1             Lc 9, 28b-36


ESCUTAR

“E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! E acrescentou: Assim será tua descendência” (Gn 15, 5).

“Há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso. Apreciam só as coisas terrenas! Nós, ao contrário, somos cidadãos do céu” (Fl 3, 18-19).

“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante” (Lc 9, 28-29).


MEDITAR

“Devemos saber enfrentar o medo. Se paramos ou voltamos atrás estamos perdidos. Devemos discernir o momento em que contamos somente com as nossas próprias forças. Se esquecermos a confiança em Jesus estamos perdidos, assim como, se esquecermos a misteriosa atração que nos conduz a escolher um engajamento, uma pessoa, uma amizade ou quem motivou uma promessa. A vida se joga na confiança e o medo e a confiança não caminham juntos” (Cardeal Martini).

“As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam” (Madre Teresa de Calcutá).

ORAR

Os textos deste domingo descrevem a trajetória essencial da história da salvação. Tudo se inicia com a aliança feita com Abrão e esta aliança será renovada e radicalmente transformada por Jesus, o Filho escolhido do Pai. Os apóstolos poderão ver, por um instante, a glória de Jesus, o Salvador esperado que “transformará o nosso corpo humilhado, tornando-0 semelhante ao seu corpo glorioso”. Os textos são uma revelação, um tirar o véu do que é o desígnio salvífico de Deus: a revelação de um Deus fiel; a revelação da divindade de Jesus e de seu mistério pascal; a revelação do mistério do homem, peregrino na terra, mas, ao mesmo tempo, cidadão do céu. A aliança com Abrão se faz com um ritual truculento do Oriente Médio, o de passar pelos animais cortados pelo meio, pelos pássaros pequenos, para advertir que a mesma sorte trágica terá quem transgredir as cláusulas do pacto. O Senhor se compromete neste pacto, pois é o único a passar no meio dos animais e das aves estendidas para acentuar a absoluta gratuidade da Sua iniciativa. O Senhor promete um filho aos anciãos Abrão e Sara, mas, por enquanto, devem se contentar com um símbolo: uma quantidade infinita de estrelas. O Senhor promete ainda uma terra aos seus descendentes, mas, por enquanto, Abrão continuará sendo nômade, estrangeiro na terra em que pisa. A prova para Abrão é ter nas mãos, não a realidade, mas uma palavra que a garante. A fé, quando autêntica, deve atravessar, precisamente, o terreno áspero da prova. O evangelho da Transfiguração revela que ninguém pode inventar para si mesmo um caminho privado que evite o caminho do Calvário. Jesus transfigurado será dentre em pouco o Cristo desfigurado da Paixão para ser, novamente, o Jesus transfigurado da Ressurreição. Uma Igreja que não aceita esta travessia – da transfiguração à desfiguração – para encontrar o Cristo Ressuscitado, será apenas uma Igreja deslumbrada com seu próprio estômago. Uma Igreja que fabrica e vende ilusões de que podemos participar do triunfo do Ressuscitado e que considera ultrapassada a realidade da Cruz. Uma Igreja centrada no legalismo como solução de facilidade e segurança mais do que nas ásperas exigências do Cristo de amar e de perdoar. Neste dia devemos perguntar no mais íntimo de nós: “Qual é o nosso Deus? A quem amamos e servimos?”, pois dependendo da resposta saberemos onde está o nosso tesouro, pois aí estará o nosso coração (Lc 12, 34).

CONTEMPLAR
Noite estrelada sobre o Ródano, Vincent Van Gogh, 1888, óleo sobre tela, 72,5 cm x 92cm, Museu d’Orsay, Paris, França.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 13 - I Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 13
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


I Domingo da Quaresma                     17.02.2013
Dt 26, 4-10              Rm 10, 8-13                       Lc 4, 1-13

ESCUTAR

“Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro” (Dt 26, 5).

“Essa é a palavra da fé que pregamos. Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10, 8-9).

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do rio Jordão e, no Espírito, era conduzido pelo deserto. Ali foi posto à prova pelo diabo, durante quarenta dias” (Lc 4, 1-2).


MEDITAR

“Ser cristão é se reconhecer salvo por Jesus, vivendo uma aventura de amizade pessoal com ele, acolhendo o amor com que nos ama, a ponto de dar sua vida por nós, e nos empenhando pessoalmente em amá-lo, vivendo entre nós no amor uns dos outros, o mesmo amor com que Jesus no ama” (Francisco Catão).

“O amor fraterno é um viaduto ligando com um só arco Deus e os homens. Este arco não se pode dividir. Como um ir e vir, ele é um e o mesmo” (Madeleine Debrêl).

ORAR

As leituras desta liturgia oferecem as três bases necessárias para a quaresma: a ação de graças, a confissão de fé e a purificação por meio da Palavra. O sacerdote oferece o cesto com as primícias: uma pequena parte da colheita. Para o Senhor não importa a quantidade, mas o significado, pois a colheita dos campos, antes de ser fruto do trabalho do homem, é dom e bênção de Deus. Ao confessarmos que Jesus é o Senhor que morreu e ressuscitou, devemos fazê-lo com a boca e com o coração numa profunda adesão pessoal. O evangelista apresenta o relato das tentações a Jesus. Elas não são propriamente de ordem moral, mas propostas claras das maneiras falsas de se compreender e viver a missão: as tentações de um atalho, de um triunfo fácil e da popularidade pelos gestos espetaculares. Jesus rechaça todas as propostas do Divisor, citando as palavras da Escritura e ratificando a sua determinação de cumprir, unicamente, o desígnio do Pai. O tempo da quaresma deve ser um tempo propício para avaliarmos e constatarmos se as nossas vidas correspondem aos desígnios do Senhor. É o tempo de purificarmos, por meio da Palavra de Deus, as superstições, os desvairos, as ostentações com as quais vestimos a nossa pretensa prática cristã. É o tempo para rechaçar os comprometimentos que traem a mensagem evangélica. É o tempo para recusar uma religiosidade construída à nossa medida e nos convertemos aos caminhos propostos por Jesus. Isto será possível se tivermos a coragem de nos confrontarmos com a Palavra de Deus. Na quaresma, devemos ser capazes de um pouco de deserto, de um pouco de silêncio e de um mínimo de coragem para irmos às raízes mais profundas da fé e do amor. A conversão a que somos convidados não é outra coisa que dar as costas aos nossos medíocres projetos, às nossas míopes aspirações e voltarmos, de peito aberto e corpo inteiro, ao desígnio original do Senhor: amar! A penitência é a nostalgia da nossa autêntica grandeza. A quaresma nos chama a abandonarmos a preguiça e o tédio, pois “o preguiçoso é como um pedaço de papel higiênico usado; é um nojento que é desprezado por todos. É como esterco num monte de lixo; quem encosta as mãos nele, trata logo de lavá-las” (Eclo 22, 2, Bíblia Sagrada, Nova tradução na linguagem de hoje, São Paulo, Paulinas, 2005).

CONTEMPLAR

A Terceira Tentação, William Blake, c. 1803-5, aquarela, lápis e pena sobre papel, 41,5 x 39,3 cm, Victoria and Albert Museum, Londres, Grã-Bretanha.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Caminho da Beleza 12 - V Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 12
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

V Domingo do Tempo Comum                     10.02.2013
Is 6, 1-2a.3-8                     1 Cor 15, 1-11                      Lc 5, 1-11

ESCUTAR

“Ouvi, então a voz do Senhor que dizia: ‘A quem enviarei? Quem irá por nós?’ Respondi: ‘Aqui estou! Envia-me’”(Is 6, 8).

“Por último, apareceu também a mim, que sou como um aborto. Pois eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, pois eu persegui a Igreja de Deus” (1 Cor 15, 8-9).

“Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!” (Lc 5, 10).

MEDITAR

“Senhor, ensina-me a te descobrir sem cessar e seja a respiração de minha vida. Meu céu interior, meu sol escondido, minha ternura e que eu possa, por tua graça, refletir tua face a todos os meus irmãos” (Maurice Zundel).

“Jesus nos convida cada dia a refazer o caminho de Emaús, a caminhar com nossos irmãos e irmãs. E nós podemos guardar a esperança. Ele nos prometeu, generosamente, sempre caminhar conosco. Saberemos responder a sua exigência e prometido convite?” (Yvan Poitres).


ORAR

O profeta ensina que a cada nova manhã devemos nos apresentar diante do Senhor não para conseguir a previsão do futuro, mas para recebermos o que nos foi consignado para este dia. O Senhor, imprevisível em suas decisões ao chamar alguém, é também imprevisível ao delegar tarefas cotidianas. Ele sempre nos surpreende com os pedidos mais audaciosos que sempre nos incomodam, pois sua palavra nunca é tranquilizadora. O Senhor nunca nos pedirá bagatelas, mas o que nos compromete para que não faltemos com os compromissos decisivos da vida. O evangelho de hoje revela que quando as palavras da nossa experiência se esgotam e ficamos desiludidos, ouviremos a Sua voz imperiosa: “Avança mais para o fundo, e ali lançai vossas redes para a pesca”. Não somos chamados a ficar estacionados no raso da praia lamentando o eterno movimento dos barcos, mas a arriscarmos, largamente, confiantes na Palavra do Senhor que sempre nos recompensará abundantemente. O milagre da vida está em, apesar das aparências e do derrotismo, confiar na Palavra que vira tudo do avesso. Nos três relatos da vocação aquele que é chamado descobre a própria insuficiência e miséria. Isaías exclama: “Ai de mim, estou perdido. Sou um homem de lábios impuros”; Paulo se reconhece como uma espécie de aborto e Pedro suplica: “Afasta-te de mim, porque sou um pecador”. O Senhor quando envia alguém não faz nenhum exame das suas virtudes, mas reconhece e agradece a sua disponibilidade. A Palavra de Deus não age em nosso lugar, não consola as nossas frustrações e nem melhora, num passe de mágica, a nossa situação. Ela sempre nos desinstala e nos coloca a caminho. Somos chamados para viver, avançar nas ondas e nas tempestades do mundo e sempre recomeçar a pesca. O discipulado deve aprender a viver na insegurança de quem “nada tem, mas possui tudo”. Não podemos fincar os pés nas areias para que a espuma do mar os lave, mas arriscar a vida pelos outros e, por esta razão, Jesus invoca: “Vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Ele nos desvela que o único porto seguro em que devemos ancorar nossas vidas é o amor fraterno construído e conquistado na travessia dos nossos barcos. Estejamos sempre atentos e em posição de sentinelas para que em todo momento e em cada novo chamado possamos responder: “Aqui estou, envia-me!”.


CONTEMPLAR

Conversão de Paulo, Fiona Worcester, 35 cm x 35 cm, óleo e têmpera sobre madeira com gesso, Londres, Reino Unido, 2004.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Caminho da Beleza 11 - IV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 11
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


IV Domingo do Tempo Comum                   03.02.2013
Jr 1, 4-5.17-19                   1 Cor 12, 31- 13, 13                       Lc 4, 21-30

ESCUTAR

“Antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já te conhecia, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações” (Jr 1, 5).

“O amor desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo. O amor jamais acabará” (1 Cor 13, 7-8).

“Em verdade, vos digo que nenhum profeta é aceito na sua própria terra” (Lc 4, 21, 24).


MEDITAR

“A estrada é a companheira que desposei. Ela me fala debaixo dos pés o dia todo, e a noite inteira canta para os meus sonhos. A senda e eu somos amantes. A cada noite eu troco de veste por sua causa, e a cada amanhecer deixo nas pousadas do caminho o estorvo dos velhos farrapos” (R. Tagore).

“Temos verdadeiramente lugar para Deus quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é o próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo fato de não termos tempo para Deus. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo tanto menos temos tempo disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido” (Bento XVI).

ORAR

O profeta Jeremias é de uma família sacerdotal sobre a qual, durante três séculos, caíra a proscrição por ser descendente do sacerdote Abiatar, culpado do complô contra Salomão (1 Rs 2, 26-27). Neste contexto, o chamado de Jeremias assume um profundo significado. Deus o conhecia antes que no seio da mãe fosse formado. Jeremias foi amado e consagrado por Deus no sentido inverso que havia sido colocado antes a sua família. De agora em diante, dependerá totalmente de Deus e de sua palavra. Conhecido, não para ser desprezado, mas amado; separado não no sentido da excomunhão e da discriminação, mas em vista de uma missão mais ampla. Jeremias foi ignorado, escarnecido, exilado, perseguido, ameaçado, insultado, denunciado por parentes e amigos e tudo porque queriam que ele falasse o que desejavam ouvir e que ele não podia dizer. O evangelista nos mostra o confronto de Jesus com o povo de Nazaré e revela a mesma incompatibilidade vivida por Jeremias. Os habitantes de Nazaré exigem que Jesus faça o que querem: “Todas as maravilhas que fizestes em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-as também aqui na tua pátria”. Até hoje, temos a pretensão de administrar a palavra profética segundo os nossos interesses. Jesus sai do seu povo e, como Elias e Eliseu, vai para outro lugar, buscar entre “os pagãos” a fé que escasseou entre os seus. A soberba religiosa os impedia de sair com Ele em busca dos que necessitavam de misericórdia e compaixão. Esta é a tentação permanente das pessoas religiosas que permanecem nos limites sufocantes da presunção: sequestrar o Cristo, aprisioná-Lo nos seus próprios esquemas e utilizá-Lo para seus próprios projetos. Jesus nos chama a sair de nós mesmos e a caminhar com Ele nas suas estradas de itinerários imprevisíveis. Jesus sempre funda e fundará Nazaré em outras partes, pois o povo de Jesus não é aquele em que nós nos situamos, mas onde Ele está: “Ele, porém, passando entre eles, foi-se embora” (Lc 4, 30). Se a palavra de Jeremias vem de outra parte, a de Jesus nos leva a outra parte. Em ambos os casos, é uma palavra que não se deixa confiscar por nossos desejos mesquinhos, pretensões e arrogâncias de poder. Jesus não é um sacerdote do templo e nem um mestre da Lei. Diferente dos reis e sacerdotes, o profeta não é chamado e nem ungido por ninguém, pois sua autoridade provém de Deus para consolar e guiar o seu povo quando os dirigentes políticos e religiosos não o fazem. Devemos pedir que o Senhor envie profetas para a sua Igreja, mais do que padres. Uma Igreja sem profetas caminha surda aos clamores do seu povo e acaba por colocá-lo sob a sua ordem e clericalismo por medo da novidade e da imprevisibilidade de Deus.

CONTEMPLAR

Escultura sem nome de Guido Rocha, Genebra, 1975, foto de capa do disco “Paixão segundo Cristino” de Geraldo Vandré e Frades Dominicanos, 1984, Fundação Cultural de Curitiba, Paraná, Brasil.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Caminho da Beleza 10 - III Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 10
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


III Domingo do Tempo Comum                   27.01.2013
Ne 8, 2-6.8-10                   1 Cor 12, 12-30                  Lc 1, 1-4; 4,14-21


ESCUTAR

“E Neemias disse-lhes: ‘Ide para vossas casas e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que nada prepararam, pois este dia é santo para o nosso Senhor. Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força’” (Ne 8, 10).

“De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12, 13).

“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 1, 21).


MEDITAR

“Minha vida é só um instante, uma hora passageira. Minha vida é somente um dia que me escapa e foge. Tu sabes, ó meu Deus! Para te amar sobre a terra não tenho nada a não ser hoje! (Santa Teresa do Menino Jesus).

“Deus é o único amigo que não coloca um fim à solidão essencial. Ele é aquele em que a solidão enquanto tal se realiza. Não é somente porque Ele é tão terno e tão discreto, nem porque Ele é tão grande que não podemos compreendê-Lo. É também porque nosso desejo de solidão não é absolutamente um desejo de nós mesmos, mas o desejo deste amor interior e deste diálogo” (Urs von Balthasar).


ORAR

Na Bíblia, o falar de Deus é dirigido essencialmente a um povo. A Bíblia não é um livro de oráculos em que cada um pode projetar as próprias ideias ou que lhe é mais conveniente para a sua cultura religiosa, para a sua devoção ou para as polêmicas contra os próprios adversários. A Bíblia “se enfraquece” quando se converte em objeto de uma busca individualista. A primeira leitura descreve o ato inaugural da nova comunidade israelita depois da volta do exílio. Há uma liturgia solene para a qual é convocado todo o povo, não só os homens, mas também as mulheres e as crianças. É um dia profético que destaca a qualidade sacerdotal de todo o povo e não somente a dos encarregados do culto. O Templo está em ruínas, destruído, mas a Palavra de Deus está viva e presente para reunir os dispersos e reconstruir um povo. Pela primeira vez, temos a notícia da construção de um ambão, uma espécie de púlpito, para aquele que deveria proclamar a Palavra: “Esdras, o escriba, estava de pé sobre um estrado de madeira erguido para este fim”. Os textos lidos são explicados, na busca de seu sentido, como uma tradução parafraseada, fiel e, ao mesmo tempo, livre, a qual se deu o nome de Targum. O povo ao ouvir as palavras reagia com temor e gozo, pois a palavra de Deus é uma espada de dois gumes: uma palavra que penetra os ossos, coloca a descoberto as ações e as intenções secretas do coração. Esta Palavra arranca o véu das nossas aparências e as máscaras das nossas hipocrisias. O evangelista apresenta Jesus, na sinagoga de Nazaré, atualizando as palavras do profeta: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus cria um novo hoje para todos os seus seguidores. Devemos “ler” a Bíblia e escutar a Palavra que Deus nos dirige para que possamos anunciar ao mundo a novidade de que Deus sonha grandes coisas para o homem. Estas grandes coisas não são nem a organização de uma religião mais perfeita nem um culto mais digno. Estas grandes coisas são levar a libertação, a esperança, a luz e a graça aos mais pobres e desafortunados. Esta é a opção do Espírito de Deus que anima e sustenta a vida inteira de Jesus. E devemos sempre dar graças que, na sua bondade, Ele jamais poderá não querer nos amar (Maître Eckhart).


CONTEMPLAR

Cristo Benedicente, Giotto (?), segundo decênio do século XIV,  painel central do Políttico Peruzzi, Museu de Arte, Kress Collection, Releigh, Carolina do Norte, Estados Unidos.