segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Caminho da Beleza 09 - II Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 09
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo do Tempo Comum                     20.01.2013
Is 62, 1-5                 1 Cor 12, 4-11                     Jo 2, 1-12


ESCUTAR

“Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62, 5).

“Há diversidades de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 4-7).

“Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não tem mais vinho!’” (Jo 2, 3).


MEDITAR

“Amar, é se esvaziar de si, ser pobre de si, fazer de si um espaço em que cada um possa respirar a sua vida” (Maurice Zundel).

“Aquele que vê sofrer o seu irmão na necessidade e lhe fecha seu coração exclui Deus do seu próprio coração. O amor de Deus e o do próximo são como duas portas que só podem ser abertas e fechadas ao mesmo tempo” (Kierkegaard).


ORAR

A inauguração da vida pública de Jesus é colocada, pelo evangelista, num contexto de festa de bodas. Aos nossos olhos, não parece ser o melhor lugar para os seus discípulos iniciarem o seu noviciado. Tudo começa numa festa para que nossa alegria não se empobreça. É um grande equívoco unir a Sua presença aos momentos de dor e de dificuldades em nossa existência. Jesus revela que nossas festas são tímidas e frágeis; que a algazarra esconde um vazio e uma angústia; que o vinho é insuficiente e de baixa qualidade. Com Jesus, a festa encontra a sua plenitude e não está limitada ao tempo. Com Ele, o vinho é novamente colocado sobre a mesa e nunca mais faltará. Todos se beneficiarão dos seus dons, inclusive os que não esperam nada Dele. Maria intervém não porque falta o pão, mas falta o vinho que é o símbolo da alegria. As seis talhas de pedra significam o número inacabado da imperfeição em oposição ao número sete que expressa a totalidade e a plenitude. As talhas estão vazias e o ritual complexo das purificações esconde sua ineficácia, pois a relação entre Deus e o homem só pode se restabelecer por meio do amor. Na festa, todos os rituais de purificação foram cumpridos conforme a Lei e, no entanto, só produziram ansiedade, medo e tristeza. Faltara o vinho do amor e Jesus vai oferecer a todos, em abundância, a degustação do seu vinho de ternura e alegria, pois “No amor não há lugar para o temor; ao contrário, o amor desaloja o temor. Pois o temor se refere ao castigo, e quem teme não alcançou um amor perfeito” (1 Jo 4, 18). O cardeal Ravasi é enfático: “O amor que existe sobre a face da terra e que reaparece cada vez que duas criaturas se encontram e se amam é o sinal do amor que Deus tem pela humanidade inteira”. Em Caná da Galileia, Jesus começou os seus sinais para manifestar a sua glória e João não nos fala de “milagres”, mas de sinais. Na festa das bodas, o sinal é dado pela preocupação de Alguém para que a festa seja completa. O Senhor sempre faz sinais, esboça sussurros de ternura e alegria para nos fazer, com o pudor do amor, suspeitar que Ele nos ama e quer intervir na trama ordinária da nossa vida para nos convidar para a festa. O mundo contemporâneo permanece indiferente à mensagem das igrejas cristãs porque as pessoas necessitam que elas apontem sinais que toquem as suas existências e corações. Sinais de compaixão, sinais de acolhida sem discriminação de pessoas, sinais que possam fazer descobrir nos cristãos a capacidade de se encontrar com Jesus que alivia os sofrimentos e nos sustenta a esperança nas dificuldades cotidianas da vida. Não podemos evangelizar a torto e a direito, como uma catequese de talhas de pedra, numa verborragia que só faz crescer o temor e a ansiedade e que é estéril e inexistente de sinais de vida, de alegria e comunhão compassiva. Escutemos Simone Weil: “Acima da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem apoderar-se de nós. Ele vem na sua hora. Nós temos o poder de consentir na acolhida ou na recusa. Se ficamos surdos, ele vem e volta novamente como um mendigo, mas também como um mendigo um dia ele não retorna mais”.


CONTEMPLAR

Casamento em Caná da Galileia, Isaac Fanous, s.d., Escola de Iconografia Copta Moderna, Cairo, Egito.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Caminho da Beleza 08 - Batismo do Senhor


O Caminho da Beleza 08
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Batismo do Senhor                    13.01.2013
Is 42, 1-4.6-7                      At 10, 34-38                       Lc 3, 15-16.21-22

ESCUTAR

“Eu, o Senhor te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42, 6-7).

“De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34-35).

“Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem querer” (Lc 3, 22).


MEDITAR


“A alegria durável nasce das bodas do amor de Deus e do amor do próximo no coração de nossa pessoa, no coração de nossos vínculos e de nossos serviços. Viver as beatitudes é reativar a Presença que nos habita, é marchar e divinizar nossa existência e a dos nossos irmãos e irmãs segundo o sonho de Deus” (Yvan Portras).

“Um homem que caminha, um pássaro que voa, uma folha que tomba: tudo anuncia o começo de uma dança. No coração do átomo e no ballet dos astros, o ritmo e a harmonia são semeados por nossos Criador e Pai. Escutar a música, olhar a dança são verdadeiras orações” (D. Helder Câmara).


ORAR


Jesus não se enquadra nos esquemas e nos escaninhos que os homens predispuseram para Ele. Jesus desmente a própria imagem apresentada pelo Batista: um Messias cheio de ira e que colocaria ordem “na casa”. O estilo de Jesus não casa com os gostos e as previsões dos que O esperavam. O seu modo diferente de ser é o de Servo (Is 42, 1ss): que não faz publicidade, não enche as praças com uma voz potente e sonora cheia de retóricas e ameaças. Ele é solidário com os perdedores, com os fracos; com os capazes de dar confiança e sustentar a esperança. Ele se coloca ao lado dos pobres e daqueles que não contam para a sociedade da opulência e do consumo. O batismo prefigura a morte e a ressurreição de Jesus. A imersão no rio simboliza a ação de morrer e o seu emergir a vida nova que surge e é selada pelo abrir do céu e a voz do seu Pai que declara o seu bem querer. O céu aberto para sempre traz o novo dia e nos faz saber que o muro entre Deus e os homens foi destruído: Deus não é mais o Inacessível. Jesus tem preferência por todos e “andava por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com ele”. Jesus manifesta o seu poder ao se ocupar dos fracos e se manifestar como manso e humilde de coração. O nosso batismo deve ultrapassar os registros dos arquivos paroquiais numa prática cristã que honre os compromissos que outros assumiram por nós. Não basta delegar à certidão paroquial a prova de que somos batizados. É necessário que o batismo seja assumido por nós para que não se sepulte como um ato convencional e social. Caso contrário, seremos demissionários do nome de cristãos que nos deram. Antes, quando crianças, não podíamos ler o Evangelho. Agora, podemos e devemos, pois temos o direito de saber o que somos e qual a prática de vida que nos qualifica como cristãos. Batismo e manifestação de Jesus de Nazaré coincidem. O que agrada o Senhor não são os ritos carentes de amor, mas uma vida “em espírito e em verdade” no Espírito de Jesus. O cardeal Ratzinger, papa Bento XV, escrevia: “O batismo é o arco-íris de Deus sobre nossa vida, a promessa do seu grande Sim, a porta da esperança e o caminhar numa união viva e pessoal com Jesus Cristo pelos seus caminhos. Olhando para Ele sabemos que Deus é maior que o nosso coração” (Homilia do Batismo, 07.01.1990). Paulo nos exorta: “Não matem o Espírito de Deus” (1 Ts 5, 19) e uma igreja com o Espírito apagado ou esvaziada do Espírito de Jesus não pode viver e nem comunicar sua verdadeira novidade e, muito menos, saborear e proclamar a Boa Nova.

CONTEMPLAR

Batismo de Cristo, El Greco, 1568, têmpera sobre painel, 24 x 18 cm., Galeria Estense, Modena, Itália.
















quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Caminho da Beleza 07 - Epifania do Senhor


O Caminho da Beleza 07
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Epifania do Senhor                   06.01.2013
Is 60, 1-6                 Ef 3, 2-3.5-6                       Mt 2, 1-12


 ESCUTAR


 “Levanta os olhos ao redor e vê, todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe nos braços.”(Is 60, 4).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 6).

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).


MEDITAR

“A vida nos oferece uma maravilhosa dádiva: o instante presente. Desejemos a graça de vivê-lo plenamente. O tempo corre como um rio. Ele passa e não volta. Aproveitemos, pois, o que o instante presente nos oferece tão generosamente” (François Gervais).

“A fé não é tanto a busca de Deus pelo ser humano, mas o reconhecimento pelo homem de que Deus vem a ele, o visita e lhe fala” (Bento XVI).


ORAR


Não devemos insistir excessivamente nestes elementos legendários de camelos, dromedários, estrelas, reis astutos como Herodes e magos que estão incrustrados nas estórias da Epifania. Esta festa representa um segundo nascimento revelado em dois temas essenciais e mais antigos do que o próprio Natal: a manifestação de Deus e a busca dos homens. A primeira iniciativa é de Deus e a partir dela os homens se colocam em movimento. Deus vem ao nosso encontro e seus passos se adiantam aos nossos. Nós O encontramos porque Ele nos busca. O homem não conquista Deus, mas se deixa conquistar: “Tu me seduzistes, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20, 7). A manifestação do Senhor assume contornos planetários: “Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho”. Esta festa não permite nenhuma apropriação privilegiada e exclusiva: os filhos chegam de longe (Is 60, 4); chegam os pagãos (Ef 3, 6); chegam os inesperados (Mt 2, 1) e os adoradores imprevistos (Mt 2, 11). A geografia de Deus é impossível de ser ensinada, pois a sua manifestação suscita um movimento imprevisível, sem controle e sem regulamentos. É uma geografia sem confins e na qual é impossível estabelecer quem é “próximo” ou quem é “distante”. Uma geografia em que as distâncias são abolidas por um raio de luz, por uma secreta inquietude e por uma incrível nostalgia do futuro. O sinal da estrela é espetacular, mas a realidade é modesta, ordinária e quase decepcionante. É mais fácil ver uma estrela e ficar impressionado por sua aparição do que nos defrontarmos com um cenário familiar e tão comum. E neste momento, entra em jogo a fé, uma vez que somente a fé nos permite ver além das aparências e, consequentemente, adorar. Os magos não fazem parte dos descendentes de Abraão; não conhecem o Deus vivo e verdadeiro; não são circuncidados, ou seja, não são membros da Aliança que tem por sinal esta incisão na carne e nem mesmo é a Palavra de Deus que os guia na sua viagem. No entanto, sua busca de Deus, suas meditações e suas minuciosas investigações científicas dos sinais da natureza lhes permitem fazer uma leitura visionária que os impulsiona a partir, seguindo simplesmente a luz de uma estrela. Os magos evidenciam que esta criança é uma bênção destinada a toda a humanidade conforme a promessa feita a Abraão: “Por ti e por tua descendência todos os povos do mundo serão abençoados”(Gn 28, 14). Os padres conciliares afirmavam que todas as culturas e tradições trazem nelas os traços e as sementes da palavra de Deus e, nós, cristãos, devemos nos alegrar por descobrir e valorizar as sementes do Verbo escondidas nas culturas e religiões dos vários povos (cf. Ad Gentes 112). A epifania nos questiona se somos e seremos capazes de testemunhar a salvação definitiva que Deus nos traz por meio de Jesus Cristo, manifestando uma simpatia cordial com todos os homens e mulheres de todas as raças, culturas e crenças. Gravemos nos nossos corações em mentes as palavras do papa Bento XVI: “O Senhor quer que também nós cheguemos a ser estrelas; que também em nós aconteça esta explosão transformadora da fé, por meio da qual é liberada a luz que Ele depositou em nós para que encontremos o caminho e cheguemos a ser os indicadores do caminho para os outros”.


CONTEMPLAR

Sonho dos Magos, capitel de Gislebertus, c. 1120, Catedral de São Lázaro, Autun, Borgonha, França.




sábado, 29 de dezembro de 2012

Mensagem de Ano Novo




Percebi que estar com os que amo é o suficiente,

Descansar na companhia dos demais, à noitinha, é o suficiente,

Estar cercado por pessoas lindas, curiosas, arejadas, sorridentes é o que basta,

Passar por entre elas ou tocar qualquer um deles, ou descansar meu braço sempre tão leve em torno do pescoço dele ou dela, por um momento, o que é isso então?

Não peço nada mais delicioso do que isso, nado nessa experiência como se fosse um oceano.

Há algo especial em estar próximo de homens e mulheres, observando-os, em contato com eles e com seu perfume, e é isso que dá tanto prazer à alma,

Todas as coisas dão prazer à alma, mas com esses prazeres a alma de fato se sente bem.


(WALT WHITMAN, Folhas de Relva)

Foto de A. Crickmay, 1977, London Contemporary Dance Theatre, Theatre de La Ville (Sarah Bernhardt), Paris, França.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Caminho da Beleza 06 - Sagrada Família


O Caminho da Beleza 06
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Sagrada Família             30.12.2012
Eclo 3, 3-7.14-17              Cl 3, 12-21               Lc 2, 41-52


 ESCUTAR

“Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe” (Eclo 3, 7).


“Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro” (Cl 3, 12-13).

“Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai’. Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera” (Lc 2, 49).


MEDITAR

“Sim, tu me deste muito. Mas eu te peço muito mais. Não venho a ti só por um gole d’água. Quero a fonte. Não venho para que me levem apenas até a porta. Quero ir até a sala do Senhor. Não venho apenas para receber o dom do amor. Desejo o próprio Amante” (R. Tagore).

“Deus diz: ‘Eu sou a bondade soberana de todas as coisas. Eu sou o que faz você amar. Eu sou o que faz você durar e desejar. Eu sou isto – o cumprimento sem fim de todos os desejos’” (Julian de Norwich).


ORAR


Na tradição do Antigo Testamento a família era constituída para procriação e repousava sobre uma estrutura patriarcal de parentesco cujo principal cuidado era a perpetuação de uma linhagem. A família de Jesus é uma reviravolta nesta tradição. Maria, como rezava a tradição, havia sido “prometida a um homem chamado José, da família de Davi” (Lc 1, 27), mas o Arcanjo Gabriel lhe anuncia algo absolutamente revolucionário: a nova família será constituída a partir de afinidades eletivas e escolhas amorosas. José, em sonho, ouviu a palavra do anjo e a respondeu acolhendo a jovem e a criança que ela carregava no ventre, ainda que não fosse o autor desta gravidez e nem o genitor deste filho. José confia e se coloca disponível: "José não tenhas medo de acolher Maria como tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo”. Uma mulher plena do Espírito de Deus não pode e nunca poderá ser submissa. Maria, em vigília, ouve a palavra do anjo e, apesar de temerosa e perturbada confia e se coloca à disposição do desígnio de Deus. Ouvir a palavra, responder com um sim incondicional e estar absolutamente disponível são os novos pilares desta nova estrutura familiar na qual o amor recíproco e o crer sustentam a comunidade cristã e cada família nas suas plurais formas de existir. José e Maria ensinam – ele em estado de sono e ela em estado vigília – que devemos estar sempre, consciente ou inconscientemente, disponíveis para escutar e acolher a palavra de Deus. Não podemos nos confundir: existe um abismo entre sermos pais e genitores. Um homem e uma mulher precisam de alguns segundos para se tornar genitores e são estes que vêm seus filhos como propriedade particular, preocupados em fazer crescer o patrimônio familiar e em continuar o sobrenome da família. Na família de Deus, gerada a partir de Maria, José e Jesus, ser pai, mãe e filho é uma aventura de outra natureza. É uma escolha amorosa, uma afinidade eletiva e um compromisso de entrega para educar e conduzir os seus filhos e filhas para opções de liberdade que poderão gerar mais vida e mais desejos. Para a mentalidade retrógada dos que se reduziram à família nuclear burguesa tudo escandaliza nesta Santa Família. A família de Deus se concretiza de uma forma extraordinária aos padrões convencionais sacralizados: José, um homem sem mulher; Maria, uma virgem sem esposo e Jesus, uma criança sem pai. Deus revela, para todo o sempre, que o mais importante é a adoção pelo coração, o centro da vida. A revelação perturbadora é a de que só existem pais adotivos que superam a sua condição de genitores biológicos quando há a atitude radical da disponibilidade de dar a sua vida pelos que amam. Esta, segundo Jesus, é a maior prova de amor. Cada filho é portador de um mistério. Existe nele uma vocação pessoal, única, que nunca se repete e que jamais poderá ser sacrificada aos nossos projetos egoístas, às nossas ambições utilitaristas. Cada componente da família representa uma realidade consagrada que deve ser respeitada e valorizada. Nenhuma postura arbitrária contrária à dignidade e à liberdade deve profanar essa sacralidade que é própria da pessoa. A Sagrada Família nos ensina que devemos viver e preparar os nossos filhos para a imprevisibilidade de Deus. Somente o exercício da oração e do silêncio poderá trazer, como trouxe aos pais de Jesus, a inteligência da carne, do coração e do espírito. E, neste silêncio, poderemos descobrir, como afirma Paulo, que “somos cidadãos do céu” (Fl 3, 20). A família de Deus é cósmica e nela se cumpre a Sua promessa: “Eis que farei novas todas as coisas e renovarei o universo!” (Ap 21, 5).



CONTEMPLAR

A Santa Família, ícone com base na pintura a óleo de Francisco Argüello, s. d., 25 x 30 cm, Ícones do Atelier Notre-Dame, Paris, França.






sábado, 22 de dezembro de 2012

O Caminho da Beleza 05 - Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo


O Caminho da Beleza 05
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo                       25.12.2012
Is 52, 7-10               Hb 1, 1-6                  Jo 1, 1-18

ESCUTAR

“Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: ‘Reina teu Deus!’” (Is 52, 7).

“Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo. Este é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser” ( Hb 1, 1-3).

“E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).


MEDITAR

“Natal, não é somente uma alegria que nasce da terra. É a revelação da bondade infinita de Deus, o sinal de um destino misterioso que toca o mundo e os homens. É um pensamento do amor infinito que abre o céu fechado do mistério impenetrável da vida íntima do Deus desconhecido e o comunicou a terra” (Paulo VI).

“O Cristo nos faz uma única exigência: nunca limitar nada!” (Maurice Zundel).


ORAR


Neste dia de Natal, comemoramos e damos graças porque Deus pronunciou a sua última palavra e este Menino na manjedoura é “a expressão do seu ser (...) o que faz dos ventos os seus anjos e das chamas de fogo os seus ministros” (Hb 1, 3.7). O Cristo nasceu para todos e o Natal é o dia em que o mistério sagrado se tornou santo e especial. Não é somente um dia a mais na fastidiosa ronda dos dias. Hoje, “a eternidade entra no tempo e o tempo, santificado, entra na eternidade” (Thomas Merton). Natal se tornou uma palavra mágica e todos são atingidos por ela: os bons cristãos e os de Boa Vontade procuram nela o seu gosto especial. É uma festa que a todos pertence, cristãos ou não. É a festa em que nos permitimos uma trégua, sobretudo no ciclo vicioso das nossas amarguras, dos nossos rancores, dos nossos maus silêncios e até dos nossos ódios. Muitas vezes, pode ser o momento de graça e de paz em que muitas pessoas se reconciliam. Anunciamos a Boa Nova de que o Deus que estava distante se tornou próximo neste recém-nascido, filho de Maria e de José. E nesta realidade tocamos o coração do cristianismo. Podemos ser vagamente deístas, mas só começamos a ser cristãos quando reconhecemos neste menino nascido de uma mulher, o próprio Filho de Deus. Este mistério da Encarnação nos ultrapassa completamente e só podemos acolhê-lo na pura fé. É muito belo para ser verdade porque, diante do Deus-Menino da manjedoura, é preciso que reencontremos a ingenuidade e a maravilha desta Criança. O Natal é uma Boa Nova porque não estamos mais sós, não estamos mais condenados a um destino cego subordinado a uma eterna repetição da usura, do aleatório e da morte. A novidade da mensagem de Jesus não é a de ter anunciado a ressurreição dos mortos: os judeus já acreditavam nela; nem ter prometido a vinda do Filho do Homem no último dia: os judeus já esperavam esta vinda. A novidade da mensagem de Jesus é ter manifestado para toda a humanidade o nascimento de um novo Deus. Não mais um Deus distante, mas próximo; não um deus do cosmos, mas um Deus dos vivos e dos mortos; não um Deus justiceiro e violento, mas um Deus do amor e da paz que toma o partido dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados e dos pecadores. A mensagem de Natal é a mensagem de Paz para todos os homens e, por isso, devemos ser mensageiros da Paz para nossos irmãos e irmãs de todos os cantos da Terra e de todas as religiões. E o Reino de Deus que vem a cada novo Natal, é um Reino que acontece e se realiza cada vez que o amor triunfa sobre o ódio; cada vez que a reconciliação coloca um fim na engrenagem da violência e da banalização da vida e, sobretudo, cada vez que o desejo da paz é mais forte que a fatalidade da guerra. Neste Natal, Emmanuel volta a caminhar, para sempre, até nós como faz há 2013 anos. Nada, até fim do mundo, O impedirá de vir e permanecer junto de nós. Meditemos as palavras de Johannes Tauler, místico do século XIV: “É no meio do silêncio, no momento em que todas as coisas estão mergulhadas no maior silêncio, em que reina o verdadeiro silêncio, é então que se ouve em verdade essa Palavra, pois se queremos que Deus nos fale é preciso que nos calemos. Para que Ele entre, todas as coisas devem sair”. Amém!

CONTEMPLAR


Adoramos-te (detalhe), Jean-Marie Pirot (Arcabas), 1985, Église de Saint-Hugues-de-Chartreuse, Isère, França.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Natal de 2012




“Deus pede nosso amor, por isto se faz criança. Não quer de nós mais do que nosso amor, por meio do qual aprendemos espontaneamente a entrar em seus sentimentos, em seu pensamento e em sua vontade: aprendamos a viver com ele e a praticar também com ele a humildade da renúncia que é parte essencial do amor” (Bento XVI).


Que nossas vidas sejam testemunhas de uma encarnação até as últimas consequências para que a verdade do amor seja vingada como na Profecia Extrema de Dom Pedro Casaldáliga:


“Eu morrerei de pé como as árvores.

Me matarão de pé.

O sol, como testemunha maior, colocará seu lacre

Sobre meu corpo duplamente ungido.

E os rios e o mar

Serão caminho

De todos os meus desejos,

Enquanto a selva amada sacudirá, de júbilo, suas cúpulas.

Eu direi às minhas palavras:

- Não mentia ao gritar-vos.

Deus dirá aos meus amigos:

- Certifico que viveu com vocês esperando este dia.

De golpe, com a morte,

Minha vida se fará verdade.

Por fim terei amado!”