quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 02
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


II Domingo d0 Advento                       09.12.2012
Br 5, 1-9                   Fl 1, 4-6.8-11               Lc 3, 1-6


 ESCUTAR

“Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto e olha para o Oriente! Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles” (Br 5, 5).

“E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é melhor. E assim ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus” (Fl 1,9-10).

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’!” (Lc 3, 4).


MEDITAR

“O importante não é fazer muitas coisas nem fazer tudo. O que importa é estarmos prontos em todo momento. O importante é estarmos convencidos de que quando servimos os pobres, servimos realmente a Deus” (Madre Teresa de Calcutá).

“O povo santo de Deus participa da função profética de Cristo. Dá o testemunho vivo de Cristo, especialmente pela vida de fé e de amor e oferece a Deus a hóstia de louvor como fruto dos lábios que exaltam o seu nome” (Lumen Gentium 12).


ORAR

            O Advento está dominado pelo sentido da espera e pelo dever da esperança. O profeta exorta a que nos despojemos das “vestes de luto e da aflição” para que possamos “revestir para sempre os adornos da glória vinda de Deus”. Ele conclama a nos “cobrirmos com o manto da justiça que vem de Deus e a pôr “na cabeça o diadema da glória do Eterno”. Os que foram arrastados para o exílio da Babilônia voltarão “conduzidos com honras, como príncipes reais”. O profeta é aquele que consegue ver de outra maneira e anima os outros a ver o que ainda não existe. Adivinha a luz na escuridão absoluta; intui a reconstrução no caos da devastação; vislumbra uma presença na solidão espantosa do deserto e faz explodir a alegria no olho do furacão. Olhar de outra maneira representa o maior desafio a uma situação intolerável. O profeta é o homem da esperança. O evangelista apresenta sua narrativa salpicada de nomes famosos do império romano e de autoridades religiosas. No entanto, tudo isto só serve para nos aproximar do profeta João, o Batista que prega no deserto. Quando Deus intervém na história dos homens, sua palavra está nos lábios de um personagem não oficial. Um tipo considerado “fora de si” pelas autoridades constituídas. Paradoxalmente, somos chamados a “ver” a palavra de Deus “dirigida” a João e que desce às profundidades de cada um de nós, pois, com certeza “todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Esta salvação é uma Palavra que além de ser “escutada” deve ser “vista”, reconhecida e acolhida no meio de nós. Esta Palavra, com frequência, desponta onde menos esperamos e se apresenta, muitas vezes, quando não queremos. A Palavra de Deus “desce” no meio de nós para falar e busca o silêncio. Um silêncio conquistado pelo despojamento das autossuficiências e das falsas seguranças para que a acolhida seja total. Paulo nos convida a discernir e escolher o essencial, sem deixar que as discussões intermináveis e fúteis nos seduzam. O essencial é o amor fraterno. Este amor que não sufoca as diferenças e que nos torna mais humanos, pois só o amor representa a verdade última diante da qual as “outras verdades” são sempre penúltimas. A Palavra de Deus não está escondida e encerrada num texto com sinais arqueológicos a serem decifrados; nem a palavra escrita deve permanecer como um repertório de argumentos para uso dos doutores e muito menos como preceitos para uso dos moralistas. A Palavra se encarna para curar nossos olhos, para eliminar nossa cegueira e purificar o nosso olhar de tudo o que nos torna estreitos e míopes de visão. Não podemos ser, como cristãos, homens e mulheres que pensam que para ver basta manter os olhos abertos. Sabemos que para ver é preciso que o Cristo acenda dentro de nós uma faísca da sua luz. A esperança que deve nos consumir e que devemos proclamar é esta: “das espadas forjarão arados; fundirão lanças para delas fazer foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra e nunca mais se treinarão para a guerra”(Is 2, 4). Sejamos nós a cada dia e todo o dia os profetas peregrinos entre o tempo e a eternidade.


CONTEMPLAR

Virgem, o menino Jesus e São João, o Batista, William Bouguereau, 1875, óleo sobre tela, 122 x 200,5 cm, Coleção Particular, França.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento


O Caminho da Beleza 01
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

I Domingo de Advento                         02.12.2012
Jr 33, 14-16                                    1 Ts 3, 12-4,2                     Lc 21, 25-28.34-36


ESCUTAR

“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a sementa da justiça” (Jr 33, 14-15).

“O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós” (1 Ts 3, 12).

“Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36).


MEDITAR

“Não se trata de anunciar a alegria, mas de só procurá-la no serviço da alegria de todos. De todos, a começar pelos mais próximos, e depois estender, de próximo em próximo, até a alegria universal” (Abbé Pierre).

“O que chamamos de início é o mesmo do que o fim e acabar é começar. E o fim é de onde partimos” (T. S. Eliot).


ORAR

Neste primeiro domingo de Advento, a existência cristã está fundamentada sob o signo da espera. A espera de um duplo acontecimento e de uma dupla vinda do Cristo: na carne (Natal) e na glória (Juízo Final) e estes dois acontecimentos, que se entrelaçam, só podem ser vividos na esperança. E esta espera/esperança está centrada na mesma pessoa: o Cristo. O profeta anuncia que a justiça de Deus é manter as promessas que fez em favor do seu o povo. E o Senhor não quer faltar à palavra dada, pois a justiça tem o mesmo rosto de sua misericórdia. O tempo do Advento é o tempo para que nos purifiquemos de todos os ídolos que nos são oferecidos cotidianamente: as aparências, os status, os poderes. O cristão conjuga o verbo esperar não como uma esperança vaga e modesta, mas como uma esperança audaz que tem como raiz o dom que, em Cristo, nos vem de Deus. O cristão não foge da existência cotidiana, mas está sempre atento para não ser pego desprevenido e nem distraído. O cristão alimenta a sua lucidez diante das inúmeras seduções que o possam desviar do desígnio de Deus e, desta maneira, fazê-lo perder o sentido do caminho a ser seguido. Somos chamados a termos “nossas cinturas cingidas e as lamparinas acesas” (Lc 12, 35), uma vez que, como sentinelas, não nos cabe um minuto de desatenção e nem de descanso, pois deveremos estar “em pé diante do Filho do Homem”. E o Senhor nos promete “que essa humanidade se emancipará da escravidão da corrupção, para obter a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). Neste domingo, é preciso proclamar que o amor que se encarna é o mesmo que nos julgará pelo amar que conseguimos. O tempo de Advento é um tempo de crise; uma ruptura com a nossa mediocridade e um mergulho no amor e na prática do amor, pois só conhecemos, quase que plenamente, a existência daqueles que amamos. Meditemos as palavras de Ernesto Cardenal, monge trapista da Nicarágua: “Dentro de nós está o amor. Deus está louco de amor e, portanto, seu comportamento é imprevisível. Em qualquer momento o Amante pode cometer um disparate, porque como todo o que ama, não raciocina. Está bêbado, embriagado de amor”. Ou, em bom espanhol: “Dios está borracho de amor!”.


CONTEMPLAR

Madona com a Criança, Luis de Morales, c. 1570, óleo sobre painel, 84 x 64 cm, Museu do Prado, Madri, Espanha.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Caminho da Beleza 53 - Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo


O Caminho da Beleza 53
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo                  25.11.2012
Dn 7, 13-14             Ap 1, 5-8                  Jo 18, 33b-37

ESCUTAR

“Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7, 14).


“Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra” (Ap 1, 5).

“Jesus respondeu: ‘Mas o meu reino não é daqui’” (Jo 18, 36).

MEDITAR


“Os membros da Igreja não devem sentir ciúmes, mas se alegrar se alguém externo à comunidade faz o bem em nome de Cristo, contanto que o faça com reta intenção e com respeito. Mesmo dentro da própria Igreja pode acontecer, às vezes, que se custe a valorizar e a apreciar, em um espírito de profunda comunhão, as coisas boas realizadas pelas várias realidades eclesiais. Em vez disso, todos devemos ser capazes de nos apreciar e estimar reciprocamente, louvando o Senhor pela infinita ‘fantasia’ com a qual ele age na Igreja e no mundo”(Bento XVI, Angelus 30.09.2012).

“Somos tentados, a Igreja inteira é muitas vezes tentada a fazer de Jesus um rei deste mundo e de garantir o seu império como os daqueles reis deste mundo. Outras vezes, a Igreja é também tentada a fazer um deus ou um filho de Deus de um rei deste mundo ou de um imperador. Mas sempre este rei de zombaria desvela a sua mentira e Deus ri diante da vaidade desvelada” (Cardeal Lustiger).


ORAR

Tudo o que está abaixo das nuvens do céu, o mal, a desordem, a prepotência, as tiranias de todos os tipos, a violência, saem do fundo do abismo e ainda que sejam realidades dominantes e terríveis são provisórias. Elas serão definitivamente derrotadas por Aquele quem vem “entre as nuvens do céu”. Jesus, o Traspassado na Cruz, é a expressão suprema do amor que se dá e que, por sua vez, traspassa todo poder mundano para fazer vingar no mundo a força irresistível do amor. Tantas vezes nos colocamos à margem do Crucificado e O impedimos de traspassar o nosso orgulho, a nossa presunção, o desejo de supremacia, a imposição das ideias. Precisamos, definitivamente, aprender que o que é relevante nesta dimensão do poder civil e religioso não tem nenhuma consistência, nem valor algum na perspectiva do Reino de Deus. Tantas vezes queremos e produzimos reis para depositarmos nossas esperanças. Em nome deles, os homens batalham entre si, condenam para assegurar a justiça; assassinam para proclamar o direito; denunciam para acreditar que dizem a verdade; roubam para garantir a equidade; mentem para não serem punidos e as igrejas abençoam os seus canhões para que se matem, uns aos outros, a fim de conquistar a paz. E quando morre o rei, isso não vale nada, pois “um rei morto não vale um cão vivo” (provérbio ancestral). Olhar na direção do Traspassado (Jo 19, 37) significa querer seguir tão somente a lógica do amor e descobrir que tudo o que está em oposição a esta lógica nos coloca ao lado dos que traspassam. Não podemos querer construir o Reino de Deus calcando-o sobre os modelos, os estilos e os programas dos reinos da terra. Não podemos sacralizar nenhum deles que existiu, existe e ainda vai existir para encobrir o Mistério do Amor, o único reino verdadeiro. Jesus se apresenta como semador, pastor e pescador. Semeia sementes de várias espécies, pastoreia todos os tipos de ovelhas e manda lançar a rede para alcançar uma variedade de peixes. O Reino de Deus acolhe a diversidade e a pluralidade dos que amam e dão testemunho da verdade deste amor. Jesus nos entrega o élan vital de um amor como convicção, que chamamos fé; de um amor como ação transformadora que nomeamos esperança. Basta de utilizarmos a Cruz do Cristo, símbolo inequívoco da recusa à violência, para impor à força os direitos de uma Cristandade como se, com isto, conquistássemos espaços para o Reino. Jesus é enfático diante do poder romano: “Mas, o meu reino não é daqui” e nesta conjunção adversativa, desta minúscula partícula mas nos faz compreender o Seu Reino. Este mas é a pedra áspera com que devemos bater no peito até que nossa boca possa dizer, com convicção, diante do Traspassado: “Sim, amém!”.


CONTEMPLAR

Cristo destacado da cruz, século XII, madeira com traços policromados, 155 x 168 x 30 cm, Museu do Louvre, Paris, França.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 52
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXXIII Domingo do Tempo Comum                                 18.11.2012
Dn 12, 1-3                Hb 10, 11-14.18                 Mc 13, 24-32


ESCUTAR

“Naquele tempo, se levantará Miguel, o grande príncipe, defensor dos filhos de teu povo” (Dn 12, 1).

“Não lhe resta mais senão esperar até que seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés” (Hb 10, 13).

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13, 31).


MEDITAR

“Todos os pequenos atos vividos de amizade são pequenas joias. Como o diamante, são forjados no fogo das provas e do despojamento. Como o diamante, são indestrutíveis. Quando o sopro do Espírito habita um homem, ele nada teme, nem mesmo a morte”(Soeur Emmanuelle).

“Hoje não existem deuses que possam ser explicitamente definidos como tais. Porém existem forças diante das quais o homem se dobra. O capital, a propriedade em geral, bem como a ambição, são algumas delas. O bezerro de ouro é, sob diversos aspectos, de grande atualidade no mundo ocidental. O risco existe de nos reduzirmos a uma tecnocracia cujo único critério seria o aumento do consumo”(Bento XVI).


ORAR

Os textos “apocalípticos” podem nos conduzir a dois tipos de leitura: à dos anunciadores de desventuras e experts em catástrofes ou à dos semeadores da esperança e construtores do futuro. O papa João XXIII discursava na abertura solene do Concílio Ecumênico Vaticano II, em 11 de outubro de 1962: “As pessoas só veem desastres e calamidades nas condições em que atualmente vive a humanidade. Temos o dever de discordar desses profetas da miséria, que só anunciam infortúnios, como se estivéssemos no fim do mundo”. Há sempre sinais de alegria nestes tempos “apocalípticos”. No profeta, os que dormem no pó da terra despertarão e os sábios brilharão como o firmamento. No evangelho, entre os escombros e as cinzas brotará uma figueira com seus ramos verdes como um presságio de primavera e dos frutos de verão. Deus tem a última palavra e é uma palavra que não passa e julgará a História. Estamos sempre diante da alternativa de escolher entre perspectivas contrastantes: boas ou más notícias; o fruto seco ou folhas verdes; o relâmpago que cega ou a luz delicada de algo que começa. O mais importante é saber que o Senhor está “próximo, às portas”; que o mundo novo já está presente dentro de nós e que na fragilidade do coração está o futuro e o eterno. A “palavra que não passa” nos garante que Deus nos chama à vida e que a chamada se coloca tanto no princípio como no final e se dispõe para a gente no meio da travessia. Devemos alimentar a certeza de que um dia chegará a Vida definitiva, sem espaço nem tempo, e viveremos no Mistério de Deus. O sol, a lua e os astros se apagarão, mas o mundo não restará sem luz. Será o Cristo quem o iluminará para sempre pondo a verdade, a justiça e a paz na história humana tão escrava dos abusos, das injustiças e das mentiras. Jesus adverte que o fruto de uma doutrina petrificada, de uma ideologia sustentada pelo terror, de uma religião fundamentalista sempre nos conduz à guerra e que diante da ruína só dispomos de um lugar de esperança: o coração. Para os cristãos, a Cruz que devem abraçar todos os dias não é derrota nem malogro, mas o advento do Humano que nos conduzirá à Vida Eterna ao destruir os poderes da Morte: “No mundo passareis por sofrimento e tribulações, mas tende ânimo e coragem, pois Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33). E o Filho do Homem transformará “o deserto num Éden, o ermo em paraíso do Senhor; aí haverá prazer e alegria, com ação de graças ao som de instrumentos” (Is 51, 3) e, para sempre, a profecia se cumprirá: “O lobo e o cordeiro andarão juntos, a pantera se deitará com o cabrito, o bezerro e o leão engordarão juntos; um menino os pastoreia” (Is 11, 6).


CONTEMPLAR


Reino Pacífico, Edward Hicks, 1834, óleo sobre tela, National Gallery of Art, Washington, Estados-Unidos.




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Caminho da Beleza 51 - XXXII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 51
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXXII Domingo do Tempo Comum                       11.11.2012
1 Rs 17, 10-16                     Hb 9, 24-28                       Mc 12, 38-44


ESCUTAR

“Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’” (1 Rs 17, 14).

“Mas foi agora, na plenitude dos tempos que, uma vez por todas, ele se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo. O destino de todo homem é morrer uma só vez, e depois vem o julgamento. Do mesmo modo, também Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão, aparecerá uma segunda vez, fora do pecado, para salvar aqueles que esperam” (Hb 9, 26- 28).

“Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada” (Mc 12, 41).


MEDITAR

“Quando vemos a quantidade que foi dada não podemos calcular tudo o que foi guardado por aquele que deu muito. Não vemos tudo o que roubou do outro; aquele que devolve uma parte aos pobres, como que para comprar Deus, seu Juiz” (Santo Agostinho).

“A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e vazias e a burocracia eclesiástica está crescendo, os nossos ritos religiosos e vestimentas são pomposos” (Cardeal Martini).


ORAR

São duas as viúvas irmanadas pela pobreza quase miséria. Uma, pagã, salva com sua generosidade o profeta perseguido. A outra, hebreia, cujo nada que possui se converte no todo e tudo o que dá. Os dois gestos não fazem nenhum estardalhaço, não chamam a atenção e nem são anunciados pelos clarins. Jesus revela que não devemos nos deixar enganar pelo clamor dos espetáculos e nem pelas excitações deslumbradas que eles nos oferecem, pois são os sinais modestos, como os das viúvas, que conduzem a Deus. Oferecer o último punhado de farinha, a última gota de azeite, as duas únicas moedas que se possui são ações verdadeiramente grandes que só os pequenos e os pobres são capazes de realizar. Jesus acusa os escribas de vaidade, de hipocrisia e de cobiça. A vaidade expressa nas vestimentas voluptuosas, nas reverências e saudações dos abastados. A hipocrisia revelada pela devoção ostensiva e na quantidade e extensão das orações oferecidas como espetáculo para arrecadar a admiração e a estima dos outros. A cobiça que se dá na exploração sem pudor dos escribas que se servem do seu prestígio religioso para amealhar, como parasitas, benefícios materiais à custa dos mais simples e despossuídos. São os que, ao invés de orientar o povo para Deus, buscando a sua glória, atraem a atenção das pessoas para si próprios. Jesus, no entanto, ensinou para a sua comunidade um agir oposto: fazer-se último e servo; ter fé e perdoar; acolher os menores e indefesos. O Papa Bento XVI pregava: “Nossa fidelidade ao Cristo não deve nos levar à busca de honrarias, de notoriedade e de celebridade, mas ela nos convida a compreender e a fazer compreender que a verdadeira grandeza se encontra no serviço e no amor ao próximo”. Deus não olha a mão cheia de dinheiro, mas o coração. Ninguém dá mais do que aquele que não guarda nada para si ainda que seja um copo d’água. Jesus entregou o seu corpo e o seu sangue como a viúva entregou as duas moedas restantes do trabalho do seu corpo e do sangue de suas mãos. Jesus, como as duas lenhas da viúva de Sarepta, ardeu de amor nos dois lenhos que fizeram a sua cruz. Neste gesto de doação absoluta, condenaram, para todo o sempre, os que acumulam riquezas, os que dão apenas um pouquinho do muito que lhes sobra e dos que “entram, cada ano, no santuário com sangue alheio”. Jesus e estas mulheres doaram tudo o que tinham uma única e definitiva vez. Jesus nos quer fazer aprender e praticar que a nossa relação com Deus exige tudo e não apenas qualquer coisa.


CONTEMPLAR
Profeta Elias e a Viúva de Sarepta, Bernardo Strozzi, 1630, óleo sobre tela, 106 x 138 cm, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Caminho da Beleza 50 - Festa de Todos os Santos


 O Caminho da Beleza 50
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

Festa de Todos os Santos                    04.11.2012
Ap 7, 2-4- 4.9-14               1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12


ESCUTAR


“Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão” (Ap 7, 9)

“Amados, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1 Jo 3, 2).


“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: Bem aventurados...” (Mt 5, 1-3).


MEDITAR

“A santidade é a humanidade inteira acolhida na redenção do Cristo, pois a santidade não é um exame de passagem difícil mesmo quando é realizado pela autoridade da Igreja. A santidade é uma graça de Deus que liberta o homem do seu pecado e o faz entrar na comunhão de Deus” (Cardeal Lustiger).

“Deus, que se fez Cordeiro, diz-nos que o mundo é salvo pelo Crucifixo e não pelos que crucificam. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens” (Bento XVI).


ORAR

Os santos, quando aparecem em nosso horizonte, constituem uma provocação, pois o melhor de nós que se esconde no mais profundo do coração não é outra coisa que a santidade. O mais grave é imaginar que a santidade está vinculada a fenômenos excepcionais ou é feita de uma matéria rara. A santidade é feita exclusivamente de amor, é uma questão de amor e o amor é tudo: é ele que nos torna santos e o santo é alguém que não tem medo de se deixar amar. João nos incentiva: “Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos”. Muitas vezes não apenas não queremos conhecer o que seremos, mas também não queremos saber o que somos e o que podemos ser e, por esta razão, temos dificuldades em aceitar as infinitas possibilidades que Deus nos oferece. Os santos aceitam todas as possibilidades de Deus. Como afirma o cardeal von Balthasar: “Ser santo é suportar o olhar de Deus”. Deus age em nós como uma música silenciosa porque não precisamos, necessariamente, falar de Jesus, pois falar Dele é sempre limitá-Lo e, quase sempre, fazer Dele uma caricatura. As bem-aventuranças não se dissolvem no tempo finito porque elas têm a mesma duração de Deus e Deus não descumpre a sua promessa e nem retira a sua palavra. Basta que nos aproximemos delas para ouvi-las. Santos são todos os que tiveram a coragem de dar esse passo de aproximação, de romper a sua maneira habitual e acomodada de ser e de interpretar a vida. Santos são os que não se contentam com as sensações comuns, efêmeras e inconsistentes em torno das quais sempre há muita gente. Os santos não recusam e nem desprezam a alegria, mas buscam a felicidade definitiva que dela brota. Os santos são impacientes de alegria e esta é a única tentação a que cedem e continuarão a ceder, testemunhando que a vida não é um pequeno parêntese entre dois imensos vazios. Na verdade, Deus está conduzindo até a sua verdadeira plenitude o desejo de mais vida, de justiça e de paz, cravado no interior da criação e no coração da humanidade. Acreditar no céu é acreditar que a imensa maioria de homens, mulheres e crianças que só conhecem desta vida a imposição dos poderes políticos, com a conivência das igrejas, a omissão profética dos seus pastores, as guerras, as misérias e a humilhação, não ficará sepultada no esquecimento. Todos eles conhecerão o olhar de Deus, a sua ternura e seus abraços. Todos, inclusive os santos de todas as religiões e de todos os ateísmos que viveram, anônimos, amando gratuitamente, sem nada esperar receber em troca. São homens e mulheres que vivem, mesmo sem o saber, o proclamado por Paulo: “Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição” (2 Cor 1, 3-4). E, finalmente, poderemos ouvir ecoar as palavras de Deus: “Quem tiver sede venha, quem quiser receberá gratuitamente água de vida” (Ap 22, 17) e Deus saciará, sem que o mereçamos, a sede de vida que existe em todos nós.

CONTEMPLAR

Adoração da Trindade, Albrecht Dürer, 1511, óleo sobre madeira, 135 x 123 cm, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 49
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

XXX Domingo do Tempo Comum              28.10.2012
Jr 31, 7-9                 Hb 5, 1-6                 Mc 10, 46-52


ESCUTAR

“Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam” (Jr 31, 7-8).

“Todo sumo sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Saber ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Hb 5, 1-2).

“Então Jesus lhe perguntou: ‘O que queres que eu te faça?’ O cego respondeu: ‘Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10, 51-52).


MEDITAR

“Tentemos falar o menos possível de Deus: nós O estragamos quando falamos. Tratemos de sermos nós mesmos uma palavra viva de Deus. Se vivermos Deus, se O respiramos, se somos engrandecidos pela sua Presença, se nos libertarmos porque cessamos de nos olhar e O olharmos, sentiremos e isto será, então, a mais bela revelação de Deus” (Maurice Zundel).

“O reencontro amoroso, se ele renuncia a dominar, se ele honra e respeita, faz nascer uma relação densa, um amor puro que corre no fundo das almas” (Anselm Grün).


ORAR


E Deus olhou tudo o que havia feito: e era muito belo” (Gn 1,31). Desta forma se encerra o mito da criação da nossa tradição. Olhar a beleza do que foi criado. O evangelho deste domingo nos mostra um cego que olha Jesus, o corpo poético do Pai. Nos domingos anteriores encontramos o jovem rico que, apesar de ver, não se deixou atingir pelo olhar de Jesus e partiu triste por causa da sua riqueza; depois Tiago e João que viam Jesus todos os dias foram incapazes de olhá-Lo e pediram privilégios. Bartimeu, cego e mendigo, pede a visão, despojando-se do único bem que tinha: o manto que estendia para receber esmolas para sobreviver. O evangelista, ironicamente, revela que o mendigo cego é quem vê Jesus com maior clareza do que seus discípulos. No olhar do seu coração, Bartimeu é quem introduz o título para Jesus de Filho de Davi. Os primeiros, o jovem rico e depois Tiago e João, apesar de verem, tinham seus corações velados pela cegueira da riqueza e dos privilégios. O que nossos olhos vêem hoje? A miséria moral e material, a corrida armamentista, a posse gananciosa de bens, o sarcasmo dos opressores, o deboche dos governantes, a mentira corrosiva da corrupção e, sobretudo, o descaso com a criação e com a vida humana. E Jesus pede que o nosso coração seja capaz de tamanha fé que, sem preocuparmos com o dia de amanhã, olhemos os lírios dos campos e as aves do céu. Loucura dos poetas e artistas, desde sempre os profetas dos tempos futuros: “O lobo e o cordeiro andarão juntos, e a pantera se deitará com o cabrito, o bezerro e o leão engordarão juntos; um menino os pastoreia; a vaca pastará com o urso, suas crias se deitarão juntas, o leão comerá palha com o boi” (Is 11, 6-7). Jesus ensina que reconhecer o outro é se deixar invadir pelo seu ser. Mas, se por medo nos mantivermos reclusos, o nosso olhar lançará uma sombra sobre a luz do outro, acentuará os seus defeitos e disseminará uma antipatia: “Tem Belzebu dentro de si” (Mc 3, 22), caluniaram os escribas sobre Jesus. E o olhar simplesmente deixará de perceber o que está diante de si, pois “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (Saint Exupery). Nós, cristãos, não somos como as testemunhas primitivas que viram e não creram. Devemos ser, com os olhos do coração, da descendência daqueles que creram sem ter visto. A vida continua a se manifestar e devemos continuar a vê-la agarrados ao Invisível como se fosse visível (Hb 11, 27). E ao olharmos com o coração o Invisível que brota de nossas entranhas e de nossa relação com o próximo, seremos nós mesmos olhados e desnudados em nossa autenticidade. Como afirmou Santa Edith Stein, recusando-se a negar a sua origem judaica diante da insanidade cega dos nazistas: “Seja diante de cada olhar o que você é. É preciso ser ao olhar de todos aquilo que se é no olhar de Deus”.  Olhar o Cristo é não fixar os olhos no imediatismo da nossa vida, mas saber que este encontro de olhares conduz nossos corações ao invisível de Deus: “Quem me vê, vê aquele que me enviou” (Jo 12, 45). Como os olhos de Jesus, “os olhos da gente não tem fim” (Guimarães Rosa) e o olhar do seu coração sempre nos indagará amorosamente: “Que queres que eu te faça?”.

CONTEMPLAR

Cura do homem cego, Edy-Legrand (Edouard Léon Louis Warschawsky), obra a carvão em Bíblia editada por François Amiot e Robert Tamisier, França, 1950.