segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Caminho da Beleza 47 - XXVIII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 47
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXVIII Domingo do Tempo Comum                     14.10.2012
Sb 7, 7-11                 Hb 4, 12-13             Mc 10, 17-30


ESCUTAR

“Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria. Preferi a Sabedoria aos cetros e tronos e em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza; a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois a seu lado, todo o ouro do mundo é um punhado de areia e diante dela, a prata, será como uma lama”(Sb 7, 7-9).

“A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4, 12).

“Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10, 24-25).


MEDITAR

“No mundo atual, abusamos demais da palavra amor: a empregamos para designar um sentimento egoísta, um amor que é um fim em si mesmo” (Madre Teresa).

“As quedas dos iniciantes provêm, na maior parte, da avidez. Nos que progridem vêm também de uma alta consideração por si mesmos. Para os que se aproximam da perfeição, vêm unicamente do fato de julgar o próximo” (João Clímaco, eremita).


ORAR

No evangelho de hoje, Jesus revela que a riqueza e o dinheiro são mais perigosos que o demônio, pois são eles que nos bloqueiam a compaixão, a autenticidade e a coragem diante das incertezas da vida. Para Jesus, a questão essencial não é a da pobreza, mas a da riqueza. Somos consumidos pela ilusão de encontrar no dinheiro alguma coisa que poderia acalmar as nossas angústias existenciais e o avaro suja o dinheiro porque não o usa, mas o esconde e o deixa, após a morte, para a ferrugem, para os ladrões e para o diabo que dividirá a família por causa da herança material. São João Crisóstomo pregava: “O meu e o teu são a causa de todas as discórdias”. Os homens são os únicos seres do mundo a saber que jamais escaparão da realidade da morte e, diante disto, a acumulação de bens não basta para enfrentar este inverno, pois ainda que nos tornássemos ricos o nosso medo não teria limite e o nosso terror não teria fim. A única saída para o enfrentamento da nossa finitude é aceitar a nossa pobreza essencial diante de Deus e abrir os nossos corações à pobreza dos outros. São Basílio exortava: “Procurais celeiros? Vós os tendes: estes celeiros são o estômago dos pobres que têm fome”. Jesus, neste evangelho, acalma-nos a angústia e nos faz superar a atitude de sermos, ao mesmo tempo, juízes e carrascos de nós mesmos: “Só Deus é bom”. Jesus faz o jovem rico, assim como nós, ganhar a lucidez ao descobrir o vínculo imediato que existe entre a superficialidade da sua/nossa vida e a coisificação do seu/nosso ser pelo dinheiro e pela posse desmedida dos bens materiais. É o dinheiro que nos converte em cegos à miséria que co-existe ao nosso lado e surdos aos gritos de aflição dos que são vitimados pela indigência. Uma sociedade que estimula o consumismo deixa como herança uma montanha ornada pelo vazio bocejante do dinheiro que tudo devora e que, ao digerir o devorado, expele-o como lixo espiritual, cultural e religioso. O salmista previne: “Se a vossa fortuna prospera, não lhe deis o coração” (Sl 62, 11). O olhar de Jesus, que procuramos evitar, ao virarmos a face para não ver os pobres, desnuda a nossa miséria interior e a nossa impotência humana para a doação e o risco. Jesus nos revela que o cêntuplo durante esta vida não será a prosperidade das riquezas materiais, mas a riqueza das riquezas: a vida eterna. O alerta de São Francisco ecoa até hoje para a Igreja que ajudou a reconstruir: “A riqueza traz o poder e o poder dilui a presença do Evangelho”. Escutemos as palavras de Jean Giono, escritor e pacifista francês, em 1937: “Privam-te das chuvas, das neves, dos sóis, das montanhas, dos rios, das florestas e da pátria que são as verdadeiras riquezas do homem. Tudo foi feito para ti e no fundo das tuas mais escuras veias fostes feito para tudo. Mas, ao contrário, deram-te em lugar uma pátria econômica, um monstro que exige, periodicamente, o sacrifício das jovens gerações, pois a pátria que te inventaram tem cada vez mais apetite”. Meditemos as palavras de Jesus, narradas pela comunidade de Mateus: “Não acumuleis riquezas na terra onde roem a traça e o caruncho, onde os ladrões arrombam e roubam. Acumulai riquezas no céu, onde não roem traça nem caruncho, onde ladrões não arrombam nem roubam. Pois onde está tua riqueza, aí estará teu coração” (Mt 6, 19-21).

CONTEMPLAR
Porque era muito rico, George Frederic Watts, 1894, óleo sobre tela, 1397 x 584 mm, Tate Collections, Reino Unido.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Caminho da Beleza 46 - XXVII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 46
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXVII Domingo do Tempo Comum                       07.10.2012
Gn 2, 18-24            Hb 2, 9-11               Mc 10, 2-16

ESCUTAR

“Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2, 24).

“Pois tanto Jesus, o Santificador, quanto os santificados, são descendentes do mesmo ancestral; por esta razão, ele não se envergonha de chamá-los irmãos” (Hb 2, 11).

“Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento” (Mc 10, 5).


 MEDITAR

“O que é essencialmente novo no Evangelho, é uma nova dimensão de grandeza: a dimensão da generosidade. A grandeza é a de ser generoso; a grandeza é a de saber dar; a grandeza é a de se dar, dar todo o seu ser e de tudo dar dando-se a si mesmo” (Maurice Zundel).

“Não podemos grande coisa, pois somos gente comum; não temos nas mãos as chaves das decisões. Contudo, cada um de nós pode fazer alguma coisa. O quê? Perdoar! Sim, perdoar. Se pedirmos a Deus, Ele nos ouvirá e nos mostrará como fazer” (Cardeal Lustiger).


 ORAR

            A narrativa de Gênesis é poética e desvela que é na mulher que o homem se reconhece a si mesmo: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘mulher’, porque foi tirada do homem”. Adão descobre o seu companheiro para o amor: o ser que brota ao preço da ferida do seu coração. Este ser que o Criador lhe entrega após um longo sono era semelhante a ele, mas diverso. E o esponsal se fez: ser um para ser diverso. No evangelho, Jesus não se refere a nenhuma prescrição da lei, mas retoma a cena da manhã original não como uma lembrança do passado, mas como a imagem do paraíso e de uma realidade essencial inserida no coração: “Os dois formarão uma só carne, assim, já não são dois, mas uma só carne”. Não havia regras para o amor, nem leis, pois não havia necessidade disto. Jesus não prescreve nenhuma legislação matrimonial. Não era casado e, escandalosamente, convidava os que queriam segui-Lo a deixar tudo – família, vida acomodada, propriedades, bens acumulados. Jesus afirma que a nossa única regra, que resume toda a Lei e os profetas, é o amor, tal como existia no paraíso, pois só o seu sopro possui a amplidão e a infinitude do próprio Deus. Por essa razão, não podemos aniquilar o amor e desfazê-lo.  Podemos tornar os amantes infelizes, infligir-lhes todos os males e sofrimentos, persegui-los até a morte, mas não saberíamos matar o amor: “As águas torrenciais não poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo” (Ct 8, 7). É por isto que, para Jesus e o seu Evangelho, o amor não tem, por princípio, necessidade de nenhuma lei que o regulamente. Jesus queria e quer pessoas livres capazes de construir vínculos de amor indissolúveis que se convertam em dom recíproco. Jesus garante que o vínculo entre os que se amam vem da força de origem divina que trazemos em nós, esta extraordinária potência libertadora do amor. Para Ele, são as pessoas, inundadas e sustentadas pelo sopro divino, que fundam e respondem pelos esponsais e não os poderes civis e religiosos que os instituem. O amor salva e as leis que inventamos salvaguardam os direitos dos mais fortes. Só a dureza de coração tem necessidade de leis rígidas que nada têm a ver com as palavras de amor que Deus quer ouvir pronunciadas entre nós. Moisés legisla para proteger a mulher da maldade e desamor dos homens que, arbitrariamente, as repudiavam como se pudessem atirar a primeira pedra. Jesus, do mesmo modo desafia-nos: “Geração adúltera, até quando terei que vos suportar?” E uma geração adúltera é uma geração que se prostitui aos ídolos, que hoje são produzidos pelo mercado para nos iludir e colocar em outros amores os nossos corações. E Deus perdoa ao seu Povo-Esposa o adultério, pois seu amor é sem limites e sua aliança irrevogável. Jesus não nos deixa ludibriar e esquecer que a maior traição é casar sem se esposar!


CONTEMPLAR

O Cântico dos Cânticos I, Marc Chagall, 1960, Coleção “A Mensagem Bíblica”, óleo sobre tela, 146,5 x 171,5 cm, Museu Nacional Marc Chagall, Nice, França.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Caminho da Beleza 45 - XXVI Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 45
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXVI Domingo do Tempo Comum             30.09.2012
Nm 11, 25-29                     Tg 5, 1-6                   Mc 9, 38-43.47-48


 ESCUTAR

“Moisés respondeu: ‘Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito’” (Nm 11, 29).

“Vede: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso” (Tg 5, 4).

“Quem não é contra nós é a nosso favor. Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa” (Mc 9, 40-41).

MEDITAR

“A paz exige um estado de espírito que, antes de se dirigir aos outros, se reflete sobre aquele que quer ser um agente de paz. Antes de ser social, a paz é pessoal. É este espírito de paz que constitui um dever para todo verdadeiro discípulo de Cristo” (Papa Paulo VI).

“Enquanto os cristãos não procurarem a unidade e a paz em seu próprio coração, jamais a própria Igreja estará na unidade e na paz no mundo que os rodeia” (Cardeal Newman).

ORAR

As leituras desta liturgia falam de uma mentalidade sectária que é um pecado contra o Espírito. Na narração evangélica, particularmente, estabelece-se um estridente contraste entre a mesquinharia dos apóstolos, seu espírito de grupo e a amplitude da tolerância de Jesus. A tolerância e o ecumenismo de Jesus constituem as premissas para liberar a primeira comunidade do sectarismo mesquinho e introvertido. Deus dá com largueza e seu Espírito atua, imprevisivelmente, em territórios sem fronteiras. O espírito sectário, exclusivista, que é uma degeneração, é caracterizado pela mesquinharia, pela intolerância e pela agressividade. Jesus nos ensina a acolher o outro e a aceitá-lo na sua diversidade com os seus valores. O Concílio Ecumênico Vaticano II declarou: “A Igreja Católica não rejeita o que é verdadeiro e santo em todas as religiões. Considera suas práticas, maneiras de viver, preceitos e doutrinas como reflexo, não raramente autêntico, da verdade que ilumina todos os seres humanos, ainda que se distanciem do que ela crê e ensina”(Nostra Aetate 2). Temos que acreditar que o Espírito semeia o bem, a bondade, a verdade, a justiça e a fidelidade também fora do nosso campo de ação. Há um detalhe importante: os setenta destinatários primitivos do Espírito deixaram, imediatamente, de profetizar talvez por estarem empenhados em disciplinar o dom, fixando regras e excomungando os diferentes. Jesus revela que quando nos ocupamos, excessivamente, de nós mesmos, de nossas coisas, o Espírito suscita alguns “não autorizados” a nos mostrar que a regra válida não é a apropriação, mas a participação. Por isso, os que excluem, acumulam e cobiçam são, cada vez mais, como o gado engordando para ser abatido e, com certeza, terão o fim anunciado pelo profeta Isaías: “Teu esplendor foi jogado na sepultura, teu colchão agora é de vermes; teu cobertor, lombrigas” (Is 14, 11).

CONTEMPLAR
A Descida da cruz (detalhe), Rogier Van der Weyden, c. 1440, pintura sobre madeira, Museu do Prado, Madri, Espanha.



domingo, 16 de setembro de 2012

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 44
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

XXV Domingo do Tempo Comum               23.09.2012
Sb 2.12.17-20                     Tg 3, 16-4.3                        Mc 9, 30-37


 ESCUTAR

“Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência” (Sb 2, 18-19).

“Caríssimos, onde há inveja e rivalidade aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3, 16).

“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9, 35).

MEDITAR

“Tudo o que fazemos a um humano, fazemos a um membro de Jesus. Tenhamos o cuidado infinito de fazer o melhor possível ao maior número de seus membros” (Charles de Foucauld).

“Aquele que tem um amigo verdadeiro não precisa de um espelho” (Provérbio indiano).

ORAR

No nosso cotidiano enfrentamos três desafios: a cobiça, a inveja e a rivalidade. A atitude denunciada pelo livro da Sabedoria é extremamente atual no cinismo civil e religioso em que vivemos: “Armemos ciladas ao justo, pois nos estorva: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da Lei e nos difama por pecarmos contra a nossa tradição”. Os homens do poder têm escarnecido dos mais pobres por meio de falsas promessas e pela venda de ilusões. Ao prometer um poder como serviço, revelam a intimidade dos seus corações estimulando a inveja, a divisão pela rivalidade e aumentando a cobiça ao se “venderem” como cidadãos acima de quaisquer suspeitas. O evangelista mostra os discípulos fazendo ouvidos surdos e não compreendendo o que ouviam, pois “pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. Jesus, ao colocar no colo uma criança, quer falar da fragilidade do ser humano porque acolher o Reino de Deus, como uma criança, significa que a nova ordem social só poderá ser construída quando tivermos a coragem de enfrentar os verdadeiros fundamentos da opressão e rompermos o ciclo da violência que despreza e utiliza os menores e os mais fracos. O Evangelho nos convida a viver com Jesus a mesma entrega e confiança que uma criança tem com seus pais. Como cristãos, devemos falar de afabilidade, mansidão, compaixão nesta sociedade que vive sob o signo da competitividade, da agressividade e da prepotência, ainda que sejamos considerados ingênuos, ou pior, idiotas. Caso contrário, viveremos também a maldição de cobiçar, mas não conseguir ter; de cultivar a inveja, mas não conseguir êxito algum; de brigar e guerrear, mas não conseguir possuir. E sermos condenados, por nós mesmos, à maior das maldições: a de pedir e não receber.

CONTEMPLAR
Quem é o maior?, Macha Chmakoff, 92 x 73 cm, França, s.d.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Caminho da Beleza 43 - XXIV Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 43
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


 XXIV Domingo do Tempo Comum             16.09.2012
Is 50, 5-9a              Tg 2, 14-18              Mc 8, 27-35


 ESCUTAR

“Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. Sim, o Senhor Deus é meu Auxiliador; quem é que vai me condenar?” (Is 50, 7-9).

“Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? A fé se não se traduz em obras, por si só está morta. Em compensação, alguém poderá dizer: ‘Tu tens a fé e eu tenho a prática! Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras’” (Tg 2, 14.17-18).

“Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo. Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: ‘Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens’” (Mc 8, 32-33).

MEDITAR

“A força do amor é também sua fraqueza: o amor sempre é vulnerável. Se ele quiser parar de sê-lo, ele se renega. O amor que quer se defender ou se justificar se transforma no seu contrário: o ódio. Sua fraqueza é a maior força do mundo: a fraqueza do Cristo” (Cardeal Jean Marie Lustiger).

“Morrer para uma religião é mais simples do que vivê-la plenamente” (Jorge Luis Borges).

ORAR

Pedro nega o Servo do Senhor e a profecia de que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei. Jesus encara Pedro abertamente e compromete os discípulos tomando-os como testemunhas: “Vai para longe mim, Satanás!”. Pedro não aceita participar de uma causa perdida e nem assumir uma mentalidade de fracassado. E ao recusar a lógica da paixão se coloca longe do Senhor. Na lógica da Cruz, a glória, a importância e o prestígio numa dimensão terrena são precisamente o oposto de tomar a cruz e negar-se a si mesmo. Não se pactua com Satanás e a sua derrota se dá no terreno do Calvário. O Servo do Senhor não se rebelou e nem desviou o rosto dos bofetões e cusparadas. Jesus testemunha que em todas as nossas obras é necessária a negação de si mesmo, a recusa de toda vontade de poder, de êxito e de publicidade. A fé é vida, páscoa, alegria e um abrir-se ao Deus infinito: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito” (Mt 5, 48). A fé que não se pretenda estéril deve ser orientada para a prática do amor e da solidariedade. Tiago nos previne que as “belas palavras” são vento e hipocrisia se não trazem lenitivo ao sofrimento dos nossos irmãos. Cada vez que Jesus evoca a sua Paixão é incisivo: “Quem se empenha em salvar a vida, a perderá; quem perder a vida por mim, a encontrará” (Mt 16, 25). Os atos são a respiração da fé, pois a fé não é uma bagagem, mas um caminho pelo qual, graças à atenção dada aos nossos irmãos, descobrimos o próprio Deus. Meditemos as palavras de Roger Garaudy, filósofo marxista, precursor do diálogo cristão-marxista em tempos de Vaticano II e, posteriormente, convertido ao cristianismo e, em seguida, ao budismo: “Vós, os detentores da grande esperança que Constantino nos roubou, gente de Igreja, devolvei-O a nós. A sua vida e sua morte também nos pertencem, pertencem a todos aqueles para os quais têm sentido. A nós que aprendemos dele que o homem é criado criador”. Nestes tempos de diálogo inter-religioso, o Cristo não deve e nem pode ser um obstáculo ou um muro que nos separa, mas o símbolo da união, da fraternidade e do amor. Devemos aceitar, no seu seguimento, sermos pequenos grãos de trigo que, ao cair na terra, morrem para não ficar sós, mas para produzir muitos frutos (Jo 12, 24). Satanás anda no meio de nós, oferecendo-nos alternativas para que não tenhamos que entregar nossas vidas até o fim, para que desistamos do caminho um dia escolhido. Satanás nos oferece vantagens, seduz-nos com as honrarias dos homens, facilita-nos o ganho fácil e a ostentação do sucesso. O Cristo nos oferece o lenho da Cruz, a abominação, a dor e, finalmente, o Reino dos Céus.

CONTEMPLAR

A Crucifixão de São Pedro, Michelangelo Merisi, Caravaggio, 1600-01, óleo sobre tela, 230 x 175 cm, Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália.






segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Caminho da Beleza 42 - XXIII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 42
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).

XXIII Domingo do Tempo Comum            09.09.2012
Is 35, 4-7                 Tg 2, 1-5                   Mc 7, 31-37

ESCUTAR

“Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar’” (Is 35, 4).

“Meus irmãos, a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas. Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?”(Tg 2, 1.5).

“Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e, com a saliva, tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efetá’, que quer dizer: ‘Abre-te’” (Mc 7, 32-34).

MEDITAR

“É o orgulho que provoca as tensões e as lutas pelo prestígio, pela predominância e egoísmo; é ele que rompe a fraternidade” (Paulo VI).

“Devemos amar todos os homens, mas devemos nos inclinar mais para os que o mundo esquece, desdenha e rejeita: os pobres, os pequenos e os sofredores” (Charles de Foucauld).

ORAR

A imagem é de desolação: do jardim plantado por Deus restam o deserto e um mostruário das misérias humanas: cegos, surdos, mudos, coxos. O profeta aponta uma visão luminosa e aparentemente utópica: “A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água”. E esta visão é culminada no gesto concreto de cura realizado por Jesus. Somente quando pudermos ouvir o grito do pobre e do desesperado é que estaremos curados da surdez e poderemos anunciar a palavra profética. Não podemos ser uma Igreja formada por covardes de coração. Temos que romper a crosta de desumanidade e fazer circular uma mensagem de vida, de paz e de misericórdia. Jesus abre os ouvidos e os lábios e, tantas vezes, queremos somente abrir as orelhas e manter, por questão de segurança pessoal e religiosa, o silêncio da palavra. Temos que nos abrir para a compreensão profunda das pessoas e garantir aos que estão submetidos e obrigados unicamente à escuta o direito de falar. Tiago adverte que uma Igreja calcada nas cerimonias das honras mundanas obscurece a glória de Deus. Somos chamados a virar este mundo virado, um mundo que perverteu os símbolos da vida: bajulamos os que ostentam riquezas e educamos nossos filhos para que sejam como eles, sem nos dar conta de que as Escrituras afirmam: “Quem ama o dinheiro nunca se fartará de dinheiro” (Ecl 5, 9) e que “na verdade, a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1 Tm 6, 10). Meditemos as palavras do Papa Bento XVI: “Talvez os homens possam perceber que contra a ideologia da banalidade, que domina o mundo, é necessária uma oposição. À Igreja cabe o papel de oposição profética e ela precisa e terá coragem de assumir este papel. ‘Adulta’ não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade. Adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo”. Deus não faz acepção de pessoas. Samuel jamais poderia imaginar que dos oito filhos de Jessé não seria o primogênito, alto em estatura e garboso em porte, o escolhido para ser rei, mas o pequeno Davi que cuidava das ovelhas, pois o Senhor lhe disse: “Não repare as aparências nem sua grande estatura. Eu o rejeito. Porque Deus não vê como os homens, que veem a aparência. O Senhor vê o coração” (1 Sm 16, 7ss). A escolha de Deus pelos pobres não é uma preferência, mas a escolha de uma missão: “Deus escolheu os pobres e desprezados do mundo, os que nada são, para anular os que são alguma coisa. E assim ninguém poderá orgulhar-se diante de Deus”(1 Cor 1, 28-29).

CONTEMPLAR

Ishmael-Aga-Akbar, o menino surdo-mudo iraniano, Mariam De Giorgio, tinta e guache preto e laranja, Malta, 2009.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 41
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXII Domingo do Tempo Comum              02.09.2012
Dt 4, 1-2.6-8           Tg 1, 17-18.21-22.27        Mc 7, 1-8.14-15.21-23


 ESCUTAR

“Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo. Vós os guardareis, pois, e os porei em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: ‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação’”(Dt 4, 2-6).

“Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Com efeito, a religião pura e sem mancha diante do Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”(Tg 1, 22.27)

“Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos. Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (Mc 7, 6-8).

MEDITAR

“Não há oposição entre a vida profana e a vida religiosa. Não há vida profana: toda a vida é sagrada, toda a vida é chamada a ser consagrada, a passar à santidade, todos os caminhos conduzem a Deus. Trata-se de não se recusar nenhuma fonte: nem a ciência, nem a arte, nem a música, nem a beleza, nem a natureza, nem a ternura humana, pois tudo se enraíza em Deus e finalmente se perde Nele”(Maurice Zundel, Silence, Parole et Vie).

“A cisão entre fé e vida, entre culto e existência, entre legalidade e humanidade, gera a perversão da religião, o legalismo, o farisaísmo e o espiritualismo angelical” (Cardeal Gianfranco Ravasi).

ORAR

A palavra implantada (Tg 1, 21b) se insere num processo vital e deve favorecer a vida. O povo libertado da escravidão do Egito se coloca em movimento para atingir a meta da Terra Prometida. Ele não está num limite regularmente fixado. A lei não tem a tarefa banal de assegurar uma ordem imutável. A palavra nos convida a irmos até a Terra Prometida que é a terra da liberdade e não da escravidão. E, por isso, a lei não é um absoluto, mas também significa mudança, abertura ao futuro, transformação. Uma lei que não expresse o futuro não é a lei do Deus libertador do Êxodo. Uma palavra que somente se preocupe em perpetuar o presente e não impulsione ao que deve ser, cria uma geração de acomodados e não um povo de peregrinos. Não se permite uma escuta descomprometida, nem uma palavra que não influencie o nosso agir e responda por uma mudança radical na orientação da existência. Toda a palavra confinada ao âmbito do sagrado e cristalizada numa prática religiosa episódica é uma palavra morta. Moisés recomenda escutar e cumprir, pois uma palavra que não se cumpre torna-se insignificante. Só podemos dizer que escutamos e entendemos a palavra quando a traduzimos em ações, gestos e comportamentos. Uma palavra que não determine um compromisso concreto é uma palavra que nos condena e nos afasta de Deus. Temos que reafirmar sempre que a conexão mais vital, a partir da escuta da palavra, é com a humanidade: “a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações”. É preciso prolongar o serviço do templo numa liturgia da solidariedade, fraternidade, justiça e misericórdia que se celebra ao largo da travessia. O Senhor sonda o nosso coração e se houver uma cisão entre o “dentro” e o “fora” teremos a degeneração espiritual da hipocrisia, do legalismo e de uma atividade religiosa aparente e sem profundidade. Deus está próximo quando a sua palavra anima as ações e nos faz querer encontrar o próximo. Caso contrário, se somente ouvimos e O cultuamos exteriormente, Deus está em outra parte. A nossa participação na missa, se a vivenciarmos apenas como um “assistir” e como uma obediência externa, não vale grande coisa diante de Deus. Não podemos esquecer que o pão que oferecemos é acompanhado de dominação, de exploração, da poluição da natureza, da amargura da concorrência, do egoísmo e da aberração da distribuição mundial: abundância de uns e pobreza de muitos. Que o vinho também pode ser um dos instrumentos mais trágicos da degradação humana: embriaguez, lares desfeitos, dívidas, suicídios. Jesus aniquila com os moralismos e se encarna neste pão e neste vinho e lhes dá um sentido, pois nada do que é humano lhe é estranho. A missa deve ser uma realidade que nos compromete inteiramente, que muda nosso coração colocando em nós o coração de Cristo e nos fazendo capazes de viver segundo seu amor. E ao trazermos pão e vinho para a mesa do Senhor nós nos comprometemos a trazer tudo o que eles significam, tudo o que está quebrado e sem amor, pois estamos comprometidos com a dor e a alegria do mundo.

CONTEMPLAR

Um Vislumbre do Cristo, Daniel Bonnell, óleo sobre tela, Georgia, Estados-Unidos.