segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 41
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XXII Domingo do Tempo Comum              02.09.2012
Dt 4, 1-2.6-8           Tg 1, 17-18.21-22.27        Mc 7, 1-8.14-15.21-23


 ESCUTAR

“Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo. Vós os guardareis, pois, e os porei em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: ‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação’”(Dt 4, 2-6).

“Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Com efeito, a religião pura e sem mancha diante do Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”(Tg 1, 22.27)

“Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos. Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (Mc 7, 6-8).

MEDITAR

“Não há oposição entre a vida profana e a vida religiosa. Não há vida profana: toda a vida é sagrada, toda a vida é chamada a ser consagrada, a passar à santidade, todos os caminhos conduzem a Deus. Trata-se de não se recusar nenhuma fonte: nem a ciência, nem a arte, nem a música, nem a beleza, nem a natureza, nem a ternura humana, pois tudo se enraíza em Deus e finalmente se perde Nele”(Maurice Zundel, Silence, Parole et Vie).

“A cisão entre fé e vida, entre culto e existência, entre legalidade e humanidade, gera a perversão da religião, o legalismo, o farisaísmo e o espiritualismo angelical” (Cardeal Gianfranco Ravasi).

ORAR

A palavra implantada (Tg 1, 21b) se insere num processo vital e deve favorecer a vida. O povo libertado da escravidão do Egito se coloca em movimento para atingir a meta da Terra Prometida. Ele não está num limite regularmente fixado. A lei não tem a tarefa banal de assegurar uma ordem imutável. A palavra nos convida a irmos até a Terra Prometida que é a terra da liberdade e não da escravidão. E, por isso, a lei não é um absoluto, mas também significa mudança, abertura ao futuro, transformação. Uma lei que não expresse o futuro não é a lei do Deus libertador do Êxodo. Uma palavra que somente se preocupe em perpetuar o presente e não impulsione ao que deve ser, cria uma geração de acomodados e não um povo de peregrinos. Não se permite uma escuta descomprometida, nem uma palavra que não influencie o nosso agir e responda por uma mudança radical na orientação da existência. Toda a palavra confinada ao âmbito do sagrado e cristalizada numa prática religiosa episódica é uma palavra morta. Moisés recomenda escutar e cumprir, pois uma palavra que não se cumpre torna-se insignificante. Só podemos dizer que escutamos e entendemos a palavra quando a traduzimos em ações, gestos e comportamentos. Uma palavra que não determine um compromisso concreto é uma palavra que nos condena e nos afasta de Deus. Temos que reafirmar sempre que a conexão mais vital, a partir da escuta da palavra, é com a humanidade: “a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações”. É preciso prolongar o serviço do templo numa liturgia da solidariedade, fraternidade, justiça e misericórdia que se celebra ao largo da travessia. O Senhor sonda o nosso coração e se houver uma cisão entre o “dentro” e o “fora” teremos a degeneração espiritual da hipocrisia, do legalismo e de uma atividade religiosa aparente e sem profundidade. Deus está próximo quando a sua palavra anima as ações e nos faz querer encontrar o próximo. Caso contrário, se somente ouvimos e O cultuamos exteriormente, Deus está em outra parte. A nossa participação na missa, se a vivenciarmos apenas como um “assistir” e como uma obediência externa, não vale grande coisa diante de Deus. Não podemos esquecer que o pão que oferecemos é acompanhado de dominação, de exploração, da poluição da natureza, da amargura da concorrência, do egoísmo e da aberração da distribuição mundial: abundância de uns e pobreza de muitos. Que o vinho também pode ser um dos instrumentos mais trágicos da degradação humana: embriaguez, lares desfeitos, dívidas, suicídios. Jesus aniquila com os moralismos e se encarna neste pão e neste vinho e lhes dá um sentido, pois nada do que é humano lhe é estranho. A missa deve ser uma realidade que nos compromete inteiramente, que muda nosso coração colocando em nós o coração de Cristo e nos fazendo capazes de viver segundo seu amor. E ao trazermos pão e vinho para a mesa do Senhor nós nos comprometemos a trazer tudo o que eles significam, tudo o que está quebrado e sem amor, pois estamos comprometidos com a dor e a alegria do mundo.

CONTEMPLAR

Um Vislumbre do Cristo, Daniel Bonnell, óleo sobre tela, Georgia, Estados-Unidos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Caminho da Beleza 40 - XXI Domingo do Tempo Comum


O Caminho da Beleza 40
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XXI Domingo do Tempo Comum                26.08.2012
Js 24, 1-2a.15-17.18b                  Ef 5, 21-32              Jo 6, 60-69


ESCUTAR

“Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir” (Js 24, 15).

“Ele quis apresentá-la [a Igreja] a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga, nem defeito algum, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 27).

“Naquele tempo, muitos dos discípulos de Jesus que o escutaram disseram: ‘Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?’” (Jo 6, 60).


MEDITAR

“Estamos diante de um amor maior que nosso coração, uma vida mais vasta que nossa vida. Estamos diante de uma generosidade maior que a nossa. Deixai-vos amar pelo poder de Deus e sabereis amar” (Cardeal Lustiger).

“Porque ainda não vemos Deus; é amando o próximo que merecemos ver a Deus; amando o próximo é que purificamos nosso olhar para ver Deus. É como diz São João: ‘Se não amas teu irmão que vês, como poderias amar Deus que não vês?’” (Santo Agostinho).


ORAR

Somos chamados a tomar uma posição a mais clara possível. É preciso declarar a quem desejamos servir, pois o servir cristão é um exercício de liberdade que exclui a coação. Haverá momentos na nossa vida em que não serão permitidos refúgios com a sua pretensa neutralidade e nem o recurso às formulas evasivas. O Senhor é um Deus ciumento que aceita somente o compromisso total e exclusivo e despreza qualquer adesismo oportunista e equivocado. A pregação de Jesus, em Cafarnaum, provoca crises sucessivas. As multidões se afastam bruscamente porque Ele interrompeu, sem dó nem piedade, todos os seus sonhos de grandeza e fausto. No círculo dos discípulos se produzem vazios preocupantes: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”. A Palavra, por meio do Espírito, faz-se vida e se converte em força de transformação e não de consolidação de posições adquiridas anteriormente. Todo aquele que procura se apoiar num nível racional de compreensão considera inaceitável o discurso do Cristo e intolerável a sua pretensão de se oferecer como Pão da vida. Entre os apóstolos também se difunde a desilusão ou se insinua a vontade da deserção. Jesus está disposto a ficar sozinho a pactuar condições para o seu seguimento, pois sua Palavra não espera aplausos e muito menos aceita negociações. Santo Agostinho afirma: “Se não entendestes, crê. A inteligência é fruto da fé. Não tentes, pois, entender para crer, mas crê para entender, pois se não credes não entendereis”. Jesus sabe que somente uma linguagem dura pode forçar as nossas resistências e derrubar os muros dos nossos medos. A Palavra de Deus alcança o seu fim quando descubro que Deus não pensa como eu. Paulo conclama a amar a Igreja ainda que não seja uma comunidade perfeita: a Igreja revela, mas também dissimula Deus; manifesta-O, mas em certas horas O obscurece; apresenta-O, mas muitas vezes O afasta. A Igreja nos entrega Deus no enredo de suas próprias contradições. Não podemos confundir a igreja de nossos sonhos com a Igreja fundada por Cristo e sobre Cristo. Os sonhadores de uma pureza idealista da Igreja acabam se tornando inimigos do Reino (A. Maillot). Em Deus não há sombra, nem rugas e nem manchas; ao contrário, a igreja é feita de homens e mulheres que carregam as debilidades, misérias, imperfeições e desordens. Ele nos avisou que veio para os pecadores e doentes e que a misericórdia do Pai nos atinge a todos assim como o sol e a chuva caem sobre bons e maus. Jesus ensina que a vida, mais do que a algum lugar, se vincula a uma pessoa: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”. Melhor aceitar as duras palavras de Jesus do que querer e aceitar ser enganado pelos charlatões religiosos de palavras fáceis que nos tornam contentes e satisfeitos com o vazio que nos apresentam e que preenchem a nossa necessidade de onipotência. O Senhor deixa de lado a imagem da onipotência e revela que o Corpo de Deus está na Cruz. E, mais ainda, Ele revela que um conhecimento de si próprio, que não tenha origem no amor e não se abra ao perdão, exaspera-se numa loucura destrutiva e suicida. Sem afetos, sem entusiasmos, sem desejos e sem amor.


CONTEMPLAR

Pedro negando Jesus, Mark Christian Dachille, guache, Seatlle, Estados Unidos, 2012.










segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Caminho da Beleza 39 - Assunção de Nossa Senhora


O Caminho da Beleza 39
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


Assunção de Nossa Senhora             19.08.2012
Ap 11, 19; 12, 1.3-6.10                1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56


ESCUTAR

“A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar” (Ap 12, 6).

“O último inimigo a ser destruído é a morte. Com efeito, ‘Deus pôs tudo debaixo de seus pés’” (1 Cor 15, 26).

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1, 42).


MEDITAR

“A qualidade de uma sociedade ou de uma civilização se mede pelo respeito que ela manifesta aos mais fracos dos seus membros” (João Paulo II).

“Uma criança que questiona é a voz de todo um mundo que quer melhorar” (Tristan Bernard).

ORAR

A presença de Maria deve favorecer a unidade entre as pessoas e não constituir um impedimento, tantas vezes ostensivo, para a comunhão fraterna. As distorções e deformações no devocional mariano repercutem, negativamente, na vida da Igreja e terminam por falsear a sua imagem mais autêntica. A gestação de Maria é o cumprimento definitivo da Aliança e Jesus, tecido no seu ventre, é fruto destas vísceras de ternura, pois nelas se exprime a misericordiosa amorosa de Deus. Maria anuncia que o Senhor vai virar tudo do avesso. E na sua assunção, Maria não entra na posse da sua própria glória, mas participa da glória do Senhor. Maria esposou a misericórdia infinita de Deus em profunda comunhão com todas as gerações e seus destinos. O devocional mariano é, muitas vezes, exagerado porque na sua inventividade está desligado de um contato mais profundo com a Escritura. Longe de ser uma expressão de fé, ele representa o vazio da própria fé cristã, pois uma fé que se alimenta de milagreiros e visionários em dose massiva representa uma derrota da fé. Certos excessos beiram mais o sacrilégio do que à piedade. O Papa João XXIII dizia: “Com a Virgem é preciso caminhar lentamente, passo a passo, para se evitar a instrumentalização, as retóricas e os sentimentalismos”.  Maria é a catedral do grande silêncio e mais ainda, a divina silenciosa. Maria nunca está em primeiro plano, mas desaparece totalmente no Filho. Nas bodas de Caná, ela claramente afirma “Faça o que Ele diz” (Jo 2, 5) e não “Escuta-me”, mas “Escutai-O”. O paradoxo é que o Deus que se fez Homem e se manifesta, visivelmente, em nossa carne, encontra uma Mãe que se atribui a si mesma a parte da não visibilidade. O Evangelho está mais pleno do silêncio de Maria do que de suas aparições imprevistas. Os contornos da Mãe se esfumaçam na ilimitada transparência do silêncio e o mistério se encontra na profundidade daquela que prefere a penumbra. A Virgem na narrativa da Anunciação é o oposto de Zacarias, o sacerdote que pedia sinais e que queria ver, tocar, controlar e ter provas. A Virgem não deseja sinais, pois confiando na Palavra, abandona-se e se declara disponível. Seu silêncio é a expressão de plenitude e não de mutilação como no mutismo de Zacarias. A devoção autêntica de Maria nos faz habitar o terreno profundo da interioridade, da meditação, da contemplação e do compromisso concreto. A devoção verdadeira à Virgem nos coloca em oposição à nossa civilização mistificadora e se torna um antídoto à superficialidade e à publicidade ruidosa. Com Maria devemos aprender a ouvir e a silenciar, sabendo que aplaudir não significa escutar. O grande desafio para as igrejas é aniquilarmos este simulacro meloso, este arremedo adocicado em que a nossa religiosidade ocidental transformou esta mulher que, pela força da coragem e ousadia, foi agraciada pelo Senhor, como esposa e mãe. Honrar Maria é caminhar, como ela, um caminho largo e penoso para uma mãe. Caminho nosso, quando todas as dores, como as dela, se emudecem diante D’Aquele que morre de amor e por amor. No nosso momento derradeiro, como o do Filho, sabemos que ela nos contempla e ora por nós e, neste seu luto inevitável de ternura, volta a ser a mãe de todos e, nós, aparentemente mortos, somos seus filhos e filhas. Maria é a Mãe de Mil Nomes. Maria, a mãe do Belo Amor. Amada filha do Pai, amada mãe do Filho e amada Esposa do Espírito, por todos os séculos dos séculos, amém!


CONTEMPLAR

Visitação 4, Macha Chmakoff, pigmentos sobre tela, 55 cm x 46 cm, Paris, França.






segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Caminho da Beleza 38 - XIX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 38
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XIX Domingo do Tempo Comum                12.08.2012
1 Rs 19, 4-8             Ef 4, 30-5,2                        Jo 6, 41-51



ESCUTAR

“Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer” (1 Rs 19, 7).

“Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, em oblação e sacrifício de suave odor” (Ef 5, 1-2).

“Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 48).


MEDITAR

“Ó coisa maravilhosa: comem do Senhor, pobres, servos e humildes” (Panis Angelicus).

“Duas forças nos atraem como os imãs. Uma nos impulsiona para a idolatria: “Eu, eu, eu, somente eu”. A outra nos impulsiona à partilha” (Abbé Pierre).


ORAR

No caminho dos homens estão os dons de Deus: o pão assado e um jarro d’água para Elias; o Espírito Santo para os que acreditam e o qual não podemos contristar com amargura, irritação, cólera e injúria; e o pão da vida para os que se comprometem com o caminho do novo êxodo. A estes dons devemos responder, respectivamente, com o compromisso da missão; com o viver no amor sendo imitadores de Cristo e alimentarmo-nos da carne do Filho do Homem. Somos chamados, na nossa vida comunitária, a “ser hospitaleiros uns com os outros sem murmurar” (1 Pd 4, 9) e a testemunharmos que a primeira hospitalidade é a do coração. O Senhor nos cura do cansaço, como curou Elias, de uma maneira insólita: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Para o Senhor ficamos cansados não pelo pouco que fizemos, mas pelo muito que ainda não fizemos. O Senhor sabe que só nos cansamos quanto não temos a coragem de novos sonhos e quando nos movimentamos muito, mas não caminhamos e nem saímos do lugar porque nos perdermos em devaneios estéreis. O sinal da multiplicação responde pela quantidade de pão repartido entre todos; o sinal das bodas de Caná responde pela qualidade de vinho oferecido a todos. Jesus anuncia que o pão que será oferecido é a sua própria carne dada para a vida de um mundo diverso e plural. A sua carne, dada eternamente em oferenda, deve ser compreendida como a doação da sua existência humana para todos, sem exceção. E eternamente não significa um prolongamento infinito da vida biológica, mas a dimensão inesgotável, na nossa existência, do dar a vida continuamente e sempre. Devemos nos converter num viático eucarístico; numa provisão sempre disponível de um amar que enfrenta os desertos estéreis da intolerância e da discriminação. Estes desertos que fazem sucumbir, pela violência, pela ignorância e pelos preconceitos, os filhos e filhas amados do Senhor, criados à sua imagem e semelhança e submetidos à aridez das nossas instituições religiosas e civis. O pão (Jo 6, 51) que  nos dá força e nos coloca em pé é o próprio caminho (Jo 14, 6) e se nos alimentarmos Dele também alimentaremos o caminho que se converte em força vital para a superação dos cansaços. Gravemos no coração o poeta espanhol: “Caminhante não existe caminho, faz-se o caminho ao andar” (Anibal Machado)


CONTEMPLAR

O pão da vida, Hermel Alejandre, acrílico sobre tela, 45,72 cm x 58,42 cm, Filipinas, 2010.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Caminho da Beleza 37 - XVIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 37
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).


XVIII Domingo Tempo Comum                   05.08.2012
Ex 16, 2-4.12-15                Ef 4, 17.20-24                    Jo 6, 24-35


ESCUTAR

“Ao anoitecer, comereis carne e, pela manhã, vos fartarei de pão. Assim sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus” (Ex 16, 12).

“Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 17.20-24).

“Em verdade, em verdade vos digo, estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos” (Jo 6, 26).


MEDITAR

“Em nossos dias, não sabemos mais o que o homem é porque não sabemos mais quem é Deus. Não queremos saber mais o que o homem é porque não queremos mais saber quem é Deus” (Cardeal Lustiger).

“Para que nos serve caminhar por caminhos difíceis e trabalhosos? O repouso não está onde vós procurais. Procurais a vida feliz na região da morte. Ela não está lá. Como poderia existir uma vida feliz lá onde nem há mesmo vida?” (Santo Agostinho).


ORAR

Existem buscas que são equivocadas desde o início e, tantas vezes, buscamos Jesus por razões que nada tem a ver com Ele. As mais perigosas são estas buscas redutivas, limitadas e mesquinhas. Jesus reprova os que não desejam outra coisa a não ser o alimento suficiente para contentarem-se ou aqueles que querem fazer Dele um rei para que sejam resolvidos os seus problemas econômicos e se realizem os seus sonhos nacionalistas. Jesus convida para a descoberta de outra fome e outra sede. Na sua cegueira imediatista, as pessoas insaciáveis não se deram conta do sinal acontecido. Encheram seus estômagos, retiveram o milagre como um meio de matar a fome e passaram ao largo da misericórdia do Pai. Não foram além da necessidade de um rei padeiro que lhes forneceria, sem cessar e sem nenhum custo, o pão de cada dia. E, apesar de tudo o que viram, exigem mais um sinal para que possam Nele acreditar e para que provasse a Sua autoridade. Jesus não lhes dá nenhum outro sinal e proclama: “EU SOU o pão da vida”. O mesmo EU SOU da revelação de Deus a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE É e disse mais: ‘Assim dirás aos israelitas: EU SOU me enviou até vós’” (Ez 3, 14). É assim que Jesus se revela sempre. Ao curar o cego: “EU SOU a luz do mundo”; ao ressuscitar o amigo Lázaro: “EU SOU a ressurreição e a vida”; na sua despedida antes de voltar ao Pai: “EU SOU o caminho” e, finalmente, quando pela sua entrega total vai derramar o seu sangue: “EU SOU a verdadeira vinha”. O evangelista fala de sinais e não de milagres. O milagre tem o perigo de se paralisar num ponto fixo de deslumbramento que pode bloquear cada um de nós no assombro e no entusiasmo artificial. Os sinais são pontos interrogativos que nos obrigam a superar a materialidade dos fatos, a exterioridade deles, para captar a mensagem secreta e nos colocarmos perguntas fundamentais sobre a pessoa e a missão de Jesus. No entanto, o sinal não desemboca diretamente na fé. A ela só chegamos por meio do encontro com a Palavra. Jesus nos chama a uma superação permanente das posições cristalizadas, defendidas com unhas e dentes, e que nos impedem de nos convertermos em discípulos. Temos preferido manter a prudência, esta virtude muito utilizada nas igrejas, e continuar plantados em território conhecido e, por esta razão, nunca descobriremos que é somente do outro lado da fronteira que a palavra pode penetrar em nós : “Consta-me que sois da linhagem de Abraão; porém tentais matar-me por que a minha palavra não penetra em vós”(Jo 8, 37). Precisamos extirpar da nossa memória a nostalgia do maná que impede de morrer de fome, para acolher o Pão que garante a vida. Jesus propõe a lei da superação e continuamos a preferir os gestos conciliatórios que deixam tudo como está. Como diz a linguagem popular: “Trocamos, sempre, seis por meia dúzia”. Ao caminho novo da liberdade proposto por Jesus, temos respondido com a nostalgia da escravidão. Escutemos um judeu, como Jesus, que fez eco à reciprocidade do amor e da vida: “Se pressupomos o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, só se por trocar amor por amor, confiança por confiança, etc. (...) Se amas sem despertar amor, isto é, se teu amor enquanto amor, não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça” (Karl Marx, Manuscritos Econômicos e Filosóficos).


CONTEMPLAR

A Última Ceia, Sieger Köder, Alemanha, 1989.




domingo, 22 de julho de 2012

O Caminho da Beleza 36 - XVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 36
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XVII Domingo do Tempo Comum              29.07.2012
2 Rs 4, 42-44                     Ef 4, 1-6                   Jo 6, 1-15



ESCUTAR


“E Eliseu disse: ‘Dá ao povo para que coma’. Mas o seu servo respondeu-lhe: ‘Como vou distribuir tão pouco para cem pessoas?’. Eliseu disse outra vez: ‘Dá ao povo para que coma; pois assim diz o Senhor: ‘Comerão e ainda sobrará’” (2 Rs 4, 43).


“Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor” (Ef 4, 1-2).


“André, o irmão de Simão Pedro, disse: ‘Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?’” (Jo 6, 8).



MEDITAR


“No ventre em que o ódio se instalou primeiro, o amor não encontra lugar” (Provérbio da Costa do Marfim).


“O contrário da felicidade não é a tristeza, mas um coração endurecido. É recusar se deixar tocar pelos outros, colocar uma barreira para impedir o coração de se comover. Se quisermos ser feliz é preciso sair de nós mesmos e sermos vulneráveis”(Timothy Radcliffe).



ORAR


Jesus testemunha que a humildade, a mansidão, e a paciência devem caminhar juntas com a justiça. Não podemos nos contentar com apenas deixar cair migalhas da nossa mesa; nem entregar aos milhares de Lázaros, que batem à nossa porta, as sobras das nossas farturas. Não se distribuem as sobras antes do banquete e o Senhor nos convida para o banquete que nos sacia em plenitude e não para matar a fome com o que dele sobra. A eucaristia é a celebração da abundância e não uma mera lembrança facultativa dos pobres e famintos. Jesus impede que a comunidade dos que O seguem se feche sobre si mesma e nos ensina que somente uma igreja disposta a “perder” pode representar uma esperança concreta no deserto do mundo. O Cristo exige de nós a pobreza e o serviço, pois a pobreza coloca o mínimo à disposição de todos e o serviço exige que a Igreja de Jesus seja uma igreja despojada, modesta e sem importância aos olhos dos poderosos e abastados. Jesus testemunha que a desproporção das medidas se anula quando o pouco que se tem e o nada que se é se convertem no tudo que se dá e se dispõem. Ter fé não é acreditar em milagres, mas acreditar que o Cristo para fazer um milagre necessita do pouco que temos e oferecemos gratuitamente. Ter fé significa aceitar que Ele transforme nosso coração de pedra acostumado aos cálculos exatos em corações de carne capazes de saciar as pessoas com a irracionalidade das carências, das perdas e dos serviços fraternos. O evangelista nos coloca diante da pobreza simbolizada por cinco pães e dois peixes com os quais é impossível alimentar uma multidão. O menino frágil entrega tudo o que tinha para se alimentar e, na generosidade do seu coração, o mínimo se torna o ponto de partida para o máximo: um mínimo multiplicado. Jesus transmuta a pobreza e revela que somos infinitamente ricos quando, mesmo com as mãos vazias, as temos plenas de dons da compaixão. Jesus ensina que não há vida humana que, apesar de sua pequenez, não possa se transformar em riqueza divina e que esta bênção preenche o coração de felicidade. No “milagre da multiplicação” não há lugar para nenhum cálculo e, no entanto, tudo parece mais rico, mais bonito, mais frutuoso e mais transbordante do que antes. Os sete pães e os dois peixes restam como são e não mudam de forma e consistência e, no entanto, é nesta aparência exterior que Deus vem às nossas vidas. Somos convidados a comer todos juntos e nos fartar dos dons oferecidos pela fecundidade da vida, pois “há um só Deus Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Jesus pede ao Pai que alimente a multidão assim como a comunidade eclesial pede ao Espírito Santo que transforme o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Cristo que nos alimenta, salva e nos dá coragem. A eucaristia entrega, de mão em mão, o Corpo e o Sangue do Cristo e nos torna lúcidos para que saibamos que jamais O possuiremos como uma coisa agregada de valor sagrado, mas que O encontraremos como Pessoa elevando a nossa dignidade humana como um dom e uma bênção. Não podemos esquecer que a eucaristia é a proclamação de que a morte foi aniquilada e que Jesus revela que o amor pode ser multiplicado ainda que seja pouco o que ousamos dar de ternura e compaixão uns aos outros.



CONTEMPLAR


A santa ceia (detalhe), Arcabas (Jean-Marie Pirot), óleo sobre tela, 0,81m x 0,65m, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França, 2003.











sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 35
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



XVI Domingo do Tempo Comum                22.07.2012
Jr 23, 1-6                 Ef 2, 13-18              Mc 6, 30-34



ESCUTAR


“Vós dispersastes o meu rebanho, e o afugentastes e não cuidastes dele. E eu reunirei o resto de minhas ovelhas de todos os países para onde foram expulsas e as farei voltar a seus campos, e elas reproduzirão e multiplicarão. Suscitarei para elas novos pastores que as apascentam; não sofrerão mais o medo e a angústia, nenhuma delas se perderá, diz o Senhor” (Jr 23, 2-4).


“Ele, de fato, é a nossa paz: do que era dividido, ele fez uma unidade. Em sua carne ele destruiu o muro de separação: a inimizade” (Ef 2, 14).


“Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6, 34).



MEDITAR


“Se a Igreja for se apresentar como instituição de poder, ou sistema ideológico ou simples tradição religiosa, as pessoas não encontrarão mais nela as respostas para as suas verdadeiras ou mais profundas perguntas. Esta é uma das razões decisivas para o abandono do Cristianismo: seu modelo de vida, como parece claro, não convence. Parece limitar o homem em tudo, estragar a sua alegria de viver, limitar a sua liberdade tão preciosa e conduzi-lo não ao mar aberto, mas à angústia e ao sufocamento” (Bento XVI).


“Nós amamos a vida e nada somos. Ancoramos no amor e não amamos a não ser o que somos. E o que somos?” (Carlos Nejar).



ORAR


O profeta é incisivo e denuncia os pastores que dispersaram e afugentaram o rebanho; não tomaram conta dele e, agora, o próprio Deus o fará, dando novos pastores para que o rebanho não sofra mais de angústia e de medo. O Senhor revela que o pecado maior é descuidar das pessoas e da atenção que cada uma merece: “nenhuma delas se perderá”. Nosso pesado aparato burocrático nos deixa pouco tempo para as pessoas. Somos conclamados a orar pedindo pastores, mas esquecemos de que nada adiantará se nos faltam ovelhas numa messe quase nula e de idade avançada. Paulo é enfático e proclama que Cristo derrubou o ódio que era o muro que nos separava; não só os muros de pedra, mas os muros de defesa e exclusão. Cristo aniquilou todos os muros pelo primado do amor manifestado na sua morte violenta na cruz. A exigência radical do amor supera toda “a Lei com seus mandamentos e decretos” e destrói a inimizade aninhada no coração de cada um. Jesus nos apela, cotidianamente, a impedir que a vida se apague por causa de um ativismo sem alma que não liberta as forças vitais, mas as consome e as esgota: “havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer”. O seguimento de Jesus implica em aceitar que seremos incomodados em nossos planos e em nossas lógicas individuais e, às vezes, excludentes. Não podemos negar a compaixão e nem subordinar a dor das pessoas ao ritmo dos nossos expedientes individuais para que não transformemos nossos irmãos e irmãs num estorvo que nos impedirá de reconhecer neles o Cristo Ressuscitado que nos interpela a todo instante: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era estrangeiro e me acolheste, estava nu e me vestiste, estive enfermo e cuidaste de mim, preso e fostes ver-me” (Mt 25, 35-36). Devemos nos entregar inteiros, mas precisamos nos subtrair por um momento para esta aparente atividade improdutiva que é a oração. Jesus ensina que a solidão é um meio privilegiado de comunhão. Não podemos nos converter em pastores incapazes de apascentar porque nos autocondenamos ao esgotamento estéril e patético dos que, a todo custo, só sabem perseguir e correr atrás das ovelhas. Jesus revela que o pastor só perde suas ovelhas quando perde algo dentro de si mesmo e, então, os elos se rompem, voltam a serem erguidos os muros da separação, pois foi perdida a dinâmica do élan vital com o Pai, pelo Filho no Espírito Santo. Uma vida cristã é um aprendizado de estar com o coração aberto a todo instante. Jesus nos precedeu percorrendo as estradas poeirentas, entrando nas cidades, fazendo o bem, acolhendo os párias, sentando com os pobres e comendo à mesa com os pecadores. Jesus sofreu a malícia e os sarcasmos dos poderes religiosos e imperiais. Jesus testemunhou que fracassar não é crime e nem pecado. O crime e o pecado são, orgulhosamente, contentarmo-nos com os objetivos medíocres em toda a nossa travessia. Vamos tentar, mais uma vez, ensinar nossos jovens e as futuras gerações a destruir os muros da inimizade e as fronteiras da intolerância e, com ousadia, esperança e risco, fazê-los arrancar o grito preso na garganta e parado no ar: “Deixem o sol entrar!”.



CONTEMPLAR


Foto-montagem, autoria desconhecida, s.d.