terça-feira, 8 de maio de 2012

O Caminho da Beleza 25 - VI Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 25
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



VI Domingo da Páscoa             13.05.2012
At 10, 25-26.34.35.44-48                     1 Jo 4, 7-10             Jo 15, 9-17


ESCUTAR

“Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

“Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).

“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros” (Jo 15, 16-17).


MEDITAR

“Nossa comunhão não constrói muralhas que separam e aprisionam numa torre de marfim, mas coloca-nos a serviço do Reino de Deus na construção de um mundo fraterno. Nossa comunhão não é somente para o momento de uma missa, pois ela é a atitude mais essencial da nossa vida e ela mesma é o sinal maior do Reino de Deus realizado em nosso mundo. Nossa fraternidade é o sacramento da presença e da ação de Deus” (D. Pierre Claverie, op).

“Uma pessoa má pode fazer dez mil vezes mais dano do que uma fera, porque nós podemos usar nossa razão para tramar muitos e diversos males” (S. Tomás de Aquino).


ORAR

Deus se antecipa sempre aos nossos itinerários, descobertas e decisões. Ele nos elegeu por primeiro e nos precede no amor. Sempre chegaremos atrasados aos encontros com Deus ainda que apressemos os passos. A descoberta vital de Pedro de que o Senhor não faz distinção entre as pessoas é o sinal mais evidente dos nossos atrasos para os encontros de amor fraterno. E o que nos atrasa é o fato de termos os nossos pés atolados no lamaçal dos preconceitos que nos impede de nos abandonar, em confiança, às impensáveis trajetórias do Espírito. Mais do que nunca, é necessário exorcizar o medo do diferente e aprender que Deus se move no espaço ilimitado de todos. Na entrada de um mosteiro encontramos uma placa com os seguintes dizeres: “O primeiro gesto ao nos aproximarmos de outro povo, de outra cultura e de outra religião é ficarmos descalços, porque o lugar do qual nos aproximamos é sagrado. Senão estaremos esmagando os sonhos dos outros ao esquecer que Deus ali estava antes mesmo de nós chegarmos”. João reafirma que a origem e o conteúdo da missão é o amor: o amor do Pai funda a missão do Filho e o amor do Cristo faz brotar, no Espírito, a missão dos discípulos. Este amor revelado pelo Cristo é um amor universal e a nós não cabe nenhuma mentalidade elitista, sectária e discriminatória. Somos chamados, na liberdade do Espírito de Jesus, a entrar em casas diversas e a sentarmos à mesa dos homens e das mulheres, pois o Espírito do Senhor entrega os seus dons sem pedir, antecipadamente, informações, cadastros, senhas e atestados de boa conduta. O mundo plural e diverso é o lugar privilegiado e amado de Sua morada. Pedro recusa qualquer privilégio: “Sou apenas um homem”. E nos testemunha que somente sendo um homem como os outros é que poderemos nos encontrar. Depende de nós que o mundo em que vivemos se transforme num deserto, num caos ou num campo de batalha ou que reencontre a sua vocação de jardim, de cidade fraterna onde habita a justiça. Devemos aprender que o diferente de nós traz em si uma parte da verdade que procuramos. Pedro adverte em sua carta: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele não forçadamente, mas de boa vontade, como Deus quer; não por lucro sórdido, mas generosamente; não como tiranos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos do rebanho” (1 Pd 5, 2-3). Jesus ensinou que o amor é tanto mais convincente quanto mais desarmado e despojado. Amar-nos uns aos outros é o mandamento dos cristãos que nos permite reconhecer os discípulos de Jesus (Jo 13, 35). O testemunho a ser dado só é eficaz quando nos olhando disserem: “Vede como se amam” (Tertuliano). Caso percamos esta dimensão central e única, o cristianismo perde o seu caráter de Evangelho, de Boa Nova. A fé cristã e a prática do amor devem criar uma imensa comunhão fraterna entre os povos e as raças mais diversas. Esta atitude não é fácil e nem se aprende de uma hora para outra: é necessário, além da boa vontade, um empenho e um mínimo de inteligência para evitar os confrontos e nos abrirmos aos diferentes de nós. Jesus testemunha que nenhuma mediação institucional, nenhum gesto sacrificial e nenhum ritual religioso são indispensáveis. O cristianismo pode se tornar uma seita, basta se fechar sobre si mesmo. Jesus é imperativo: “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros” e, no seguimento de Jesus, o mais importante é a verdade da relação íntima com Deus e a prática do amor fraterno, pois todo aquele, cristão ou não, que age de uma maneira verdadeira e amorosa está ligado a Deus. E no seu Reino, que é Dele, encontra morada eterna quem melhor Lhe aprouver e quem Ele quiser.


CONTEMPLAR

Cristo como uma videira, Lorenzo Lotto, 1523 circa, afresco do Oratório Suardi, Trescore, Itália.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Caminho da Beleza 24 - V Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 24
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



V Domingo de Páscoa               06.05.2012
At 9, 26-31              1 Jo 3, 19-24                      Jo 15, 1-8


ESCUTAR

“A Igreja, porém, vivia em paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. Ela consolidava-se e progredia no temor do Senhor e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo” (At 9, 31).

“Não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! Aí está o critério para saber que somos da verdade e para sossegar diante dele o nosso coração, pois, se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas”(1 Jo 3, 18-19).

“Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa para que dê mais fruto ainda” (Jo 15, 1-8).


MEDITAR

“Só há um passo a se fazer para reencontrar Deus: um passo para fora de si mesmo” (Rumi).

“Ser pecador é querer fazer de si mesmo o centro do mundo, orbitar em torno de si próprio, querer ser a si próprio por si mesmo, diante dos outros, diante de Deus e reduzir tudo a si” (D. Pierre Claverie, op).


ORAR

A alegoria da vinha que “deve dar frutos” parece ser a que mais responde à mentalidade atual de eficiência e produtividade. Na nossa sociedade globalizada, crianças e idosos são estigmatizados como improdutivos e nos orçamentos públicos classificados como despesas, mas o mercado encontra para eles a positividade de consumidores privilegiados de mercadorias específicas. Dar frutos, no Evangelho, não se trata de incrementar o rendimento e multiplicar as utilidades. Neste evangelho, estamos na esfera da vida e não de qualquer empresa com ganas de expansão. Para Jesus, os números não dão conta da vida em plenitude, e Seus critérios são o de Nele permanecer e aceitar a poda. Permanecer Nele não é um enxerto externo, mas uma convivência profunda, uma comunhão íntima com o seu Espírito e um intercâmbio vital. A carta de João nos conclama a não amarmos “só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade”: amar com ações nos impulsiona a ir em direção aos outros e amar de verdade nos leva a aceitar os nossos próprios limites. A poda faz parte da travessia e toda árvore é submetida a ela para que possa dar mais frutos. O próprio Jesus sofreu as discriminações dos seus e foi podado muitas vezes em suas andanças para espalhar o bem. Jesus, para manifestar o amor do Pai, não ficou trancado em seu próprio mundo, mas foi ao encontro dos que mais precisavam dele. Ele carregou os fardos de muitos para que ficassem gravados nos sulcos da terra os sinais visíveis da misericórdia divina que floresceriam nas areias desertas dos afetos e dos egoísmos. A lição para a Igreja é evidente: nenhuma comunidade, que se quiser cristã e que pretenda permanecer na verdade, pode praticar o amor somente entre os seus e cercada pelos seus muros. É no seu interior que, muitas vezes, sopra o vento gelado da injustiça, do egoísmo, do ciúme, da exclusão, da violência, do preconceito e da indiferença. João nos apela a dilatar o coração até as dimensões do coração de Deus, pois Ele é maior do que o nosso coração. O seguimento de Jesus não diz respeito a alguns instantes de devoção, ou apenas o cumprimento de disciplinas eclesiásticas, mas implica uma travessia longa e fatigante na qual somos chamados a perseverar e a manter, a qualquer custo, nossos elos de amor, de amizade e de fraternidade (Jo 15, 13-15) que podem custar a nossa própria vida. A fé não é uma questão de opinião, mas uma maneira de ser e o amor do outro é a melhor maneira de se ter paz no coração. Foi Barnabé quem confiou em Paulo e testemunhou por ele. Um judeu, levita, originário de Chipre, cujo nome verdadeiro era José. Deram-lhe o nome de Barnabé que significa “o homem do reconforto”. A imagem da vinha é de grande força expressiva e coloca em destaque que podem existir discípulos que não dão frutos porque não corre em suas veias o Evangelho do Ressuscitado e suas comunidades estão desconectadas da relação íntima com o Cristo porque reduziram a adesão pessoal a um folclore religioso anacrônico que não leva a ninguém a Boa Nova. Tudo é dom: se formos ricos, somos pobres, pois nada nos pertence e não levamos nada para a vida eterna. Tudo nos foi dado como sinal da presença e do amor de Deus e, por esta razão, não podemos reter nada para nós, nem acumular, nem alimentar a ganância. Esta presença de amor é um apelo ao abandono, pois o dia em que retivermos o dom, ele morre entre nossas mãos.


CONTEMPLAR

Cristo, “A Verdadeira Vinha”, Angelos Akotantos, primeira metade do século XV, Escola de Creta, têmpera sobre ouro e gesso sobre madeira, 38 cm x 48 cm, Temple Gallery, Londres, Reino Unido.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 23 - IV Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).

“Não deixe cair a profecia” (D. Hélder Câmara, 1999, dias antes de sua passagem).



IV Domingo da Páscoa                        29.04.2012
At 4, 8-12                1 Jo 3, 1-2                Jo 10, 11-18


ESCUTAR

“Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se tornou a pedra angular” (At 4, 11).

“Amados, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1 Jo 3, 1-2).

“Eu dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10, 15).


MEDITAR

“Tudo o que é medíocre em nós, pelo instinto de conservação e por meio de todos os tipos de mentiras, tenta nos impedir de reconhecer que o que amamos perpetuamente, do primeiro ao último instante da vida, não é outra coisa que o verdadeiro Deus. Desde que o reconheçamos toda a mediocridade em nós está condenada à morte” (Simone Weil, Intuições pré-cristãs).

“Você tem que provar na sua vida que você é filho de verdade e tem que amar sabe como? Totalmente!” (Madre Belém, Testamento Espiritual).


ORAR

Muitas vezes, nós pastores, obedecemos a lógica do mercenário quando cedemos ao prestígio pessoal, ao êxito, à popularidade; quando camuflamos, pelo paternalismo, o desejo de centralizar o poder; quando, ao invés de servir nos servimos das pessoas e nos relacionamos com elas sob a ótica da utilidade. Não criamos uma comunidade, mas uma corte de bajuladores que repartem entre si os cargos de maior visibilidade na igreja. Jesus se apresenta como o Bom Pastor, mas também como o Cordeiro (Jo 1, 29) e o cordeiro sempre nos invoca a imagem de debilidade mais do que a de força; de vítima mais do que a de guerreiro e conquistador; de modéstia mais do que a de arrogância. O evangelista João reafirma que o Cordeiro de Deus não se afastou, nem discriminou os pecadores e doentes, mas se tornou plenamente solidário com todos, sem exceção. Entre nós existe apenas uma raça que não está comprometida pela ameaça da extinção: a dos lobos e mercenários sem escrúpulos, que transitam livremente entre os rebanhos que estão muitas vezes à mercê deles como “ovelhas sem pastor”. Apascentar significa vigiar, nutrir, ensinar e sustentar. O bom pastor não apascenta a si mesmo, caso contrário será um amor ladrão que toma posse do que pertence a Deus e trai a confiança nele depositada; será ainda um amor feroz que usa da voracidade, da violência e da chantagem afetiva para submeter o outro e negar-lhe o direito à liberdade de amar. A comunidade criada pelo Cristo só a Ele pertence e não está encerrada em nenhuma instituição e nem restrita a uma cultura específica. O Cristo distribui os dons plurais e diversos para que nasçam comunidades fraternas e amorosas espalhadas por estas veredas de Deus e que um dia serão um único rebanho de um só pastor. Temos manipulado nossos jovens e nos servido deles para preencher os ginásios, as praças e os campos de futebol a fim de ostentar, com o poder dos números, a presença massiva em nossas igrejas. No entanto, Pedro alerta: quando aparecer o pastor supremo (1 Pd 5, 4), Ele não nos pedirá contas dos resultados faraônicos obtidos na colheita e no pastoreio, mas nos questionará sobre a paciência amorosa com a qual nos revestimos para semear e pastorear. O terreno do Juízo Final não será o ruidoso espaço das praças e ginásios, mas o pedaço minúsculo do nosso coração. A Igreja de Jesus não está construída sobre preciosos mármores ou cenários monumentais. A Igreja de Jesus está alicerçada sobre “uma pedra desprezada pelos construtores”. Somos herdeiros de Pedro, o pescador e não de Constantino, o imperador. A comunidade cristã se nutre da disponibilidade de amar e de dar a vida uns pelos outros ainda que seja por meio de orações e intercessões. Somos parte deste Corpo Místico do Cristo em que o menor gesto ecoa e faz vibrar a totalidade deste mesmo Corpo. Se as ovelhas não valem a nossa vida, erramos de redil e nos perdemos, clamorosamente, nas estatísticas burocráticas de uma instituição eclesiástica. O mistério pascal se expressa no ato de entregar a vida e no aceitar, se preciso for, a morte. Jesus neste evangelho lança um desafio crucial: realizamos o nosso serviço aos irmãos como funcionários/mercenários ou como pessoas comprometidas com as comunidades que nos foram dadas por Deus? Se vingarmos a nossa presença como mercenários e não como samaritanos, viveremos na angústia de uma consciência infeliz que engana e, então, todos sairão perdendo: o pastor, as ovelhas, mas, sobretudo, a Igreja de Jesus.


CONTEMPLAR

A ovelha reencontrada, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 1985, Église de Saint-Hugues-de-Chartreuse, Isère, França.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 22 - III Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



III Domingo de Páscoa                        22.04.2012
At 3, 13-15.17-19               1 Jo 2, 1-5                Lc 24, 35-48



ESCUTAR

“Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino. Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (At 3, 14-15).

“Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um defensor: Jesus Cristo, o justo”(1 Jo 2, 1).

“Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”. Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu diante deles” (Lc 24, 41-43).


MEDITAR

“A religião de Cristo não é a sobremesa após algum pão; pelo contrário, é ou o pão ou nada. As pessoas deveriam ao menos entender e admitir isso antes de se considerarem cristãs” (Dietrich Bonhoeffer).

“O cristianismo prega o valor infinito do que aparenta não ter valor e a inutilidade infinita do que aparenta ser valioso” (Chesterton).


ORAR

            Somente Deus pode inverter a história conduzida pelos homens. Este contraste está no anúncio de Pedro de que o povo rejeitou “o santo e o justo” e pediu a libertação de Barrabás; de que mataram o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. O mesmo contraste esta na carta de João: temos, infelizmente, a possibilidade de pecar, mas ainda que pequemos teremos o Cristo como nosso defensor diante do Pai. Todas as leituras conduzem ao mesmo argumento: a exigência do arrependimento, a mudança radical de vida, o cumprimento da Palavra, a acolhida da Boa Nova e a certeza do perdão. Jesus conhece o coração dos seus discípulos e sabe que, na realidade, não acreditavam na sua Ressurreição, pois ao ouvirem a saudação de Paz “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Uma fé vaga e difusa, mascarada por uma vibração exagerada, não basta. Uma fé deste tipo pode dissimular o que de fato estamos vivendo: “eles não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos”. A fé no Ressuscitado é uma adesão a uma presença viva que pode ser revelada, explicada pelas Escrituras e pela memória das palavras de Jesus (Jo 2, 22). As coisas miraculosas podem atiçar o emocional, conduzir a visões extraordinárias, emitir sons de línguas estranhas, mas isto não quer dizer nada e pode nos iludir. A resposta de Abraão ao rico egoísta, que lhe havia pedido que enviasse o pobre Lázaro aos seus irmãos, é definitiva: “Se não escutam Moisés e nem os profetas, mesmo que um morto ressuscite, não lhe farão caso” (Lc 16, 31). Jesus não complica as coisas, conhece o nosso coração e mente e, por isso, basta que sejamos testemunhas da sua Morte e Ressurreição. Para nos fortalecer nesta empreitada, seremos conduzidos pelo Espírito que descerá sobre nós pela intercessão do próprio Jesus. Conduzido pelo Espírito, o cristão é convidado, pelo Ressuscitado, a escrever no seu dia a dia uma nova história. O Cristo não quer ser temido como um fantasma que assombra, mete medo e paralisa, pois a sua relação conosco sempre foi de amizade, de confidência, de paciência e de amor: “E no amor não há lugar para o temor” (1 Jo 4, 18). Quem teme nunca alcançará um amor perfeito. O amor desaloja do nosso interior o medo do castigo que tanta angústia nos causa. Este amor louco de Deus está sempre presente na comunidade cristã e na vida de cada um de nós. A todo e qualquer momento, podemos contar com este amor fiel e dele arrancar força e esperança. O nosso futuro não está escrito nas estrelas e nem depende da conjunção astral porque ele é construído em cada nova eucaristia como banquete fraterno, mas também como memorial da Morte e Ressurreição do Senhor. Crer significa aprender a ler os acontecimentos da vida como expressão dos passos de Deus, o passageiro misterioso que nos acompanha na travessia, que nos aponta o futuro que jamais será uma cópia ou uma repetição do passado. O Ressuscitado pode ser encontrado desde que queiramos, não desviemos o olhar e sejamos capazes de gestos concretos de compaixão: “Quem vos der de beber um copo d’água em meu nome não perderá a sua recompensa” (Mc 9, 41). Na páscoa cristã, o Ressuscitado, nosso advogado junto ao Pai, e o pecador convertido se cruzam e constituem a comunidade pascal. Uma pequena condição é necessária: que à liberdade da oferta divina corresponda a liberdade da aceitação humana. Meditemos o nosso sim cotidiano ao Ressuscitado nas palavras do teólogo de Lubac: “Todo problema da vida espiritual consiste no liberar o desejo da vida e transformá-lo em conversão radical, em metanóia, sem a qual não se entra absolutamente no Reino”. Deixemo-nos conduzir pelo Espírito que habita em nós como uma comunhão de mistérios, um encantamento de ternuras, que faz os que se amam olharem, não mais um para o outro, mas todos na mesma direção.


CONTEMPLAR

A Ressurreição, ícone russo do século XVI, Russian Museum, São Petersburgo, Rússia.


terça-feira, 10 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 21 - II Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 21
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



II Domingo da Páscoa              15.04.2012
At 4, 32-35              1 Jo 5, 1-6                Jo 20, 19-31


ESCUTAR

“Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas vendiam-nas, levavam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos” (At 4, 34-35)

“Todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5, 4).

“Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20, 30-31).


MEDITAR

“Se você embarcar no trem errado, não adianta correr pelo corredor na direção oposta” (Dietrich Bonhoeffer).

“A Palavra está ao teu alcance, em teu coração e em tua boca para que a pratiques: mais que próxima, está em nós, entre nós e nasce de nós. É a forma suprema do amor de Deus por nós” (Cardeal Lustiger).


ORAR

O evangelista João escreve o necessário e o sumamente eficaz para o nosso crer. João traça um itinerário para a adesão a Alguém em que podemos confiar e estabelecer uma relação profunda. A fé, para João, é um itinerário a ser perseguido e não um objeto a ser apropriado.  Confiar (e não acreditar) é a melhor expressão para definir a fé. Neste itinerário teremos cansaços, dúvidas, incertezas, obscuridades, mas muitas novidades e surpresas que são como raios de luz. O cristão não “tem fé” como qualquer coisa que se compre em lojas ou butiques religiosas porque os cristãos são homens e mulheres que produzem e amadurecem relações pessoais entre si e porque acreditam em Jesus e com Ele também estabelecem relações pessoais. Deus é um segredo único que devemos descobrir de uma maneira única. A fé cristã implica uma relação pessoal com Deus e devemos estar conscientes de que quando oramos “Pai Nosso” este Deus de todos é, ao mesmo tempo, o “Meu Pai”, o Deus de cada um de nós, e a Ele estamos unidos no nosso mais íntimo mistério que só Ele conhece absolutamente. Jesus é incisivo com Tomé: “Não sejas incrédulo, mas crente!”. O evangelista responde a todas as indagações do “que fazer”: “Crer!” (Jo 6, 28-29). Neste itinerário do crer se resumem todas as bem-aventuranças: “Felizes os que creram” (Jo 20, 29). Para o cristão, crer tem tudo a ver com viver e a fé se une com o amor criando a liturgia da vida cotidiana como uma permanente ação de graças com o Pai, pelo Filho, no Espírito. Somos chamados à comunhão fraterna numa vida de filhos e de irmãos, pois o amor aos outros é o prolongamento do amor de Deus a nós e em nós. A fé pascal não é fruto de uma exaltação religiosa barata, mas uma vitória de Jesus Ressuscitado sobre as dúvidas que paralisaram seus discípulos e podem paralisar os que o seguem. O evangelho de hoje reitera que a assembleia litúrgica é a maior manifestação da comunidade cristã, uma vez que é nela que o Cristo vem, fica no meio de nós, oferece-nos a paz e nos dá o Espírito Santo. Tomé, isolado e ausente da comunidade, não recebeu o Espírito Santo e se colocou à margem da única e essencial missão: remir os pecados, perdoar em nome de Deus e reconciliar todos os homens, filhos de Deus e irmãos entre si. A comunidade fraterna nos faz “ver” o Ressuscitado e receber Dele, a cada novo domingo, a paz necessária para continuar a travessia. Como os apóstolos que tiveram as suas vidas reviradas pelo avesso, também nós, pelo ato de crer, tornamo-nos peregrinos e anunciadores do Reino de Deus e da Vida Eterna. O Ressuscitado irrompe na vida de cada um de nós e se torna mais radiante quando somos capazes de reconhecê-Lo em cada irmão e irmã que encontramos ao largo do caminho. Somente a vida em comunhão nos livra do medo da morte, do arrivismo e do oportunismo político e religioso. Somos convidados a nos libertar da obsessão pelas coisas, da propriedade dos objetos e exorcizar do nosso coração o verbo “ter”. A Páscoa gera a fé e a fé gera o amor. E assim vamos descobrindo este Espírito em nós que revela a dimensão única de “ser” na liberdade da doação de si, que nos traz a paz e nos cumula de ternura e de amor.


CONTEMPLAR

A incredulidade de São Tomé, Matthias Stomer, c. 1620, óleo sobre tela, 125 cm x 99 cm, Museu do Prado, Espanha.






segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 20 - Páscoa da Ressurreição

O Caminho da Beleza 20
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Páscoa da Ressurreição                      08.04.2012
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR

“Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10, 40-41).

“Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3, 1-3).

“Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20, 1).


MEDITAR

“Não é preciso socorrer o próximo para o Cristo, mas pelo Cristo. Que o eu desapareça de tal modo que o Cristo, por intermédio da nossa alma e do nosso corpo, socorra o próximo” (Simone Weil, A gravidade e a graça).

“Outra coisa é sabermos manter esse amor ao Cristo por uma doação completa aos pobres e necessitados. Mesmo que seja pouco o que eles não ousam pedir, nós temos que adivinhar e é essa resposta que Deus pede de nós” (Madre Belém, Testamento Espiritual).


ORAR

            A liturgia deste domingo não apresenta nenhum relato de como foi a ressurreição de Jesus e nem uma cronologia deste evento. O evangelista anuncia o Cristo Morto e Ressuscitado, apela-nos à fé neste anúncio e nos convida a proclamá-lo para todos. O dominicano Timothy Radcliffe escreve que “a história da morte e ressurreição do Cristo não é propriedade absoluta da Igreja, mas tornou-se uma história que oferecemos aos que vão vivê-la da sua maneira e talvez de um modo que não havíamos previsto”. Neste domingo de Páscoa, precisamos perguntar se, no fundo do nosso coração, aproveitamos os quarenta dias da quaresma como o tempo oportuno de assumir o conselho paulino: “Extirpai o fermento velho para serdes massa nova, uma vez que sois ázimos, já que nossa vítima pascal, Cristo, foi imolado”(1 Cor 5, 7). Tantas vezes vivemos, em nossas práticas descomprometidas, a indolência e a passividade de páscoas episódicas e não o êxodo até a terra da vida, da novidade e da luz. A pedra foi retirada do sepulcro como sinal de que a morte fora vencida e Cristo nos abriu totalmente o horizonte do impossível. Satanás foi condenado para sempre a ser o senhor dos medíocres e o príncipe dos resignados. Cervantes colocava nos lábios de Quixote: “A maior loucura é ver o mundo como ele é e não como deveria ser” e Paulo exclama que “a loucura de Deus é mais sábia que os homens” (1 Cor 1, 25). Celebrar a Páscoa não significa explorar a devoção de um sepulcro vazio, mas ler os sinais de que a fé na Ressurreição nasce de uma palavra e do anúncio de que nosso Deus “não é um Deus de mortos, mas de vivos, pois para ele todos vivem”(Lc 20, 38). Celebrar a Páscoa é colocar-se nas veredas do Ressuscitado e se deixar encontrar por Ele que, em cada novo momento, assume um rosto translúcido. Temos que vencer o medo de sair para fora do nosso sepulcro interior, pois o  Cristo nos deixou o sinal de que voltaria para cear conosco: o pano que cobria a sua cabeça estava dobrado ao lado e não amassado junto às faixas que cobriram o seu corpo. Na cultura judaica, quando o senhor deixava o pano dobrado sobre a mesa era o sinal de que ainda voltaria para continuar a refeição. A nossa Páscoa deve ser celebrada no reino da gratuidade e da solidariedade, pois o Ressuscitado nos convida a ser, novamente, principiantes da vida. O Cristo é o Senhor do impossível e se revela no inacreditável: o perdão vence a traição, o abandono, a covardia, a mesquinhez e a esperteza dos cálculos. Deus removeu a pedra que mumificava as nossas esperanças e somos enviados para proclamar que a vida vence a morte em todas as partes em que ela se faz desesperadora: no narcotráfico, nos campos de extermínio, na produção das armas atômicas, mas também nas indigências de nossos hospitais públicos, das nossas escolas e na omissão das nossas igrejas ante a corrupção que condena seus filhos e filhas a uma vida indigna e sub-humana. Somos chamados a ser testemunhas do Ressuscitado e “celebrar a festa não com fermento velho, fermento da maldade e perversidade, mas com ázimos de sinceridade e verdade”(1 Cor 5, 8). Paulo nos conclama a “esperar as coisas celestes” e as realidades celestes aqui na terra são viver com generosidade, com espírito de serviço, numa presença samaritana que dignifique o Cristo que entregou a sua vida por nós. Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, na Argélia, dominicano martirizado em 1996, escreveu: “A Igreja realiza a sua vocação e missão quando está presente nas rupturas que crucificam a humanidade na sua carne e na sua unidade, pois somente nestes lugares que se pode entrever a luz da Ressurreição”. A partir de agora, o mundo é a Galileia em que vivem nossos irmãos e irmãs e devemos anunciar-lhes que a humanidade é possível, a esperança que ainda não é pode ser e que a solidariedade e a compaixão nos salvam, pois Cristo, amaldiçoado pelos poderes civis e religiosos, foi condenado, morto, sepultado e ressuscitou dos mortos. Este é o nosso Credo e esta é a fé que nos abre os caminhos da Vida Eterna.


CONTEMPLAR

Ressurreição (parte do políptico “Paixão-Ressurreição”), Arcabas (Jean-Marie Pirot), óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 2,22 m x 1,35 m, 2003, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.




domingo, 25 de março de 2012

O Caminho da Beleza 19 - Domingo de Ramos

 O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Domingo de Ramos                   01.04.2012
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Mc 14, 1-15, 47



ESCUTAR

“O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50, 4).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

“Nesse momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: Na verdade, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 38-39).


MEDITAR

“Aonde iremos nós? Que procuramos nós? A felicidade? Mas Deus é a felicidade. A verdade? Mas Deus é a verdade. A existência? Mas Deus é a vida. Tudo o que nosso coração deseja quer atingir e conquistar de maneira absoluta, tudo isto se relaciona e converge para este centro de todas as aspirações: Deus!” (Paulo VI).

“Amar é essencialmente se dar aos outros. Longe de ser uma inclinação instintiva, o amor é uma decisão consciente da vontade de ir aos outros. Para poder se amar de verdade, é preciso se desligar de muitas coisas e, sobretudo, de si e se dar, gratuitamente, até o fim” (João Paulo II).


ORAR

            Temos o costume de nomear este domingo como uma entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e, para tanto, acrescentamos todos os ingredientes que a nossa imaginação possa inventar: mobilização das massas, entusiasmo incontido, adornos faustosos, cantos, gritos e aplausos vibrantes. Aprendemos que a grandeza de Deus só pode ser celebrada com mantos reais, coreografias espetaculosas e cortejos imponentes. No entanto, para Jesus, o triunfo é o da humildade, da modéstia, da mansidão, pois todas as suas conquistas foram obtidas com a força do amor. Jesus, até hoje, não se interessa pelos aplausos e gritarias que beiram a histeria, mas sim pelos corações convictos dos seus seguidores. Neste domingo, o Cristo quer ser reconhecido como um rei na sua debilidade desarmada, na sua aceitação da perseguição e no fato de ter resistido à violência, aos insultos e às torturas brutais. O nome de Jesus que invocamos é um nome que foi desacreditado pelos detentores do poder civil e religioso. Neste domingo, não podemos ficar perplexos e desconcertados diante da realidade da Cruz e embaraçados com uma fé sem profecia que nos impede de conquistar a esperança que faz atingir o mais além de nós mesmos. Somente o olhar da fé permite superar o muro do escândalo e acreditar que podemos ver de outra maneira os acontecimentos da nossa vida. E devemos estar lúcidos de que a única resposta ao excesso do mal e da violência é a superabundância de amor que nos conduz, se preciso, até o dom da própria vida.  Jesus não tinha dinheiro. Não tinha autoridade religiosa oficial, por não ser nem sacerdote e nem escriba. Jesus levava apenas em seu coração o fogo do amor pelos que eram injustiçados e até mortos pela violência dos poderosos. A mensagem de Jesus era direta e sem rodeios: os que desprezamos, excluímos e exploramos são os prediletos de Deus. Celebrar a Semana Santa é uma conversão constante para que os nossos corações sejam capazes de olhar e atender aos que sofrem, identificando-nos, cada vez mais, com eles. Nestes tempos, amordaçamos os gritos de indignação e nos acomodamos a tudo o que é tranquilizador, que não exija nada da inteligência e que seja um refúgio que nos proteja do vazio existencial. Queremos e construímos um tipo de religião que não intranquiliza ninguém, que não tem nenhuma agonia, que perdeu a tensão do seguimento de Jesus, pois não nos chama à responsabilidade alguma, pelo contrário, exonéra-nos dela. No nosso cristianismo atual, escutamos cantos que abafam o grito dos pobres; estamos mergulhados em muita alegria e júbilo que não nos sobra tempo para os que sofrem; conclamamos nossos filhos e filhas a “botar fé” para a sua fartura emocional e não os evangelizamos para que tenham fome e sede de justiça para com todos seus irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai. Neste domingo de ramos, celebramos o Messias da Cruz, desprezado, traído e abandonado. Neste domingo, devemos estar atentos ao sinal de Deus para que sejamos humildes e compassivos, pois é o outro – o estrangeiro, o diferente de nós, o pagão – que faz a sua profissão de fé, não no momento arrebatador do triunfo, mas no escândalo da derrota: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”. Por esta razão, devemos sempre testemunhar a esperança de que todos os humilhados da terra um dia se levantarão do seu túmulo para obter a reparação e a recompensa da violência sofrida em suas vidas: a bem-aventurança no Reino e a vida eterna. Amém!


CONTEMPLAR

A entrada de Cristo em Jerusalém (detalhe), Maestro de Tolentino (obra de artesãos anônimos do século XIV, chefiados por Pietro da Rimini), afresco da Capela da Basílica de San Nicola a Tolentino, Província de Macerata, Marche, Itália.