segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 22 - III Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



III Domingo de Páscoa                        22.04.2012
At 3, 13-15.17-19               1 Jo 2, 1-5                Lc 24, 35-48



ESCUTAR

“Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino. Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (At 3, 14-15).

“Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um defensor: Jesus Cristo, o justo”(1 Jo 2, 1).

“Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”. Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu diante deles” (Lc 24, 41-43).


MEDITAR

“A religião de Cristo não é a sobremesa após algum pão; pelo contrário, é ou o pão ou nada. As pessoas deveriam ao menos entender e admitir isso antes de se considerarem cristãs” (Dietrich Bonhoeffer).

“O cristianismo prega o valor infinito do que aparenta não ter valor e a inutilidade infinita do que aparenta ser valioso” (Chesterton).


ORAR

            Somente Deus pode inverter a história conduzida pelos homens. Este contraste está no anúncio de Pedro de que o povo rejeitou “o santo e o justo” e pediu a libertação de Barrabás; de que mataram o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. O mesmo contraste esta na carta de João: temos, infelizmente, a possibilidade de pecar, mas ainda que pequemos teremos o Cristo como nosso defensor diante do Pai. Todas as leituras conduzem ao mesmo argumento: a exigência do arrependimento, a mudança radical de vida, o cumprimento da Palavra, a acolhida da Boa Nova e a certeza do perdão. Jesus conhece o coração dos seus discípulos e sabe que, na realidade, não acreditavam na sua Ressurreição, pois ao ouvirem a saudação de Paz “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Uma fé vaga e difusa, mascarada por uma vibração exagerada, não basta. Uma fé deste tipo pode dissimular o que de fato estamos vivendo: “eles não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos”. A fé no Ressuscitado é uma adesão a uma presença viva que pode ser revelada, explicada pelas Escrituras e pela memória das palavras de Jesus (Jo 2, 22). As coisas miraculosas podem atiçar o emocional, conduzir a visões extraordinárias, emitir sons de línguas estranhas, mas isto não quer dizer nada e pode nos iludir. A resposta de Abraão ao rico egoísta, que lhe havia pedido que enviasse o pobre Lázaro aos seus irmãos, é definitiva: “Se não escutam Moisés e nem os profetas, mesmo que um morto ressuscite, não lhe farão caso” (Lc 16, 31). Jesus não complica as coisas, conhece o nosso coração e mente e, por isso, basta que sejamos testemunhas da sua Morte e Ressurreição. Para nos fortalecer nesta empreitada, seremos conduzidos pelo Espírito que descerá sobre nós pela intercessão do próprio Jesus. Conduzido pelo Espírito, o cristão é convidado, pelo Ressuscitado, a escrever no seu dia a dia uma nova história. O Cristo não quer ser temido como um fantasma que assombra, mete medo e paralisa, pois a sua relação conosco sempre foi de amizade, de confidência, de paciência e de amor: “E no amor não há lugar para o temor” (1 Jo 4, 18). Quem teme nunca alcançará um amor perfeito. O amor desaloja do nosso interior o medo do castigo que tanta angústia nos causa. Este amor louco de Deus está sempre presente na comunidade cristã e na vida de cada um de nós. A todo e qualquer momento, podemos contar com este amor fiel e dele arrancar força e esperança. O nosso futuro não está escrito nas estrelas e nem depende da conjunção astral porque ele é construído em cada nova eucaristia como banquete fraterno, mas também como memorial da Morte e Ressurreição do Senhor. Crer significa aprender a ler os acontecimentos da vida como expressão dos passos de Deus, o passageiro misterioso que nos acompanha na travessia, que nos aponta o futuro que jamais será uma cópia ou uma repetição do passado. O Ressuscitado pode ser encontrado desde que queiramos, não desviemos o olhar e sejamos capazes de gestos concretos de compaixão: “Quem vos der de beber um copo d’água em meu nome não perderá a sua recompensa” (Mc 9, 41). Na páscoa cristã, o Ressuscitado, nosso advogado junto ao Pai, e o pecador convertido se cruzam e constituem a comunidade pascal. Uma pequena condição é necessária: que à liberdade da oferta divina corresponda a liberdade da aceitação humana. Meditemos o nosso sim cotidiano ao Ressuscitado nas palavras do teólogo de Lubac: “Todo problema da vida espiritual consiste no liberar o desejo da vida e transformá-lo em conversão radical, em metanóia, sem a qual não se entra absolutamente no Reino”. Deixemo-nos conduzir pelo Espírito que habita em nós como uma comunhão de mistérios, um encantamento de ternuras, que faz os que se amam olharem, não mais um para o outro, mas todos na mesma direção.


CONTEMPLAR

A Ressurreição, ícone russo do século XVI, Russian Museum, São Petersburgo, Rússia.


terça-feira, 10 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 21 - II Domingo da Páscoa

O Caminho da Beleza 21
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



II Domingo da Páscoa              15.04.2012
At 4, 32-35              1 Jo 5, 1-6                Jo 20, 19-31


ESCUTAR

“Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas vendiam-nas, levavam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos” (At 4, 34-35)

“Todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5, 4).

“Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20, 30-31).


MEDITAR

“Se você embarcar no trem errado, não adianta correr pelo corredor na direção oposta” (Dietrich Bonhoeffer).

“A Palavra está ao teu alcance, em teu coração e em tua boca para que a pratiques: mais que próxima, está em nós, entre nós e nasce de nós. É a forma suprema do amor de Deus por nós” (Cardeal Lustiger).


ORAR

O evangelista João escreve o necessário e o sumamente eficaz para o nosso crer. João traça um itinerário para a adesão a Alguém em que podemos confiar e estabelecer uma relação profunda. A fé, para João, é um itinerário a ser perseguido e não um objeto a ser apropriado.  Confiar (e não acreditar) é a melhor expressão para definir a fé. Neste itinerário teremos cansaços, dúvidas, incertezas, obscuridades, mas muitas novidades e surpresas que são como raios de luz. O cristão não “tem fé” como qualquer coisa que se compre em lojas ou butiques religiosas porque os cristãos são homens e mulheres que produzem e amadurecem relações pessoais entre si e porque acreditam em Jesus e com Ele também estabelecem relações pessoais. Deus é um segredo único que devemos descobrir de uma maneira única. A fé cristã implica uma relação pessoal com Deus e devemos estar conscientes de que quando oramos “Pai Nosso” este Deus de todos é, ao mesmo tempo, o “Meu Pai”, o Deus de cada um de nós, e a Ele estamos unidos no nosso mais íntimo mistério que só Ele conhece absolutamente. Jesus é incisivo com Tomé: “Não sejas incrédulo, mas crente!”. O evangelista responde a todas as indagações do “que fazer”: “Crer!” (Jo 6, 28-29). Neste itinerário do crer se resumem todas as bem-aventuranças: “Felizes os que creram” (Jo 20, 29). Para o cristão, crer tem tudo a ver com viver e a fé se une com o amor criando a liturgia da vida cotidiana como uma permanente ação de graças com o Pai, pelo Filho, no Espírito. Somos chamados à comunhão fraterna numa vida de filhos e de irmãos, pois o amor aos outros é o prolongamento do amor de Deus a nós e em nós. A fé pascal não é fruto de uma exaltação religiosa barata, mas uma vitória de Jesus Ressuscitado sobre as dúvidas que paralisaram seus discípulos e podem paralisar os que o seguem. O evangelho de hoje reitera que a assembleia litúrgica é a maior manifestação da comunidade cristã, uma vez que é nela que o Cristo vem, fica no meio de nós, oferece-nos a paz e nos dá o Espírito Santo. Tomé, isolado e ausente da comunidade, não recebeu o Espírito Santo e se colocou à margem da única e essencial missão: remir os pecados, perdoar em nome de Deus e reconciliar todos os homens, filhos de Deus e irmãos entre si. A comunidade fraterna nos faz “ver” o Ressuscitado e receber Dele, a cada novo domingo, a paz necessária para continuar a travessia. Como os apóstolos que tiveram as suas vidas reviradas pelo avesso, também nós, pelo ato de crer, tornamo-nos peregrinos e anunciadores do Reino de Deus e da Vida Eterna. O Ressuscitado irrompe na vida de cada um de nós e se torna mais radiante quando somos capazes de reconhecê-Lo em cada irmão e irmã que encontramos ao largo do caminho. Somente a vida em comunhão nos livra do medo da morte, do arrivismo e do oportunismo político e religioso. Somos convidados a nos libertar da obsessão pelas coisas, da propriedade dos objetos e exorcizar do nosso coração o verbo “ter”. A Páscoa gera a fé e a fé gera o amor. E assim vamos descobrindo este Espírito em nós que revela a dimensão única de “ser” na liberdade da doação de si, que nos traz a paz e nos cumula de ternura e de amor.


CONTEMPLAR

A incredulidade de São Tomé, Matthias Stomer, c. 1620, óleo sobre tela, 125 cm x 99 cm, Museu do Prado, Espanha.






segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Caminho da Beleza 20 - Páscoa da Ressurreição

O Caminho da Beleza 20
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Páscoa da Ressurreição                      08.04.2012
At 10, 34.37-43                 Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR

“Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10, 40-41).

“Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3, 1-3).

“Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20, 1).


MEDITAR

“Não é preciso socorrer o próximo para o Cristo, mas pelo Cristo. Que o eu desapareça de tal modo que o Cristo, por intermédio da nossa alma e do nosso corpo, socorra o próximo” (Simone Weil, A gravidade e a graça).

“Outra coisa é sabermos manter esse amor ao Cristo por uma doação completa aos pobres e necessitados. Mesmo que seja pouco o que eles não ousam pedir, nós temos que adivinhar e é essa resposta que Deus pede de nós” (Madre Belém, Testamento Espiritual).


ORAR

            A liturgia deste domingo não apresenta nenhum relato de como foi a ressurreição de Jesus e nem uma cronologia deste evento. O evangelista anuncia o Cristo Morto e Ressuscitado, apela-nos à fé neste anúncio e nos convida a proclamá-lo para todos. O dominicano Timothy Radcliffe escreve que “a história da morte e ressurreição do Cristo não é propriedade absoluta da Igreja, mas tornou-se uma história que oferecemos aos que vão vivê-la da sua maneira e talvez de um modo que não havíamos previsto”. Neste domingo de Páscoa, precisamos perguntar se, no fundo do nosso coração, aproveitamos os quarenta dias da quaresma como o tempo oportuno de assumir o conselho paulino: “Extirpai o fermento velho para serdes massa nova, uma vez que sois ázimos, já que nossa vítima pascal, Cristo, foi imolado”(1 Cor 5, 7). Tantas vezes vivemos, em nossas práticas descomprometidas, a indolência e a passividade de páscoas episódicas e não o êxodo até a terra da vida, da novidade e da luz. A pedra foi retirada do sepulcro como sinal de que a morte fora vencida e Cristo nos abriu totalmente o horizonte do impossível. Satanás foi condenado para sempre a ser o senhor dos medíocres e o príncipe dos resignados. Cervantes colocava nos lábios de Quixote: “A maior loucura é ver o mundo como ele é e não como deveria ser” e Paulo exclama que “a loucura de Deus é mais sábia que os homens” (1 Cor 1, 25). Celebrar a Páscoa não significa explorar a devoção de um sepulcro vazio, mas ler os sinais de que a fé na Ressurreição nasce de uma palavra e do anúncio de que nosso Deus “não é um Deus de mortos, mas de vivos, pois para ele todos vivem”(Lc 20, 38). Celebrar a Páscoa é colocar-se nas veredas do Ressuscitado e se deixar encontrar por Ele que, em cada novo momento, assume um rosto translúcido. Temos que vencer o medo de sair para fora do nosso sepulcro interior, pois o  Cristo nos deixou o sinal de que voltaria para cear conosco: o pano que cobria a sua cabeça estava dobrado ao lado e não amassado junto às faixas que cobriram o seu corpo. Na cultura judaica, quando o senhor deixava o pano dobrado sobre a mesa era o sinal de que ainda voltaria para continuar a refeição. A nossa Páscoa deve ser celebrada no reino da gratuidade e da solidariedade, pois o Ressuscitado nos convida a ser, novamente, principiantes da vida. O Cristo é o Senhor do impossível e se revela no inacreditável: o perdão vence a traição, o abandono, a covardia, a mesquinhez e a esperteza dos cálculos. Deus removeu a pedra que mumificava as nossas esperanças e somos enviados para proclamar que a vida vence a morte em todas as partes em que ela se faz desesperadora: no narcotráfico, nos campos de extermínio, na produção das armas atômicas, mas também nas indigências de nossos hospitais públicos, das nossas escolas e na omissão das nossas igrejas ante a corrupção que condena seus filhos e filhas a uma vida indigna e sub-humana. Somos chamados a ser testemunhas do Ressuscitado e “celebrar a festa não com fermento velho, fermento da maldade e perversidade, mas com ázimos de sinceridade e verdade”(1 Cor 5, 8). Paulo nos conclama a “esperar as coisas celestes” e as realidades celestes aqui na terra são viver com generosidade, com espírito de serviço, numa presença samaritana que dignifique o Cristo que entregou a sua vida por nós. Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, na Argélia, dominicano martirizado em 1996, escreveu: “A Igreja realiza a sua vocação e missão quando está presente nas rupturas que crucificam a humanidade na sua carne e na sua unidade, pois somente nestes lugares que se pode entrever a luz da Ressurreição”. A partir de agora, o mundo é a Galileia em que vivem nossos irmãos e irmãs e devemos anunciar-lhes que a humanidade é possível, a esperança que ainda não é pode ser e que a solidariedade e a compaixão nos salvam, pois Cristo, amaldiçoado pelos poderes civis e religiosos, foi condenado, morto, sepultado e ressuscitou dos mortos. Este é o nosso Credo e esta é a fé que nos abre os caminhos da Vida Eterna.


CONTEMPLAR

Ressurreição (parte do políptico “Paixão-Ressurreição”), Arcabas (Jean-Marie Pirot), óleo sobre tela, ouro fino 23 quilates, 2,22 m x 1,35 m, 2003, Saint-Pierre-de-Chartreuse, França.




domingo, 25 de março de 2012

O Caminho da Beleza 19 - Domingo de Ramos

 O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Domingo de Ramos                   01.04.2012
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Mc 14, 1-15, 47



ESCUTAR

“O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50, 4).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

“Nesse momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: Na verdade, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 38-39).


MEDITAR

“Aonde iremos nós? Que procuramos nós? A felicidade? Mas Deus é a felicidade. A verdade? Mas Deus é a verdade. A existência? Mas Deus é a vida. Tudo o que nosso coração deseja quer atingir e conquistar de maneira absoluta, tudo isto se relaciona e converge para este centro de todas as aspirações: Deus!” (Paulo VI).

“Amar é essencialmente se dar aos outros. Longe de ser uma inclinação instintiva, o amor é uma decisão consciente da vontade de ir aos outros. Para poder se amar de verdade, é preciso se desligar de muitas coisas e, sobretudo, de si e se dar, gratuitamente, até o fim” (João Paulo II).


ORAR

            Temos o costume de nomear este domingo como uma entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e, para tanto, acrescentamos todos os ingredientes que a nossa imaginação possa inventar: mobilização das massas, entusiasmo incontido, adornos faustosos, cantos, gritos e aplausos vibrantes. Aprendemos que a grandeza de Deus só pode ser celebrada com mantos reais, coreografias espetaculosas e cortejos imponentes. No entanto, para Jesus, o triunfo é o da humildade, da modéstia, da mansidão, pois todas as suas conquistas foram obtidas com a força do amor. Jesus, até hoje, não se interessa pelos aplausos e gritarias que beiram a histeria, mas sim pelos corações convictos dos seus seguidores. Neste domingo, o Cristo quer ser reconhecido como um rei na sua debilidade desarmada, na sua aceitação da perseguição e no fato de ter resistido à violência, aos insultos e às torturas brutais. O nome de Jesus que invocamos é um nome que foi desacreditado pelos detentores do poder civil e religioso. Neste domingo, não podemos ficar perplexos e desconcertados diante da realidade da Cruz e embaraçados com uma fé sem profecia que nos impede de conquistar a esperança que faz atingir o mais além de nós mesmos. Somente o olhar da fé permite superar o muro do escândalo e acreditar que podemos ver de outra maneira os acontecimentos da nossa vida. E devemos estar lúcidos de que a única resposta ao excesso do mal e da violência é a superabundância de amor que nos conduz, se preciso, até o dom da própria vida.  Jesus não tinha dinheiro. Não tinha autoridade religiosa oficial, por não ser nem sacerdote e nem escriba. Jesus levava apenas em seu coração o fogo do amor pelos que eram injustiçados e até mortos pela violência dos poderosos. A mensagem de Jesus era direta e sem rodeios: os que desprezamos, excluímos e exploramos são os prediletos de Deus. Celebrar a Semana Santa é uma conversão constante para que os nossos corações sejam capazes de olhar e atender aos que sofrem, identificando-nos, cada vez mais, com eles. Nestes tempos, amordaçamos os gritos de indignação e nos acomodamos a tudo o que é tranquilizador, que não exija nada da inteligência e que seja um refúgio que nos proteja do vazio existencial. Queremos e construímos um tipo de religião que não intranquiliza ninguém, que não tem nenhuma agonia, que perdeu a tensão do seguimento de Jesus, pois não nos chama à responsabilidade alguma, pelo contrário, exonéra-nos dela. No nosso cristianismo atual, escutamos cantos que abafam o grito dos pobres; estamos mergulhados em muita alegria e júbilo que não nos sobra tempo para os que sofrem; conclamamos nossos filhos e filhas a “botar fé” para a sua fartura emocional e não os evangelizamos para que tenham fome e sede de justiça para com todos seus irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai. Neste domingo de ramos, celebramos o Messias da Cruz, desprezado, traído e abandonado. Neste domingo, devemos estar atentos ao sinal de Deus para que sejamos humildes e compassivos, pois é o outro – o estrangeiro, o diferente de nós, o pagão – que faz a sua profissão de fé, não no momento arrebatador do triunfo, mas no escândalo da derrota: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”. Por esta razão, devemos sempre testemunhar a esperança de que todos os humilhados da terra um dia se levantarão do seu túmulo para obter a reparação e a recompensa da violência sofrida em suas vidas: a bem-aventurança no Reino e a vida eterna. Amém!


CONTEMPLAR

A entrada de Cristo em Jerusalém (detalhe), Maestro de Tolentino (obra de artesãos anônimos do século XIV, chefiados por Pietro da Rimini), afresco da Capela da Basílica de San Nicola a Tolentino, Província de Macerata, Marche, Itália.




terça-feira, 20 de março de 2012

O Caminho da Beleza 18 - V Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 18


Leituras para a travessia da vida





A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).



Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).







V Domingo da Quaresma                   25.03.2012

Jr 31, 31-34                                    Hb 5, 7-9                 Jo 12, 20-33



ESCUTAR

“Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’. Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei a maldade, e não mais lembrarei o seu pecado” (Jr 31, 34).

“[Cristo] mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Hb 5, 8).

“E eu, quando for elevado da terra atrairei todos a mim” (Jo 12, 32).



MEDITAR

“Devemos, fortemente, desejar uma paz verdadeira, na qual toda a miséria e injustiça, toda mentira e covardia chegarão ao fim” (Dietrich Bonhoeffer).

“Eu sempre acreditei que o instante da morte é a norma e o fim da vida. Eu penso que para os que vivem, como se faz necessário, este é o momento em que, por uma fração infinitesimal de tempo, a verdade nua e cruz, pura, certa e eterna entra na alma” (Simone Weil).







ORAR

Para os apóstolos Felipe e André, a hora de Jesus chegara. A sua fama se espalhara aos lugares mais distantes e atraia multidões. Para eles, era a hora definitiva do êxito, da popularidade e do triunfo. Felipe era de Betsaida na Galiléia, uma cidade meio pagã e encruzilhada de homens e mulheres de várias crenças. Jesus lhes confirma que, de fato, chegara a hora em que o Filho do homem seria glorificado, entretanto, Jesus dará a esta hora de glorificação um conteúdo muito diverso do que compreendiam Felipe, André e os gregos. Não é hora da notoriedade, ao contrário, é a hora do grão de trigo que deve desaparecer e morrer embaixo da terra. A hora de Jesus é a hora de uma dolorosa semeadura e não de uma colheita triunfal. A fecundidade passa pela morte assim como a manifestação luminosa passa pela ocultação da sepultura. A hora de Jesus é a hora da paixão e Ele enfrenta a hora de sua morte não como um herói, mas como um homem qualquer que tem medo de morrer: “Agora, sinto-me angustiado”. Paulo reafirma isto ao escrever: “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte”. Jesus vai até as últimas consequências da sua entrega, pois sabe que a morte, o mal, a violência e tudo o que é desumano no mundo cedem somente diante da força do amor. Sobre a cruz, Cristo não reivindica outra glória maior do que a glória de amar. Jesus quando foi elevado da terra viu somente João e as poucas mulheres, pois Felipe, André e os outros apóstolos se evadiram e não viram a hora exata em que as trevas se converteram no momento da máxima revelação. O Cristo abandonado, traído, renegado,  elevado será, na sua vez e sua hora, uma força de atração universal e irresistível. Sobre o terreno árido do Calvário, a semente esmagada, moída, triturada e regada com o sangue do Cordeiro elevará o seu talo com uma espiga carregada de grãos. A vida do cristão deve ter a visibilidade da luz pascal: disposto a perder a vida e não a satisfazer as ambições, as vaidades; capaz de recusar os resultados de uma fácil popularidade ao preferir, abertamente, o anonimato e a humildade. O cristão deve estar pronto para a cada nova hora escolher entre o privilégio da fama e a posição incômoda da Cruz.  Um dia ou outro, teremos que viver esta hora do amor que vai além do limite de nós mesmos. A comparação do evangelista é preciosa: “Quando a mulher vai dar à luz está triste, pois chega a sua hora. Porém, quando deu à luz não se lembra da angústia, por causa da alegria de que um homem tenha nascido para o mundo (Jo 16, 21). Todo cristão tem que escolher entre uma vida estéril ou fecunda e ela nunca será sem dores! Somos convidados a vivenciar este mistério de fecundidade em que o semeador se converte em semente: morre, fecunda a terra e ressurge com toda a força da Vida. O Deus de Jesus Cristo quer pessoas que escutem a sua voz no mais fundo dos seus corações e, consequentemente, sejam capazes de amar como Ele pretende que seja o amor: um poder de serviço cada vez mais exigente na entrega, por ser cada vez mais pleno e transbordante. E não devemos jamais esquecer que “todo mundo tem sua vez e sua hora” (Guimarães Rosa).



CONTEMPLAR

Cristo na Glória no Tetramorfo (Primeiro Cartão), Graham Sutherland, 1953, óleo sobre guache em cartão, 201.9 x 110.5 cm, Herbert Art Gallery, Coventry, Reino Unido.



terça-feira, 13 de março de 2012

O Caminho da Beleza 17 - IV Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 17

Leituras para a travessia da vida





A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).




Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).







IV Domingo da Quaresma                  18.03.2012

2 Cr 36, 14-16.19-23                    Ef 2, 4-10                Jo 3, 14-21



ESCUTAR

“Mas eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não houve mais remédio” (2 Cr 36, 16).

“Irmãos, Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos!” (Ef 2, 4-5).

“O julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas” (Jo 3, 19-20).



MEDITAR

“Ó Deus, cedo de manhã, clamo a ti. Auxilie-me a orar e a pensar somente em ti. Sozinho não posso fazê-lo. Em mim há escuridão, mas em ti há luz. Eu estou só, mas tu não me abandonas. Eu estou inquieto, mas em ti há paz. Em mim há amargura, mas em ti há paciência. Teus caminhos são incompreensíveis, mas tu conheces o caminho para mim” (Dietrich Bonhoeffer, Oração de Natal, prisão de Tegel, 1943).

“Só existem dois instantes de nudez e de pureza perfeitas na vida humana: o nascimento e a morte. Só se pode adorar a Deus sob a forma humana, sem macular a divindade, como recém-nascido e como agonizante” (Simone Weil, A gravidade e a graça).



ORAR

Nicodemos é um judeu notável que vai de noite ao encontro de Jesus por medo de se comprometer e sofrer pressões. Nicodemos faz o caminho da noite à luz e sai das suas próprias trevas quando Jesus declara que ele precisava nascer de novo, ainda que fosse avançado em idade. Na trajetória cristã se dá a mesma coisa: há um momento em que devemos nos calar para que, ao ouvir a Palavra, paremos com as discussões, com as perguntas petulantes e nos aproximemos do que devemos acreditar e que nos conduz a uma decisão comprometedora. O ponto alto da nossa fé está no versículo dezesseis deste evangelho joanino: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho Único!”. Tantas vezes quando falamos de crer nos vêm à mente uma lista de dogmas aos quais devemos aderir, mas o cristão de fato acredita, sobretudo, de que o amor de Deus foi manifestado no dom do Filho. Quem acredita tem fé, principalmente, no amor: Deus ama o mundo, ama todos os homens e mulheres e ama cada um de nós. E este amor divino manifestado por Cristo é testemunhado por Ele na Cruz. A cruz de Jesus fala de um amor derrotado e, ao mesmo tempo, vitorioso; de um amor humilhado, mas circundado de glória; de um amor traído, mas fiel. Não podemos esquecer que foi um justo a quem crucificaram. A exaltação do Cristo se dá num solo infame e, apesar disto, é a manifestação de um único poder, o do amor. Este dom carrega sempre em seu bojo uma crise: pode ser aceito ou rejeitado. O julgamento acontece no aqui e agora da terra e somos nós que nos julgamos e nos colocamos numa situação de salvação ou de condenação diante da decisão que assumimos frente ao amor manifestado por Jesus. Os homens odeiam a luz e preferem as trevas, mas Deus, na sua liberdade de amar, faz despontar a salvação de onde menos se espera. Sempre existe alguém que chega de longe e que reconstrói o que foi profanado pelos “infiéis” da própria casa. Sempre um pagão pode ser eleito por Deus para ser sinal e instrumento de seu amor que não falha. Os homens constroem por suas próprias mãos as ruínas, mas são incapazes de reconstruir o que destruíram. A salvação é um dom gratuito e exclusivo de Deus e cabe a nós distribuir ao menos alguma migalha de bondade tirada do tesouro inesgotável deste Deus “rico em misericórdia”. Devemos proclamar, como cristãos, que sobre o pecado e o mal do mundo resplandece sempre a luz da misericórdia de Deus. É da luz que nasce a nova humanidade que ama a luz e age conforme a verdade. Celebrar a Páscoa é celebrar a esperança na misericórdia divina: “Afastai de vós toda amargura, paixão, cólera, gritos, insultos e qualquer tipo de maldade. Sede amáveis e compassivos uns para com os outros. Perdoai-vos, como Deus vos perdoou em atenção a Cristo” (Ef 4, 31-32). Como Igreja devemos testemunhar que Jesus, o Cristo, não é apenas um Messias reformador das instituições religiosas, mas o doador da vida e da liberdade que acredita em todas as possibilidades humanas e é solidário com elas. Jesus espera que sejamos capazes de sujar de Vida todos os olhos claros de Morte.



CONTEMPLAR

A Sombra da Crucifixão, Daniel Bonnell, s.d., óleo crayon, 11” x 14”, Georgia, Estados Unidos.









segunda-feira, 5 de março de 2012

O Caminho da Beleza 16 - III Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 16
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



III Domingo da Quaresma                 11.03.2012
Ex 20, 1-17              1 Cor 1, 22-25                    Jo 2, 13-25


ESCUTAR

“Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim” (Ex 20, 2-3).

“Irmãos, os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos!” (1 Cor 1, 22-23).

“Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2, 16).


MEDITAR

“Dinheiro é sujo!” (Dietrich Bonhoeffer).

“Cada um tem uma vocação de amor particular. O amor não é uniforme, cada um o encarna à sua maneira, nas condições determinadas da sua vida pessoal. A vida não possui um sentido único, geral e válido para todo mundo. Não existe receita. O amor é sempre uma aposta pessoal” (Soeur Emmanuelle).


ORAR

Somos chamados a purificar a imagem de Deus pelo confronto da sua Palavra: não basta crer, é necessário se dar conta no que se crê e em quem se acredita. Os fanatismos, as intolerâncias, as superstições mais estranhas e as manipulações religiosas nascem da incapacidade para permitir que a Palavra coloque em crise a nossa ideia de Deus que sempre acaba se convertendo num ídolo e num fetiche. Temos nos servido de Deus e pronunciamos o seu nome para práticas que nada tem a ver com Ele e sua misericórdia. Dietrich Bonhoeffer escrevia na prisão: “Se quisermos ser cristãos temos que partilhar da grandeza de coração do Cristo ao agir com responsabilidade e em liberdade no momento do perigo e demonstrar a compaixão autêntica que brota não do medo, mas do amor libertador e redentor do Cristo por todo aquele que sofre. A espera e a observância passiva não são comportamentos cristãos. O cristão é chamado para a compaixão e para a ação, não pelos próprios sofrimentos, mas pelo sofrimento dos irmãos, pelos quais Cristo sofreu”. Temos reduzido as palavras do Senhor, que são palavras de revelação, a um código estrito e estreito. “Deus pronunciou todas estas palavras” e não dez mandamentos como se fossem imposições arbitrárias da parte de um soberano inflexível. Estas palavras de Deus significam o ponto de um não retorno e nelas só existe uma proibição fundamental: não voltar atrás, não voltar ao Egito, não voltar à casa da escravidão. Elas nos revelam um Deus libertador e não o deus da lei: “Que tua compaixão me alcance e viverei porque tua vontade é minha delícia” (Sl 119, 77). Hoje, o deus do poder é o deus das estruturas colossais, das organizações espetaculares, da propaganda, dos grandes shows, das grandes obras e dos imponentes aparatos burocráticos e organizativos. Hoje, este deus é, sobretudo, o deus de igrejas mais concebidas como um banco internacional com suas filiais do que uma Igreja-serviço aos outros. O Deus de Jesus Cristo não é um deus de sinais prodigiosos, mas o do amor fiel. E O encontramos onde jamais o imaginaríamos: sobre a Cruz. A expulsão dos mercadores do Templo purifica a imagem de um Deus cujo culto é feito de mercado, negócios, lucros, subornos e fraudes. O Deus de Jesus não é um Deus comerciante, mas um Deus gratuito que não vende os seus favores. No templo, o dinheiro não pode ocupar um lugar central e de glória porque o templo é o lugar em que se deve celebrar unicamente uma liturgia de gratuidade e de amor. Ainda hoje, pedimos sinais para acreditar e os únicos sinais dignos de crença continuam sendo os mesmos de Jesus: nossa atenção aos outros, nosso espírito de serviço e de partilha, nossos cuidados em atender a miséria e o sofrimento que encontramos à nossa volta. Somos chamados, como seguidores de Jesus, a nos convertermos em cristãos ressuscitados, felizes por viver e por arriscar as nossas vidas pelos outros.


CONTEMPLAR

Expulsão dos vendedores do Templo, Arcabas (Jean-Marie Pirot), 1986, 65 x 110 cm, acetato de polivinil sobre tela de linho, França.