segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Caminho da Beleza 14 - I Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 14
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



I Domingo da Quaresma                     26.02 2012
Gn 9, 8-15               1 Pd 3, 18-22                      Mc 1,12-15



ESCUTAR

“Este é o sinal da aliança que coloco entre mim e vós, e todos os seres vivos que estão convosco, por todas as gerações futuras: ponho meu arco nas nuvens como sinal da aliança entre mim e a terra” (Gn 9, 12-13).

“Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito” (1 Pd 3, 18).

“O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias e aí foi tentado por satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,12).


MEDITAR

“Se sou eu quem determina onde Deus será encontrado, então irei sempre encontrar um Deus que corresponde a mim de algum modo, que me favorece, que se liga a minha própria natureza. Mas, se Deus determina onde ele será encontrado, então ele estará num lugar que não é agradável de imediato a minha natureza e que não é de todo conveniente para mim. Esse lugar é a cruz de Cristo” (Dietrich Bonhoeffer).

“Não é muito tarde. Tempo do quê? De vos converter; tempo de se tornar santos. É tempo de amar. Amar é um dever, uma tarefa, uma missão. Custa amar. É a mais heroica das missões. Custa amar: custa o preço de uma vida” (Cardeal Lustiger).


ORAR

Nesta quaresma, o deserto nos coloca diante de dois desafios: o da purificação e o da luta. O deserto é o lugar privilegiado do encontro com Deus. O verdadeiro deserto é a alma, no vazio que nos atemoriza, na depressão, no tédio, na ansiedade, no medo do futuro; em tudo isso o deserto pode se tornar o solo de acolhida da misericórdia de Deus. O deserto/quaresma é a amarga solidão que pode se tornar tão doce. É a voz misteriosa em nós e o murmúrio feito de pausas e suspiros que, num apelo ao Absoluto, aceita que o vento varra a areia das nossas inquietudes. No deserto podemos nos converter em paixão de Deus. Cristo é o nosso deserto, pois Nele superamos a prova das seduções tentadoras do poder, do status e da ganância. Para os árabes, o deserto é o jardim de Alá, pois dele o Senhor dos Fiéis tirou todo animal e todo ser humano supérfluo para que existisse um lugar onde Ele pudesse passear em paz. No deserto podemos retomar o diálogo interrompido no jardim do Éden, pois o Senhor, depois da partida de Adão não se resignou a ser apenas o Deus das flores, riachos e estrelas. É no deserto que Ele volta a ser o Deus do homem e da mulher. Os padres do deserto recordam que não existe vida cristã sem luta, empenho assíduo e esforço pessoal e que a conversão não é indolor, pois implica desprendimento, dilaceração e privação. O caminho do cristão não é uma impune excursão turística no território religioso. O caminho até a Páscoa passa pelo deserto e esta travessia não é um exercício piedoso, mas incômodo e, muitas vezes, agonizante. O tempo da quaresma é o tempo de deixarmos de olhar para os numerosos ídolos que nos seduzem e de voltarmos a face para o único Senhor. Jesus foi tentado e colocado, como nós, diante da sedutora possibilidade de escapar, pelo pecado, da comunhão com Deus e da solidariedade com os homens. Jesus será ainda submetido a uma última tentação: a de não ir até as últimas consequências no cumprimento do seu destino. Na cruz, esta tentação será gritada pela multidão: “Aquele que derruba o templo e o reconstrói em três dias, que se salve, descendo da cruz” (Mc 15, 30). Mas Ele se entrega livremente a uma morte violenta e injusta. Na solidão da nossa travessia, toda hora é hora de tentação e, como diz Guimarães Rosa: “O demônio esbarra manso mansinho, se fazendo de apeado, tanto risonho, e, o senhor pára próximo – aí então ele desanda em pulos e prazeres de dança, falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas – boca alargada. Porque ele é – é doido sem cura”. Mas, a prática do amor fraterno, a reconciliação como pão da quaresma, mantém a luminosidade de todas as cores do Arco do Senhor e nos transforma em anunciadores da Boa Nova que resgata a unidade da Criação e o encantamento do Mundo e, como o Cristo, nos faz vencer o último inimigo: a Morte!


CONTEMPLAR

Jesus assistido pelos anjos, James Tissot, c. 1886-1894, aquarela sobre grafite em papel cinza, 17 x 24,8 cm, Brooklyn Museum, New York, Estados Unidos.





terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Caminho da Beleza 13 - VII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 13
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).




VII Domingo do Tempo Comum                  19.02.2012
Is 43, 18-19.21-22.24.25                       2 Cor 1, 18-22                    Mc 2, 1-12



ESCUTAR

“Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 18-19).

“Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo [...], nunca foi ‘sim e não’, mas somente ‘sim’. Com efeito, é nele que todas as promessas de Deus têm o seu ‘sim’ garantido. Por isso também, é por ele que dizemos ‘amém’ a Deus, para a sua glória” (2 Cor 1, 19-20).

“Pois bem, para que saibais que o Filho do homem tem, na terra, poder de perdoar pecados – disse ele ao paralítico -, eu te ordeno: levanta-te, pega tua cama e vai para tua casa!” (Mc 2, 10-11).


MEDITAR

“Não, a vida não é um sonho nem um plano do homem; ela é um consentimento. Deus nos conduz pelos acontecimentos a dizer sim ou não. O absurdo absoluto para um homem é o de se encontrar vivendo sem razão de viver” (L’Abbé Pierre).

“Só há uma igualdade; aquela que é a suprema nobreza de cada um e que se abre a todos: a de escolher o Amor” (Maurice Zundel).


ORAR

O profeta revela que o próprio Deus se coloca como paradigma do esquecimento: “Já não me lembrarei dos teus pecados”, pois o Senhor oferece uma possibilidade nova e inaudita. “O que foi” se apaga diante “do que pode ser”. Mais do que ficar ruminando o pecado é oportuno recordar o perdão obtido, pois o perdão, mais do que pagar as dívidas passadas, abre uma conta de confiança hoje e um crédito de esperança para o futuro. No evangelho de Marcos surge o oponente mais contumaz de qualquer perdão e novidade: os escribas. A reação dos escribas é típica dos homens religiosos: não escutam jamais, não vivem na espera de uma palavra possível vinda de Deus porque acreditam possuí-la inteiramente. Até hoje, os escribas continuam mantendo a sua face clerical. Nas suas casas seguras e ordenadas não entram o imprevisto nem o inesperado, uma vez que eles nada esperam e apenas administram os bens que se acumulam, passo a passo. O escriba é o oposto do homem do desejo: ele planeja a esperança, corta as asas da fantasia, abole o risco, excomunga a dúvida e enjaula o Espírito da Liberdade. O escriba é o homem de um único e sólido princípio: o que reza que a verdade está sempre do seu lado. A contradição maior do escriba é a de que ele tem como ofício preparar os outros para acolher a novidade dos acontecimentos, mas quando esta chega ele está sentado e ruminando táticas para combatê-la: “Ora, alguns mestres da lei, que estavam ali sentados, refletiam em seus corações: ‘Como este homem pode falar assim? Ele está blasfemando: ninguém pode perdoar os pecados, a não ser Deus’”. Jesus revela que é o perdão que nos coloca em pé para nos abrirmos ao futuro com confiança e nova alegria. Não podemos seguir Jesus vivendo como “paralíticos”: imersos no imobilismo, na inercia e na passividade. Temos que estar atentos para não cairmos no ardil em que caíram os escribas ao não aceitarem que Jesus oferecesse o perdão de Deus. O Deus de Jesus Cristo é realmente um amor insondável, incompreensível, gratuito e incondicional. Todos nós temos experimentado que, num momento ou noutro, fazemos o que não deveríamos fazer; que nossas decisões nem sempre são honestas e que, outras vezes, agimos por motivos obscuros e razões inconfessadas. O apóstolo Paulo já prevenia: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm 7, 19). Viver reconciliado consigo mesmo é uma das tarefas mais difíceis da vida. E viver reconciliado é saber nos olhar com a misericórdia e a generosidade com as quais Deus nos olha e nos acolhe. Jesus nos revela o rosto de Deus como um pai “cuja ira dura apenas um instante, mas o seu amor é para sempre” (Sl 30, 6). O perdão dos pecados é a ruptura da nossa paralisia espiritual e um apelo para que as nossas casas sejam calorosas e solidárias, plenas de alegria e esperança, de generosidade e misericórdia. Sempre prontas para acolher os que tropeçam no meio da travessia. Que o Senhor nos cure das nossas paralisias espirituais para que, na eternidade, o nosso amor não seja uma cama vazia numa varanda do céu e sejamos, desta maneira, condenados “às chamas que torturam” (Lc 16,24).


CONTEMPLAR

O paralítico baixado do telhado, Heinrich Füllmaurer, c. 1530-1570, painel do altar de Mömpelgard, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Caminho da Beleza 12 - VI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 12
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



VI Domingo do Tempo Comum                   12.02.2012
Lv 13, 1-2, 44-46               1 Cor 10, 31-11, 1               Mc 1, 40-45



ESCUTAR

“Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (Lv 13, 46).

“Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10, 31).

“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!’. No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado” (Mc 1, 40-42).


MEDITAR

“O que importa é a nossa resposta ao que devemos ser, ao apelo interior à perfeição. Não se trata de qualquer perfeição, de uma perfeição no plano do conhecimento, do poder, das aparências, da realização, mas nesta perfeição que nos torna verdadeiramente homens, verdadeiramente cristãos” (Paulo VI).

“Sorrir para alguém que está triste; visitar, nem que seja por alguns minutos, uma pessoa isolada; cobrir com nosso guarda-chuva alguém que caminha sob a chuva; ler alguma coisa para um cego: tudo isto pode não passar de pequenas atenções, mas bastam para dar aos pobres uma expressão concreta do nosso amor de Deus” (Madre Teresa de Calcutá).


ORAR

Jó define a lepra como a “primogênita da morte” (Jó 18, 13). De fato, os leprosos eram considerados como mortos e a sua cura eventual suscitaria o mesmo efeito de uma ressurreição da morte. O corpo do leproso é intocável não só por questão de higiene, mas pela simples razão de que ele é um cadáver e tocá-lo desencadearia uma impureza que impediria a participação nos atos religiosos da comunidade. Neste evangelho, o leproso desafia todas as normas, transgride a lei, aproximando-se de Jesus, mas coloca-se de joelhos a sua frente. Jesus é movido pela compaixão até as entranhas e transborda de ternura. Jesus toca o leproso e reafirma a transgressão iniciada por ele. Ele quer limpar o mundo dos estigmas e das exclusões que atentam contra a compaixão do seu Pai. E paga caro por esta atitude: não pode entrar mais abertamente nas cidades, é forçado a ficar nos lugares desertos. Jesus viverá a situação que antes era a do leproso para cumprir a profecia: “E nós, nós o considerávamos como um leproso, ferido de Deus e afligido” (Is 53, 4b). Jesus se revela como a própria presença de Deus que destrói toda a falsa barreira legalista. É Aquele que rompe as fronteiras, derruba os muros seculares da separação, ultrapassa os preconceitos e aniquila as discriminações sociais e religiosas. A dor é o campo dramático em que se arrisca a fé: ou ela se cumpre ou se nega. Jesus está sempre presente nesta linha de fronteira da existência humana, nesta situação-limite em que a compaixão deve falar mais alto. Ele não conhece a hesitação dos puritanos nem o egoísmo dos bem situados e bem pensantes. Ele nos faz saber que onde está a dor devem estar presentes, sobretudo, os que O seguem. Nós, os cristãos, tantas vezes criamos “os leprosos”: os que não se comportam como as nossas idéias, os que nos incomodam e se tornam inoportunos. Quantos “leprosos” excluídos, escorraçados, ignorados, condenados ao isolamento no cenário teatral das nossas famílias, religiões e igrejas. A celebração litúrgica deve ser interrompida quando existir discriminações e exclusões nas nossas comunidades, caso contrário continuaremos a festa em honra ao Cristo enquanto Ele, mais uma vez, está condenado a morrer extra muros. Como o Jesus Leproso, devemos encarnar o Servo Sofredor e irradiarmos o Espírito de gratuidade e compaixão para sermos coparticipantes da Paixão e Ressurreição de Jesus “completando na nossa carne o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).


CONTEMPLAR

Cura do leproso, mosaico, século XIII, Catedral de Monreale, Palermo, Sicília, Itália.




segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Caminho da Beleza 11 - V Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 11
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



V Domingo do Tempo Comum                     05.02.2012
Jó 7, 1-4.6-7                       1 Cor 9, 16-19.22-23                    Mc 1, 29-39


ESCUTAR

“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Meus dias correm mais rápido que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” (Jó 7, 1. 6-7).

“Pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o evangelho. Assim, livre em relação a todos, eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Com os fracos, eu me fiz fraco, para ganhar os fracos. Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele” (1 Cor 9, 16.19-23).

“De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto” (Mc 1, 35).


MEDITAR

“O Senhor ama a dinâmica constante do coração humano e se esconde para ser encontrado. Seu jogo é o do amor. Deus, que não podemos jamais ver totalmente, plenamente, rapidamente se revela a nós, em parte, para ser buscado. E Ele se esconde para que nós O procuremos com mais desejo: é nesta dinâmica que consiste a nossa vida espiritual” (Cardeal Martini).

“Compaixão, amor, ternura, fidelidade, compromisso, bondade, clemência, graça e piedade: eis a noção bíblica de misericórdia” (Cardeal Lustiger).


ORAR

Jó tem a coragem de fazer uma pergunta escandalosa: “Viver é uma vida? Pode-se chamar vida se depois devemos morrer?”. O Senhor responde com um sim a este dramático protesto de Jó. Ele é convidado, como nós, a aceitar e amar um Deus incompreensível que vai além das explicações possíveis. O teólogo Maurice Zundel enfatiza: “Ao olhar de Deus, a vida do homem vale tanto quanto a Sua própria vida”. A imagem da vida que corre rápida como a lançadeira do tear traz um detalhe sutil: a palavra tikva, em hebraico, significa fio, mas também quer dizer esperança. A vida cessa quando se rompe o fio e se interrompe quando desaparece a esperança. Jó se agarra neste fio/esperança e suplica: “Lembra-te de que a minha vida é apenas um sopro”. Jesus testemunha o que deve ser a vida do discipulado: uma vida que encontra sua própria força na oração e no diálogo com Deus e que se desdobra numa vida-para-os-outros. Uma vida que se encarrega dos sofrimentos do irmão, uma compaixão diante das enfermidades físicas e espirituais. Uma vida feita para aliviar a dor dos outros. A filósofa judia Simone Weil escrevia: “A plenitude do amor ao próximo consiste, simplesmente, em ser capaz de perguntar-lhe: ‘Qual é o teu tormento?’” (Espera de Deus). O cristão deve ter um coração que vê e escuta para assumir as necessidades dos outros no mais profundo do seu ser e fazê-las suas. Madre Belém, no seu testamento espiritual, relembrava: “Outra coisa é sabermos manter esse amor ao Cristo por uma doação completa aos pobres e necessitados. Mesmo que seja pouco o que eles não ousam pedir, nós temos que adivinhar e é essa resposta que Deus pede de nós”. O evangelho mostra que Jesus também sabe dizer não. E diz não aos que exigem Dele cada vez mais e só para si próprios. Jesus se ausenta da multidão entusiasmada, mas refratária a qualquer compromisso. Jesus busca a solidão num lugar deserto abandonando os insaciáveis do espetáculo para se afastar de uma popularidade fácil, dos ritos de banalidade e das regras do conformismo. Onde Jesus está cresce a vida no interesse pelos que sofrem e na paixão pela libertação de todo o mal. Por esta razão, encontramos em sua volta a miséria da humanidade: os possuídos, os enfermos, os paralíticos, os leprosos, os cegos e os surdos a quem falta a luz da vida. Jesus desvela que o amor cristão nasce da descoberta de que Deus ama tão apaixonadamente nossa vida que foi capaz de sofrer nossa morte e nos abrir as portas de uma vida eterna em que partilharemos sempre o seu amor. Meditemos as palavras derradeiras de Madre Belém: “Nós nascemos para nos perder em Deus e não para nos achar. A maior certeza que nós temos ao morrer é a certeza do amor de Deus por nós. Deus nos ama tanto que se a gente soubesse quem era Deus a gente não fazia outra coisa senão amá-Lo. ‘Apaixonite’ aguda, agudíssima, nos perder no amor de Deus”.


CONTEMPLAR

Cristo no deserto, Ivan Nikolayevich Kramskoy, 1872, óleo sobre tela 180 x 210 cm, Galeria Tretyakov, Moscou, Rússia.




terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Caminho da Beleza 10 - IV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 10
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



IV Domingo do Tempo Comum                   29.01.2012
Dt 18, 15-20                       1 Cor 7, 342-35                 Mc 1, 21-28


ESCUTAR

“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar” (Dt 18, 15).

“Digo isto para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações” (1 Cor 7, 35).

“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei” (Mc 1, 22).


MEDITAR

“Por que Jesus Cristo pode estar no interior de cada um de nós? Porque ele é vazio, vazio, vazio, radicalmente, deste eu possessivo do qual estamos todos doentes” (Maurice Zundel).

“O que dará o homem que tenha o valor da sua vida? Nada, se não for sua própria vida. A única coisa que poderíamos dar que tenha o valor de nossa vida é a nossa vida. E ter fé é acreditar que isto não é um suicídio” (Cardeal Lustiger).


ORAR

O profeta é escolhido por Deus para ser um homem da palavra. Ele não é alguém que escolhe uma carreira ou profissão. Ele é responsável por uma mensagem que não é sua, mas também não é um simples repetidor. O profeta é um provocador de crises e nos obriga a tomar posição: “Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. É um homem condenado à fidelidade à Palavra de Deus. O profeta, em todos os tempos, é dotado de olhos abertos ao invés do oportunismo; de liberdade ao invés do servilismo e conformismo; de coragem ao invés do medo; de inteligência ao invés da superficialidade; de paixão ao invés da indiferença e de humildade ao invés da presunção e do protagonismo. O profeta só sabe a autenticidade da sua vocação quando incomoda, cria opositores e recebe injúrias mais do que privilégios. O médico Albert Schweitzer afirmava: “Se não dizeis coisas que desagradam alguém não podereis afirmar que dissestes a verdade”. Jesus testemunha de que não é a palavra que deriva da autoridade, mas a autoridade que deriva da palavra. Uma palavra que não incomoda e nem provoca reações é uma palavra emburrecida e, portanto, a verdadeira derrota da palavra. A palavra de Deus não pode ser pretexto para se falar de outra coisa. As igrejas abafam a Palavra quando valorizam os casuísmos, quando se imiscuem nas disputas de poder que nada têm a ver com a mensagem original do Evangelho. Não se pode falar de outra coisa quando se fala de Deus. Jesus testemunha que os inimigos do homem são inimigos de Deus e que tudo o que ameaça a dignidade humana constitui uma blasfêmia contra a glória de Deus. O homem, para Jesus, é assunto de Deus. Jesus ensina com autoridade, quer que sejamos homens livres e, por esta razão, homens de Deus, por isso expulsa os demônios interiores que nos escravizam ainda que seja no dia sagrado do sábado. Os demônios são o caos existente na fragmentação espiritual das pessoas e da sua autodestruição contínua: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Viestes para nos destruir?” Jesus tem a liberdade de infringir a regra sagrada quando se trata de libertar as pessoas que sofrem. A comunidade eclesial deve cantar como a Esposa do Cântico dos cânticos: “Ouvi, pois chega meu amado saltando sobre os montes, pulando pelas colinas!” (Ct 2, 8) e rezar com toda a Igreja: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22, 20). Vem nos arrebatar para além de nós mesmos, na casa paterna onde, no banquete nupcial do Cordeiro, comeremos e beberemos Contigo.


CONTEMPLAR

Jesus e o demônio, Bhanu Dudhat, 2008, acrílico sobre tela, 30” x 24”, Gujarat, Índia.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Caminho da Beleza 09 - III Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 09
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



III Domingo do Tempo Comum            22.o1.2012
Jn 3,1-5.10             1 Cor 7, 29-31                    Mc 1, 14-20



ESCUTAR

“Vendo Deus as suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez” (Jn 3, 10).

“Eu digo, irmãos: o tempo está abreviado” (1 Cor 7, 29-31).

“O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14-20).


MEDITAR

“Somos chamados a encontrar Deus no mundo, nas coisas, nos outros, na história. Contudo isto não será possível se não partimos da situação imediata que é a nossa” (Cardeal Martini).

“A Igreja não vive de si mesma, mas do Evangelho, dele extraindo continuamente a orientação para o seu caminho. Cada cristão deve anotar e aplicar a si mesmo este princípio: só aquele que se dedica antes de mais nada à escuta da Palavra pode vir a anunciá-la. Com efeito, ninguém deve ensinar a sua própria sabedoria, mas a sabedoria de Deus que, muitas vezes se apresenta ao olhos do mundo inteiro como loucura” (Bento XVI).


ORAR

As três afirmações das leituras deste domingo são uma sucessão inquietante de advertências: “Ainda quarenta dias”; “O tempo está abreviado”; “O tempo já se cumpriu”. Como cristãos devemos acreditar que o desenlace não é um hecatombe, mas uma transformação. Jesus num breve pronunciamento reitera que se cumpriu o prazo, o Reino de Deus está próximo e que é necessário converter-se e crer na Boa Nova. As duas primeiras afirmações constituem uma revelação a partir de Deus e a última implica uma decisão por parte do homem. Uma decisão expressa por duas exigências: conversão e fé. Os habitantes de Nínive nem esperaram o vencimento fatídico dos quarenta dias, pois tanto a fé como a conversão não obedecem a um horário pré-estabelecido, pois são uma resposta imediata. A palavra de Deus não se desmente a si mesma. A antiga Nínive foi destruída pela conversão e fé dos seus habitantes e uma nova Nínive se deslumbrava. Sucedeu o imprevisível: a força da palavra de Deus proclamada por um só homem, Jonas, que além de duvidar do milagre não fez o menor esforço para crer que para Deus nada era impossível. Os habitantes de Nínive vestiram-se de sacos e Deus depôs a vestimenta da cólera para revestir-se do manto da misericórdia. O profeta Jonas, medíocre e mesquinho, como tantos de nós, cumpriu mecanicamente a sua tarefa sem se deixar enternecer e dilatar o seu coração. Jonas apenas sentenciou como tantos padres e médicos: “Aqui só um milagre!”. E dizem isto porque não acreditam que tudo é possível. Melhor seria que tivéssemos suficiente fé nem tanto para fazer o milagre, mas para ao menos crer nele como possível. Jonas, que foi enviado para abrir os olhos dos ninivitas, permaneceu com a trava nos seus. O tempo breve é um convite para voltarmos os corações para o eterno com um profundo desprendimento interior: os que têm, os que choram e os que estão alegres vivam como se não tivessem, não chorassem e nem fossem alegres. Estamos no limiar do mundo novo anunciado pelo profeta: “Eis que vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17) e por isso somos convidados a levantar os olhos para além do nosso limite cotidiano e olhar para o horizonte de Deus neste mundo novo em via de nascer. Devemos ter um único horizonte, o do Reino: “Portanto, quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10, 31).


CONTEMPLAR

Chamando discípulos, He Qi, 1999, Roseville, Minnesota, Estados-Unidos.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Caminho da Beleza 08 - II Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 08
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



II Domingo do Tempo Comum                     15.01.2012
1 Sm 3, 3b-10.19               1 Cor 6, 13-15.17-20                    Jo 1, 35-42



ESCUTAR

“Fala, que teu servo escuta!” (1 Sm 3, 10).

“Ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus?” (1 Cor, 19).

“Então André conduziu Simão a Jesus” (Jo 1, 42).


MEDITAR

“O Cristo nos faz uma única exigência: jamais limitar nada” (Maurice Zundel).

“Não é possível atingir as verdades do espírito, aquelas que dizem respeito ao bem e ao mal, às grandes metas e perspectivas de vida, à relação com Deus, sem que daí advenham reflexos profundos para a condução da própria vida” (Bento XVI).


ORAR

A primeira leitura nos faz saber que O Senhor não tem uma voz reconhecível tanto que Samuel a confunde com a do sacerdote Eli. O Senhor não fala a língua dos textos sagrados e nem se obriga a seguir as rubricas de um missal. O teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer diz que Ele fala sempre o dialeto do povo. Deus permanece sempre o inesperado. A sua voz é, habitualmente, discreta e contida: “O menino Samuel oficiava com Eli diante do Senhor. A palavra do Senhor naquele tempo era rara e as visões não eram abundantes” (1 Sm 3, 1). O Evangelho revela que Jesus prefere estar fora do cenário religioso e passar por uma vereda qualquer: “João estava com dois de seus discípulos. Vendo Jesus passar, diz: - Aí está o cordeiro de Deus”. Devemos sair do útero protetor da passividade, do costume, dos condicionamentos sociais e religiosos para afrontar o risco de uma fé consciente e de um consentimento livre à iniciativa divina. Devemos ser capazes de uma experiência vital, sem medo algum de nos entregarmos, pois não nos entregamos a uma ideia ou a um código moral, mas a Alguém: “nesse dia, permaneceram com Ele”. Jesus, a cada pergunta nossa, não responderá jamais com programas, planos pastorais, esquemas detalhados e nem normas pré-estabelecidas. Jesus nos responde sempre com dois verbos: “Vinde ver!”: um convite e uma promessa. Jesus não aprisiona as pessoas, mas as desaloja e as coloca a caminho, pois “ficar com Ele” significa fazer-se itinerante por Ele, com Ele e Nele. A nossa fé cristã não se transmite como um depósito de conceitos, mas por meio de uma palavra viva que acende no outro um desejo ou uma nostalgia. As palavras do anúncio não são as aprendidas nos textos, mas as que brotam de uma experiência perturbadora: “Encontramos o Messias (que quer dizer: Cristo)”. O encontro com o Cristo não é o de uma doutrina, nem de uma lista de coisas que temos de acreditar, mas uma descoberta que transforma as nossas vidas, liberta as nossas mentes, ilumina nossos espíritos, conduz as nossas ações e nos devolve a coragem de ser e existir apesar de tudo e de todos. Não nos iludamos, somente quem O acompanha, verá. O poema de A. Camus nos aponta para o verdadeiro encontro com o Cristo: “Não caminhe diante de mim, que não poderei te seguir. Não caminhe detrás de mim, que não poderei te conduzir. Caminhe exatamente junto a mim para, simplesmente, ser meu amigo”. O Evangelho acentua que, paradoxalmente, Simão não é chamado por Jesus, mas conduzido a ele pelo seu irmão André. É o amor fraterno que nos conduz ao Cristo, pois “aquele que não ama não conhece a Deus” (1 Jo 4, 8). E Simão é também chamado para ser-para-os-outros. Paulo reafirma que aquele que escutou a chamada do Senhor “não se pertence mais”, pois se torna com Ele um só Espírito. Desde então, só nos cabe viver por amor, com amor e no amor a qualquer preço.


CONTEMPLAR

Cabeça de Cristo, Rembrandt Harmenszoon van Rijn, c. 1655, óleo sobre painel de carvalho, 25 x 21.7 cm, Gemäldegalarie, Staatliche Museen zu Berlin, Berlim, Alemanha.