segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Caminho da Beleza 02 - II Domingo do Advento

O Caminho da Beleza 02
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Segundo Domingo de Advento                     04.12.2011
Is 40, 1-5.9-11                    2 Pd 3, 8-14                                   Mc 1, 1-8



ESCUTAR

“‘Consolai o meu povo, consolai-o’ – diz o vosso Deus... Grita uma voz: ‘Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus’” (Is 40, 1.3).

“O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns, achando que demora. Ele está usando de paciência para convosco, pois não deseja que alguém se perca” (2 Pd 3, 9).

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas’” (Mc 1, 3).


MEDITAR

“Tomar consciência dos nossos medos nos permite superá-los e nos abrir a um mundo de possibilidades. Ao cessar de duvidar de nós mesmos encontramos ao mesmo tempo a coragem de assumir nossos erros” (François Gervais).

“Pelo amor de Deus, eu vos suplico: não tenhais medo de Deus, pois Ele não vos deseja nenhum mal. Ao contrário, amai-O com todas as vossas forças, porque Ele vos ama infinitamente” (Padre Pio).


ORAR

João, o Batista não é certamente um tipo fascinante para angariar simpatias e popularidade, pois se vestia com uma pele de carneiro, comendo gafanhotos e mel do campo. Nos dias de hoje, com certeza, não seria o porta-voz de nenhum personagem importante, nem relações públicas de uma multinacional e muito menos promotor vocacional de alguma ordem religiosa. Além de tudo, criaria situações incômodas nos ambientes eclesiásticos. João foi o escolhido para pregar a conversão e o perdão e elegeu o deserto para a sua missão. João não escolheu nem os templos e nem as praças porque é no deserto que a palavra provoca o silêncio e não os aplausos. É pelo deserto que passa o caminho do Senhor e nele o profeta semeia inquietudes, questionamentos; acende os desejos, suscita uma espera e exige uma busca. João, o Batista, espera a chegada do Senhor no despojamento de si e numa ética de vida, dando o exemplo para que a Igreja, da mesma maneira, espere a segunda vinda do Cristo. Ele nos apela a preencher os vales que se tornaram abismos de insignificâncias; a aplainar os montes e as colinas da presunção e da autossuficiência e a endireitar os terrenos acidentados das dissimulações e incoerências. João é chamado de lâmpada conforme a palavra do Senhor: “Ele era uma lâmpada que ardia e iluminava” (Jo 5, 35). O Cristo é precedido por uma lâmpada como canta o salmista: “Preparo uma lâmpada para o meu Ungido” (Sl 132, 17) e João prediz que a claridade da sua lâmpada se tornará inútil e desaparecerá com a vinda do Sol: “É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). A Boa Nova faz saber que somos mais ricos do que acreditamos; nossas almas são mais belas do que nos fizeram pensar e somos homens e mulheres com infinitas possibilidades. João, o Batista, anuncia que o milagre é possível: as nossas vidas banhadas pela luz do Sol Nascente abandonarão a mesquinhez para se vestirem com a pródiga esperança que alimenta todos os desejos de expansão da força vital. Seremos transformados pelo Espírito de Deus e realizaremos a profecia de Joel: “Nos últimos dias, eu farei que vossos jovens tenham visões e vossos velhos, sonhos” (Jl 2, 28). João, no deserto, anuncia e cumpre a promessa de que “água fresca para a alma sedenta é o mensageiro de uma boa nova que vem de uma terra distante”(Pv 25, 25).


CONTEMPLAR

Nascimento em Belém (detalhe), Jean-Marie Pirot (Arcabas), 2002, óleo e ouro 24 q. sobre tela, Políptico da Infância do Cristo, Palácio Arquiepiscopal de Malines, Bruxelas, Bélgica.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Caminho da Beleza 01 - I Domingo do Advento

O Caminho da Beleza 01
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



I Domingo de Advento             27.11.2011
Is 63, 16-17.19; 64, 2-7               1 Cor 1, 3-9             Mc 13, 33-37


ESCUTAR

“Ah! Se rompesses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de ti... Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos” (Is 63, 19; 64, 4).

“Nele fostes enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós” (1 Cor 1, 5-6).

“O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (Mc 13, 37).


MEDITAR

“Aquele que ensina o bem aos outros sem o praticar é como um cego que segura uma lanterna” (Provérbio Argelino).

“Procurar Deus é se deixar constantemente questionar por Ele. Não se deve procurar Deus como se procura qualquer coisa que se pode comprar” (Anselm Grün).


ORAR

Somos chamados a acertar os nossos relógios e calendários e a liturgia de hoje nos oferece para isto dois acontecimentos. O primeiro, é que o Senhor não esconde mais o seu Rosto e o segundo é a vinda do Cristo para o Juízo Final. Estes dois acontecimentos não se referem um ao passado e outro ao futuro, mas dizem respeito ao hoje, ao aqui e agora. Cristo já veio, mas é também acolhido hoje. Cristo, contudo, deve vir, mas há de ser esperado aqui e agora e, por esta razão, vigiamos. Devemos despertar do torpor que temos vivido, pois nunca seremos leais a um Deus em movimento se não assumirmos uma postura dinâmica que implica uma permanente conscientização e um compromisso responsável. O Deus da Encarnação e do Juízo é surpreendente, pois não vem exigir, mas dar: “Nunca se ouviu dizer nem chegar aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto TU, tenha feito tanto pelos que Nele esperam” (Is 64, 3). Acolher este Deus não é preparar um espetáculo colossal, mas nos apresentarmos com nossa pobreza que é, essencialmente, a disponibilidade para receber. Não cabe delegar a ninguém a tarefa de vigiar para nos despertar no momento oportuno, pois, aos olhos de Deus, somos os únicos responsáveis por nossos atos. Todo o dia pode ser o dia e toda a hora poderá ser a hora e o momento do Advento do Senhor. No coração de cada um desdobra o infinito dos céus, a beleza da alma e o apelo generoso para a liberdade. Bernardo de Claraval exortava no seu sermão de Advento: “Não é necessário atravessar os mares, penetrar as nuvens ou transpor montanhas. Não é um caminho muito longo que te é proposto: basta entrar em ti mesmo para correr ao encontro de teu Deus”. Esperamos Alguém e por isto vigiamos e vigiar quer dizer orar! E orar é ser invadido pelo Espírito do Senhor para que possamos olhar o mundo, que é a matéria prima do Reino, com os olhos de Deus. O amor de Deus e a esperança do Homem se entrelaçam no coração do Advento para vingar a tenda nupcial: “Eu estava dormindo, meu coração vigiando, quando ouço meu amado que me chama: - Abre-me, amada minha, minha amiga, minha irmã, minha pomba sem mancha, pois tenho a cabeça orvalhada, meus cabelos, do sereno da noite” (Ct 5, 2). O Esposo e seu amor sempre nos surpreenderão: “vem à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer”. Nestes tempos de espera vigilante, devemos fazer acontecer uma terceira vinda: a do cristão. A de homens e mulheres surpreendentes que rompem com um cristianismo irrelevante, banal, repetitivo e queixoso. Um cristianismo sonolento e impotente para despertar os que dormem e que repartem entre si os despojos do tédio e da desesperança. Precisaremos sempre, em todos os lugares e horas, de cristãos que testemunhem que os céus foram rompidos pelo seu compromisso de fazer vingar a justiça na terra. Cristãos que não temam o momento a vir e que, vigilantes e despertos, enfrentem a noite dos desesperados, fazendo-os  irromper à soleira da vida com suas faces banhadas pelo Sol Invencível.


CONTEMPLAR

Ia Orana Maria (Ave Maria), Paul Gauguin, 1891, óleo sobre tela, 113,7 x 87,6 cm, Atuona, Hiva Oa, Ilhas Marquesas, Polinésia.




segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Caminho da Beleza 53 - Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo

O Caminho da Beleza 53
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo                  20.11.2011
Ez 34, 11-12.15-17            1 Cor 15, 20-26.28                       Mt 25, 31-46


ESCUTAR

“Assim diz o Senhor Deus: Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas” (Ez 34, 11).

“Na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Cor 15, 20.25-26).

“Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes” (Mt 25, 45).


MEDITAR

“Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na sua própria vantagem? Porventura não é ele devastado por causa do poder da droga, que vive, por um lado, da ambição de vida e de dinheiro e, por outro, da avidez de prazer das pessoas que a elas se abandonam?” (Bento XVI, Discurso na Konzerthaus, Freiburg, 25.09.2011).

“Cristo fala às multidões, mas dirige o seu olhar aos homens, um por um. Não opera conversões em massa, não conhece triunfalismos; é um Messias que não arrebata gentes. Pode mover-se de compaixão pelas multidões justamente porque não as considera aglomerados anônimos, mas sabe distinguir por entre elas cada rosto, cada drama” (Ettore Masina, O Evangelho segundo os anônimos, 1972).


ORAR

A parábola do Juízo Final é uma descrição grandiosa do veredicto derradeiro sobre a história humana. Nela estão presentes povos de todas as raças, religiões, culturas e lugares da terra habitada. Dois grupos emergem desta multidão: o dos que receberão a benção de Deus porque exerceram a sua compaixão com os mais necessitados e por eles fizeram o máximo que podiam. O outro grupo será convidado a se afastar de Deus porque foi indiferente ao sofrimento dos homens e mulheres que encontraram em seus caminhos. A parábola é explícita ao afirmar que o que vai decidir a sorte final de todos não é a religião sob a qual cada um viveu nem a fé que cada um professou. O que vai decidir a sorte de todos é uma vida de compaixão e solidariedade para com os que sofrem. A religião mais agradável a Deus é a que ajuda os que sofrem. Nesta parábola, não são pronunciadas as grandes palavras como “justiça”, “solidariedade”, “democracia”, pois nenhuma delas significa nada diante da situação real dos que sofrem.  Jesus fala de comida, de roupa, de algo para beber e de um teto para se abrigar. Nesta parábola, não se fala tampouco de “amor”. Jesus nunca usou uma linguagem abstrata, mas disse palavras concretas como comer, vestir, hospedar, acudir e visitar. Jesus, no entardecer das nossas vidas, não nos perguntará sobre o amor, mas nos questionará sobre os gestos concretos que fizemos diante das pessoas que necessitavam da nossa compaixão. Nenhuma religião, que não gerasse compaixão, foi abençoada pelo Pai de Jesus Cristo. O Juízo Final não será um dia espetacular e pirotécnico. Não devemos nos iludir, cada dia é o dia do nosso juízo final porque todo o dia, em cada momento, colocamo-nos em julgamento e quando cerrarmos os olhos será tarde demais para o juízo. O rosto do Cristo Rei não é o dos soberanos da Terra, mas o de um homem pobre, de uma mulher violentada, de uma criança desprezada e abandonada à sua própria sorte, de um velho mergulhado na sua angustiada solidão. O rosto do Cristo é o rosto acolhido e rejeitado sempre que acolhemos ou rejeitamos tantos rostos concretos que passam ao nosso lado pela vida. Jesus recebe o título de Rei na sua encarnação: “Onde está o rei dos judeus recém nascido?” (Mt 2,2). E atinge a maioridade deste título na hora mesma da sua Paixão ao ser indagado por Pilatos: “És tu o rei dos judeus?” ( Mt 27, 11). O Cristo se apresenta como pastor, pois o pastor dá a sua vida pelo rebanho, ao passo que o rei é defendido pelos súditos que devem morrer por ele. O templo do nosso Rei e o seu palácio são a miséria dos homens e mulheres e Ele está sempre à espera de que, na compaixão a eles, nos produzamos mais humanos e dignos do seu Reino. Cada pessoa é um ícone vivo no qual podemos reconhecer o Ressuscitado que se apresenta ao mundo como Alguém a quem alimentamos, damos de beber, acolhemos, vestimos, visitamos na prisão, nos hospícios e nos hospitais. Ele é como um mendigo que bate à porta do nosso coração e nos pede sempre, com a mão estendida, alguma coisa, pois no seu próprio despojamento quer ser nosso devedor. É preciso sempre ruminar o salmo “É teu rosto, Senhor, que eu procuro” (Sl 26, 8), para que encontremos a face de Deus nos que são considerados supérfluos e descartáveis e que apenas nos pediram e pedem um pouco de pão, um teto e algumas palavras de consolo e pequenos gestos de compaixão.


CONTEMPLAR

Cristo Rei do Universo, Letícia Cotrim, 2011, tecido sobre cartão, 21 x 32 cm, Rio de Janeiro, Brasil.






segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Caminho da Beleza 52 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 52
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXXIII Domingo do Tempo Comum                 13.09.2011
Pr 31, 10-13.19-20.30-31               1 Ts 5, 1-6                  Mt 13, 14-30


ESCUTAR

“Uma mulher forte, quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as jóias... Proclamem o êxito de suas mãos e na praça louvem-na as suas obras” (Pr 31, 10. 19, 31).

“Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão, de noite” (1 Ts 5, 2).

“Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mt 25, 29).


MEDITAR

“Sabemos que, unidos a Cristo, nos tornamos vinho generoso. Deus sabe transformar em amor mesmo as coisas pesadas e acabrunhadoras da nossa vida. Importante é permanecermos na videira, em Cristo” (Bento XVI, Homilia no Estádio Olímpico de Berlim, 22.09.2011).

“Deus exerce o seu poder de maneira diferente de como costumamos fazer nós, os homens. Ele próprio impôs um limite ao seu poder, ao reconhecer a liberdade de suas criaturas. Sentimo-nos felizes e agradecidos pelo dom da liberdade; mas, quando vemos as coisas tremendas que sucedem por causa dela, assustamo-nos. Mantenhamos a confiança em Deus, cujo poder se manifesta, sobretudo, na misericórdia e no perdão” (Bento XVI, Homilia no aeroporto de Freiburg, 25.09.2011).


ORAR

Somos chamados a não enterrar a vida e nem a esterilizá-la completamente. Somos chamados a romper a obsessiva preocupação com a segurança e a afirmar diante de todos a maravilha do risco de existir para transformar o mundo. Somos chamados para o seguimento de um Jesus comprometido e não para coexistir com uma fé sufocada pelo conformismo e pela indolência. O cristão se questiona sempre sobre o que semeia ao seu redor; a quem contagiamos com a esperança e como aliviaremos a angústia que faz sofrer nossos amados e amadas. Não somos chamados a conservar a Palavra em potes herméticos de vinagre e sal, mas proclamar a Boa Nova que, ao transformar vidas, introduz o Reino de Deus no mundo. O teólogo von Balthasar é enfático: “ Ninguém se converterá a Cristo porque existe um magistério, os sete sacramentos, um direito canônico, um clero, os núncios apostólicos ou um gigantesco aparato eclesiástico. Alguém se converte ao Cristo porque encontrou um cristão que, por meio da sua existência e exemplo, manifestou que é precisamente, no meio da vida que se dá um seguimento de Cristo digno de fé” (in Examinadlo todo y quedaos com lo bueno). A parábola de hoje faz eco a um provérbio africano que reza “Quem te ama te dá sementes” e Deus nos entrega um tesouro pessoal apesar dos nossos limites, faltas e defeitos. Somos convidados a gastar este tesouro saindo de nós mesmos, arriscando-nos no meio da vida e, desta maneira, participando da alegria do Senhor. Jesus nos deixa livres para aventurar a travessia e sermos fecundos. Existem os que empacam, enterram seus talentos, se emburrecem e vivem, literalmente, enfezados. Suas vidas passam despercebidas e melancólicas e a presença do Senhor é temida e transforma-se num fardo. A nossa fé nos garante que o Senhor nunca entrega nada a ninguém sem garantir os meios para que expanda e frutifique a sua doação. O cristão sabe que deve ousar o quanto puder, pois na fé e no amor não se calcula e nem se poupa para que não se perca tudo. O papa Bento XVI exorta: “Tenha a coragem de ousar com Deus! Tente! Não tenha medo Dele! Tenha a coragem de arriscar a fé! Tenha a coragem de arriscar a bondade! Tenha a coragem de arriscar o coração puro! Comprometei-vos com Deus. Então verás que, precisamente, por isso a tua vida se tornará grande e iluminada, não mais entediada, mas plena de infinitas surpresas, porque a bondade infinita de Deus jamais se esgota!”. Não existem lugares e nem situações fechadas para a presença cristã. O espetáculo mais deprimente é aquele no qual um cristão esconde seu talento, mascara a sua fé, dissimula a sua pertença a Cristo, sepulta a Palavra ou a utiliza para seus projetos mesquinhos. A maior deformação é a vileza de uma Igreja satisfeita que se isola para usufruir, contemplar e defender os talentos recebidos. O cristão comprometido com o anúncio da Boa Nova sabe que guardar não é o mesmo que semear. A Igreja não foi instituída para preservar os dons de Deus, mas para multiplicá-los para todos. Não podemos empacar as nossas vidas e a dos outros e fenecermos estanques no mesmo lugar. Como afirma Guimarães Rosa: “Burro só não gosta é de principiar viagens. As coisas acontecem é porque já estavam ficadas prontas, noutro lugar, no sabugo da unha; e com efeito tudo é grátis quando sucede, no reles do momento. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”(Guimarães Rosa).


CONTEMPLAR

Meditação em país tibetano, Olivier Follmi, da coleção de fotografias “O Himalaia de Olivier Follmi”, www.follmi.com .






segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Caminho da Beleza 51 - Festa de Todos os Santos e Santas

O Caminho da Beleza 51
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Festa de Todos os Santos e Santas              06.11.2011
Ap 7, 2-4.9-14                    1 Jo 3, 1-3                Mt 5, 1-12


ESCUTAR

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14).

“Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1 Jo 3, 1).

“Bem-aventurados... Alegrai e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 3.12).


MEDITAR

“Em Deus Pai nós contemplamos um amor proveniente, sem limites de espaço nem de tempo. O universo e a história estão repletos dos seus dons. Todas as realidades e todos os acontecimentos estão envolvidos pelo seu amor” (Diálogo e Missão, 22).

“Jesus oferece uma visão surpreendentemente nova de Deus: apresenta-nos um Deus que não pede sacrifícios, Ele se sacrifica por nós; não pede oferendas, Ele oferece a própria vida; não tira o pão da boca dos pobres, Ele se torna pão para saciar multidões” (Alberto Maggi).

“A ortodoxia cristã se reveste não de eficácia, nem de obras quantificáveis, mas de sinais de pobreza do próprio Deus: encarnação, cruz e eucaristia. A pobreza é a verdadeira aparição divina da verdade” (J. Ratzinger).


ORAR
A festa de Todos os Santos e Santas é uma festa na qual não cabem nem números e nem nomes. É uma festa da santidade anônima, pois todos participam, de maneira distinta, da mesma santidade de Deus: uma santidade verdadeira que é, ao mesmo tempo, extraordinária e normal; excepcional e cotidiana. Nenhum santo falou de si mesmo nem se ofereceu como espetáculo e muito menos se exibiu à luz dos refletores. A santidade não é outra coisa do que o sinal inequívoco das pegadas de Deus na vida de uma pessoa. Todos os santos continuam a atravessar o nosso caminho, a circular nas ruas e becos por onde passamos ou nos escondemos e cabe a nós buscar neles o rosto de Deus ou, ao menos, o seu reflexo. Os santos e santas não pertencem a outro mundo, mas são cidadãos do mundo; são homens e mulheres comuns que não levam auréolas em suas cabeças, mas carregam nelas seus problemas, suas dúvidas e suas angústias, como todos nós. Habitualmente não flutuam no ar, mas têm pernas e pés doloridos como os nossos. São os que foram tocados pelo amor de Deus e o respondem pela entrega total de suas vidas a este amor, pois a santidade é inserir-se numa travessia de amor sem dela jamais sair. O teólogo von Balthasar afirma que “ser santo é suportar o olhar de Deus”.  A pobreza e a humildade são elementos vitais na vida dos santos, pois não pode haver nada mais sublime do que a humildade e nada mais rico do que a pobreza consentida. No livro de Atos, Pedro restaura no paralítico a imagem de Deus e se não pode dar a pequena moeda que lhe fora pedida, deu, generosamente, a graça divina para em seguida curar o coração de milhares, “concedendo-lhes a fé (At 4, 4). O Papa Bento XVI exorta: “O amor de Deus não quer estar isolado em si mesmo, mas difundir-se” (Encontro com os Católicos comprometidos na Igreja e na Sociedade, no Konzerthaus, Friburg, 25.09.2011). A santidade não é um luxo, mas a condição vital do ser cristão que espera impacientemente para nascer. A santidade, mais que um dom, é uma possibilidade oferecida a todos. O Papa Bento XVI reitera: “A Igreja abre-se ao mundo, não para obter a adesão dos homens a uma instituição com suas próprias pretensões de poder, mas sim para os fazer reentrar em si mesmos e, deste modo, conduzi-los a Deus, Àquele de Quem cada pessoa pode afirmar como Agostinho: ‘Ele é mais interior do que aquilo que eu tenho de mais íntimo’(Confissões III 6, 11)”. Os santos e santas, de todas as religiões, pertencem a Deus, são conduzidos pela liberdade do seu Espírito e sabem que a habitação do Senhor está onde a comunidade fraterna se constituir. Mestre Eckhart proclamava: “Para a pessoa que sabe, Deus está em todos os caminhos”. Nesta Festa de Todos os Santos, os bem-aventurados, meditemos as palavras do místico Rumi: “Para os que amam, mulçumano, judeu ou cristão não existem. Para os que amam, fé e incredulidade não existem. Para os que amam, corpo, mente, coração e alma não existem. Para que escutar aqueles que não veem assim a situação? Se eles não amam, seus olhos não existem”.


CONTEMPLAR

Todos os Santos I, Wassily Kandinski, 1911, óleo sobre tela, 50 x 64,5 cm, Städtische Galerie in Lenbach, Munique, Alemanha.







segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Caminho da Beleza 50 - XXXI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 50
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXXI Domingo do Tempo Comum             30.10.2011
Ml 1, 14-2,1-2.8-10                      1 Ts 2, 7-9.13                      Mt 23, 1-12


ESCUTAR

“Acaso não é um só o pai de todos nós? Acaso não fomos criados por um único Deus? Então, por que cada um de nós é desonesto com seu irmão, violando o pacto de nossos pais?” (Ml 1, 10).

“Trabalhamos dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós. Foi assim que anunciamos o evangelho de Deus” (1 Ts 2, 9)

“Deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam” (Mt 23, 3).


MEDITAR

“Uma Igreja autorreferente seria um instrumento de confusão e de contratestemunho porque a marca do Anticristo é o falar em seu próprio nome, enquanto o sinal do Filho é a sua comunhão com o Pai” (J. Ratzinger, Discurso aos catequistas, 2000).

“Ter ouro falso é uma infelicidade suportável e fácil de descobrir; mas o falso amigo é o que existe de mais penoso de se descobrir” (Théognis de Mégore).


ORAR

            Este Evangelho deveria ser proclamado às portas fechadas, pois os acusados são a classe clerical, as autoridades de todos os níveis, os catequistas, os evangelizadores, os responsáveis por comunidades, gurus espirituais e teólogos de profissão liberal “que não se liberaram jamais” (João Cabral de Mello Neto).
            As denúncias se sucedem. Iniciam-se com a do profeta Malaquias que aponta o escasso interesse pela glória de Deus que acaba sendo compensado pelo prestígio pessoal e um cuidado neurótico com a própria imagem. Tudo se resume à ambição revestida de um culto pomposo, de um ritualismo exterior e de um exacerbado devocionismo. Como afirma o filósofo Gustave Thibon: “A decadência moderna é a decadência de um mundo cristão. Algo mil vezes pior do que a decadência do mundo antigo. É o apodrecimento, não apenas da natureza humana, mas do lugar de Deus no homem. A decomposição antiga era mais franca, mas o cadáver de nossa civilização está disfarçado de todos os atributos divinos: justiça, amor, verdade...”.
            O Evangelho condena o vale-tudo para uma conversão a qualquer preço: “Percorreis mares e continentes para fazer um só prosélito e, quando o conquistais, o tornais duas vezes mais digno do inferno do que vós” (Mt 23, 15). A Igreja de Jesus é um povo de irmãos, uma comunhão com o Pai, seguindo os passos do Filho e conduzida pelo Espírito. O ministério instituído por Cristo é, na sua mais íntima essência, um serviço; mas um serviço que não se reveste de um poder mundano, autoritário e absolutista, e muito menos de uma posição privilegiada que não corresponde nem ao Evangelho e muito menos à Igreja, Povo de Deus.
            Paulo nos recomenda a tratar a comunidade com tanta ternura, como uma mãe cuida do filho nas suas entranhas. Não somos funcionários de uma burocracia eclesiástica, pois a dor, a angústia e a solidão não acontecem e não cumprem os horários do expediente paroquial no qual a nossa disponibilidade tem hora marcada.
            Somos chamados a viver na profundidade das relações interpessoais ao criar vínculos que façam nossos irmãos participarem concretamente das nossas vidas cotidianas, como Jesus o fez. Devemos ser reconhecidos como servidores da comunidade e não como os que se servem dela ou desejam ser servidos por ela. Devemos nos comprometer a viver do essencial no seguimento de Jesus: anunciar a Palavra, celebrar a Eucaristia e construir a comunidade de fé.
            O Senhor sentencia: “Eu vos farei desprezíveis e vis aos olhos de todos os povos”. E o Senhor assim realiza o vaticinado porque perdemos, aos seus olhos e coração, a autenticidade e a credibilidade.
O cardeal Ratzinger alertava de que “as grandes coisas sempre começam a partir do pequeno grão e os movimentos de massa são sempre efêmeros”. Para ele, a “nova evangelização” deve estar preservada de toda retórica triunfalista e de toda a neurose de reconquista, pois não se trata de “alargar os espaços da Igreja no mundo”. E acentua: “Não buscamos a escuta para nós, não queremos aumentar o poder e a extensão das nossas instituições, mas queremos servir ao bem das pessoas e da humanidade, dando espaço Àquele que é a Vida. Essa expropriação do próprio eu, oferecendo-o a Cristo para a salvação dos homens, é a condição fundamental do verdadeiro compromisso pelo Evangelho” (Discurso aos catequistas, 2000).
Poucas exortações evangélicas foram tão ignoradas e desobedecidas como esta. As Igrejas multiplicam títulos, prerrogativas, honrarias que dificultam o viver como autênticos irmãos. Não podemos mascarar a realidade com a terminologia enganosa do “serviço” ou porque nos acostumamos a nos chamar de “irmãos” na liturgia. A questão não é de palavras, mas a de termos um espírito novo de serviço fraterno.


CONTEMPLAR

Comparecimento diante de Anás, Jean-Marie Pirot (Arcabas), 2003, óleo sobre tela, 81 x 65 cm, França.           



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Caminho da Beleza 49 - XXX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 49
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXX Domingo do Tempo Comum              23.10.2011
Ex 22, 20-26                      1 Ts 1,5-10               Mt 22, 34-40


ESCUTAR

“Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. Se o maltratardes, gritarão por mim e eu ouvirei o seu clamor” (Ex 22, 20-21).

“Irmãos, sabeis de que maneira procedemos entre vós, para vosso bem. E vós nos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra com alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1 Ts 1, 5-6).

“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22, 36).


MEDITAR

“A fé é a luz interior que nos mostra nosso fim último e ilumina o caminho e nele nos conduz. A esperança alimenta na alma o desejo de atingir este fim, pois Deus nos garante o seu eficaz socorro. A caridade é o impulso irresistível da alma para se entregar em Seus braços e para possuí-Lo como seu próprio para todo tempo e a eternidade. Toda a perfeição cristã repousa sobre este triplo fundamento” (Cardeal Schüster).

“Amar é amar” (Guimarães Rosa).


ORAR

            Jesus era estranho ao fazer suas operações matemáticas. Quando tinha que multiplicar, dividia; para obter maiores resultados dizia: “Deixa, corta, perde, etc”. No judaísmo, existiam 613 preceitos dos quais 365 começavam com “Não” e os demais 248 com “Deves”. Jesus, ao ser provocado pelo doutor da Lei, soma todos os preceitos e os reduz a dois, ou melhor, a um, pois o amor de Deus e ao próximo são a mesma coisa e formam um único bloco.
            Jesus nos aponta o essencial ainda que continuemos, compulsivamente, a discutir os inúmeros preceitos que criamos. Enveredamo-nos em tormentos, remorsos, acusações detalhadas e afirmações absolutas do que é lícito ou não. Acabamos por colocar no centro da nossa vida o que não está no Evangelho e nos perdemos em minúcias ao perder o sentido da vida.
            Esta soma simplificada de Jesus, muitas vezes, é indigesta e, recusando o essencial, não aprendemos que o rosto do irmão torna-se um só e um mesmo rosto com o Pai. Jesus não oferece números, nem preceitos, mas rostos, presenças e duas relações vitais. Ele está impaciente para que saibamos, de uma vez por todas, que é preciso descobrir alguém para amar e somente conseguiremos isto se deixarmos de nos entreter com os números, sobretudo, os mais altos.
            O mandamento é o primeiro porque dá sentido aos outros e sem ele todas as práticas, observâncias e tributos religiosos estão privados de significado e de valor. O mandamento é o primeiro não por encabeçar a lista, mas porque está no centro e no coração da vida e “onde está nosso tesouro aí está o nosso coração” (Mt 6, 21).
            A novidade do Cristo é a de haver somado dois mandamentos, unindo-os estreitamente e de tê-los tornado inseparáveis. Somos nós que procuramos separá-los e pensamos que somos mais “religiosos” quando oramos, frequentamos os sacramentos e entramos pelas portas das igrejas. No entanto, o essencial para Jesus é que descubramos sempre um rosto para amar e não que decoremos as páginas de um texto.
            Amar não é necessariamente sentir e menos ainda estremecer e se agitar. Amar é querer o que Deus quer e fazer o que Ele nos manda. É unir na prática cotidiana a nossa vontade com a Sua ainda que possa ser dificultoso e contraditório.
            Como nos escreve Bento XVI: “As afirmações da Sagrada Escritura indicam que tudo o que existe não é fruto de um acaso irracional, mas é querido por Deus, está dentro do seu desígnio, em cujo centro se encontra a oferta de participar na vida divina de Cristo” (Verbum Domini, 8).


CONTEMPLAR

Le Bon Samaritain, Macha Chmakoff, s.d., 73 x 56 cm, Diocese de Valence, França.