terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Caminho da Beleza 44 - XXV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 44
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXV Domingo do Tempo Comum               18.09.2011
Is 55, 6-9                 Fl 1, 20-24.27                    Mt 20, 1-16


ESCUTAR

“Meus pensamentos não são como os vossos mandamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55, 8).

“Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21).

“Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom? Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mt 20, 15-16).


MEDITAR

“Quando se tratar de receber a recompensa, seremos todos iguais: os primeiros, como se fossem os últimos e os últimos como se fossem os primeiros. Porque a moeda de prata é a vida eterna, todos fruirão da mesma vida eterna. Contudo, em razão da diversidade dos méritos um resplandecerá mais e outro menos, mas quanto à vida eterna, ela será a mesma para todos. Ela não será mais longa para um e nem menos longa para outro, pois ela será eterna para todos: o que não tem fim para mim, não terá também para ti” (Santo Agostinho, Homilia 87).

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca” (Clarice Lispector).


ORAR

            Na tradição bíblica, a vinha é a imagem do povo que o Senhor escolheu e com o qual fez uma aliança. Na parábola de Jesus, a vinha torna-se a imagem de um novo Reino, reino sempre a construir e para o qual o Senhor tem necessidade de trabalhadores. Trabalhadores da primeira e da última hora receberão a mesma recompensa, pois o Senhor não faz diferença e acepção de pessoas.
            Jesus afirma que o amor do Pai e a sua misericórdia para com os pecadores não estão submetidos a condições ou cálculos. O salmista convida a cantar: “Misericórdia e piedade é o Senhor, Ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura” (Sl 144).
Quando quisermos pensar em Deus, primeiro devemos renunciar aos nossos pensamentos sobre Ele, pois ao nos convertemos não O encontramos automaticamente. Quando encontro Deus de verdade, só posso encontrá-Lo “escondido”. Ele permanecerá desta forma, sobretudo depois de que Se tenha deixado encontrar. Quanto mais Deus se revela, tanto mais Se faz “misterioso”.
A deformação da imagem de Deus é o perigo que correm as pessoas religiosas que falam tanto que O conhecem que chegam ao ponto de não reconhecê-Lo em seus irmãos e irmãs. Não temos nenhum problema em aceitar os dogmas mais indecifráveis, mas a generosidade de Deus para com todos, muitas vezes, cria problemas e obstáculos para a nossa fé e é um perigo para a nossa moral. A misericórdia do amor de Deus para com aqueles que, aos olhos do nosso “eu”, não são merecedores dela, causa-nos repugnância.
A parábola não se refere aos pecadores, mas aos que se pensam como “bons” e “justos”, questionando-os sobre suas reações ante os comportamentos surpreendentes e até escandalosos de Deus.
Esta parábola é a do patrão que queria trabalho e pão para todos. Sua conduta é estranha: o que o preocupa é que existam pessoas sem trabalho e, por esta razão, sai até a última hora para oferecê-lo àqueles que ninguém havia chamado. E lhes paga igualmente para que tenham como comprar a sua ceia.
A parábola nos ensina que a inveja é mais poderosa que o ódio e na sociedade de consumo em que vivemos a avareza alimenta a competição e o ressentimento, pois a sua força motriz é o estímulo da inveja que excita a ambição e o orgulho. Como afirma João Crisóstomo: “A inveja é sempre o carrasco do seu autor, uma vez que ela possibilita o sofrimento, atormenta o espírito, crucifica a alma e corrompe o coração”. Finalmente, devemos saber que o que é lucro para os homens, é perda para Deus e que “coração terno é vida para o corpo, mas a inveja é câncer nos ossos” (Pv 14, 30).


CONTEMPLAR

A Parábola dos trabalhadores da vinha, Cláudio Pastro, in: Parábolas, São Paulo, Paulinas, Brasil, 2002.






domingo, 4 de setembro de 2011

O Caminho da Beleza 43 - XXIV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 43
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXIV Domingo do Tempo Comum                         11.09.2011
Eclo 27, 33-28, 9             Rm 14, 7-9              Mt 18, 21-35



ESCUTAR

“Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 27, 3-4).

“Irmãos, ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 7-8).

“Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18, 21).


MEDITAR

“Nosso grande erro é tentar obter de cada um em particular as virtudes que ele não tem e negligenciar o cultivo das virtudes que ele possui” (Marguerite Youcenar).

“Todo grupo humano se enriquece na comunicação, na ajuda mútua e na solidariedade visando o bem comum: o desabrochar de cada um no respeito das diferenças” (Françoise Dolto).


ORAR

            Após recomendar o amor fraterno como constitutivo da comunidade, Jesus convida os seus discípulos para ir mais longe, até o perdão das ofensas, sem limites e sem voltas. Setenta vezes sete é a vingança extrema citada nos velhos contos épicos: “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete (Gn 4, 24).
            Nem Pedro e nem André, seu irmão, frequentaram a escola, pois desde cedo tiveram que aprender, com o seu pai, o ofício de pescador. A pergunta de Pedro a Jesus, sobre quantas vezes teria que perdoar seu irmão, foi uma clamorosa desgraça, pois teria sido mais justo e singelo da sua parte ter perguntado quantas vezes poderia perdoar. E, um pouco antes, Jesus colocara em suas mãos as chaves do Reino de Deus e a responsabilidade de decidir atar ou desatar tanto na terra como no céu (Mt 16, 19). Jesus lhe concedera, com infinita generosidade, esta missão apesar da sua limitação no uso dos verbos.
            Pedro ainda não compreendera que o perdão não é um prêmio, uma imposição, mas uma estupenda possibilidade; não um peso, mas uma libertação. O perdão é uma inacreditável possibilidade que nos é oferecida de fazer o mesmo gesto misericordioso e sem limites do Pai que zera todas as contas e anula todas as dívidas.
            O perdão, e tão somente ele, nos garante a certeza de virar a regra do jogo marcada pela ofensa, pela violência, pelo ódio do adversário, pela vingança, pelo rancor e pelo ressentimento.
            Pedro e André não foram à escola. E Pedro só conseguiu contar até sete na tentativa de regulamentar o perdão ao fixar um teto limite. Pedro fez uma tentativa para dissimular a sua limitação de quantificar a misericórdia e, na maior das boas intenções, tinha medo de “exagerar” e se mostrar generoso e excessivo no perdão, pois, talvez, poderia enfraquecer com isto a sua autoridade.
            Jesus lhe revela que não há cifras para o amor, que não existe “a última vez”, mas somente limites continuamente superáveis. “Sim, o amor é êxtase; êxtase não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus” (Bento XVI, Deus Caritas Est). No calendário cristão todo o dia é sempre dia de amar e de perdoar sem medidas.
            É o momento de inverter as preocupações e perguntar quantas vezes fizemos danos aos outros, pois também podemos ofender e escandalizar os nossos irmãos e irmãs. Temos que aniquilar o perdão regulamentado porque ele é sempre de mão única e um perdão de superioridade: de cima para baixo e, portanto, um perdão sem as entranhas da compaixão.
            Pedro só descobriu o perdão quando se tornou um devedor insolvente pela negação que fez de Jesus: “Não conheço este homem!” (Lc 22, 57).
            O perdão cristão, como a misericórdia do Pai, não entra em nenhuma medida humana e, por isso, por mais que queiramos, será impossível tomar posse dele e reservá-lo para nós.
            Que não sejamos nós a perguntar ao Cristo: quantas vezes podemos ser generosos como fostes conosco?


CONTEMPLAR

O servo perdoado que não perdoa, Heinrich Füllmaurer, painel do Altar de Mömpelgard, c. 1530-1570, Kunsthistoriches Museum, Viena, Áustria.




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Caminho da Beleza 42 - XXIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 42
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXIII Domingo do Tempo Comum            04.09.2011
Ez 33, 7-9                Rm 13, 8-10                       Mt 18, 15-20



ESCUTAR

“Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel. Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome” (Ez 33, 7).

“Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei” (Rm 13, 8).

“‘Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão... Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles’” (Mt 18, 15.20).


MEDITAR

“Afasta de mim a falsidade e a mentira, não me dês riqueza nem pobreza, concede-me minha porção de pão; não aconteça que me sacie, e saciado eu te renegue, dizendo: ‘Quem é o Senhor?’ Não aconteça que, necessitado, eu roube e abuse do nome do meu Deus” (Pv 30, 8-9).

“Quanto a mim confesso que acho natural entregar-me por inteiro ao afeto dos meus amigos, especialmente quando estou cansado dos escândalos do mundo. Neles me repouso sem preocupação alguma, pois sinto que Deus está lá, que é Nele que me lanço com toda a segurança e em toda segurança me repouso” (Santo Agostinho, Carta 73, 3).


ORAR

            O salmo 133 nos faz cantar: “Vede como é bom e agradável os irmãos conviverem unidos”, mas é também desígnio do Senhor que a comunidade cristã seja um povo disperso como uma semente lançada “entre todos os reinos da terra” (Dt 28, 25).
            O Evangelho apresenta a comunidade cristã como co-responsável: cada um é guardião do seu irmão e este estar alerta é vivido pela prática da correção fraterna e não cada um se tornando policial ou espião um do outro. Devemos sempre estender a mão para aquele que corre o risco de se alienar e se separar da comunidade e para isto a primeira coisa a ser feita é demonstrar que ele é amado e convencê-lo disso, apesar de tudo. Mais do que censurá-lo é preciso chamá-lo para que se deixe ser amado. E se, por acaso, ele se colocar fora da vida comunitária, auto-excluindo-se, a nossa tarefa de amor não se esgota: devemos amá-lo orando e suplicando ao Pai por ele.
            Na Igreja de Jesus, não se pode viver de qualquer maneira: por costume, tradição familiar, inércia ou medo. Os seguidores de Jesus devem estar reunidos em seu nome, convertendo-se a Ele e se alimentando do seu Evangelho, ainda que sejam dois os três. E esta dinâmica nos faz recuperar a nossa identidade cristã no meio de uma Igreja, às vezes, debilitada pela rotina e paralisada pelos medos.
            Paulo nos exorta para que saibamos que não devemos nada a ninguém a não ser dívidas de amor. E estas dívidas contêm um mistério: quanto mais se paga mais se deve, pois para o cristão quanto mais ele “gasta” amor mais recebe do Senhor para continuar “gastando”. O amor cristão não é um suplemento que em nossa suposta generosidade oferecemos aos outros. O amor é um crédito que os outros nos exibem sempre e em toda parte. Sempre estaremos em débito com o amor aos outros, pois a nossa capacidade de amar é infinita e estamos “pagando as nossas dívidas” segundo as leis e os costumes do Reino de Deus. Por esta razão, são sempre ridículos os monumentos, as placas de prata, as lápides e as cerimônias solenes que oferecemos aos que chamamos de “benfeitores” porque quebram a regra de ouro do Evangelho: “Que a tua mão direita não saiba o que deu a esquerda” (Mt 6, 3).
            O cristão sabe que, em qualquer caminho, pode encontrar (e sempre encontra) alguém com o direito de cobrar dele o amor que, gratuitamente, merece. Não nos enganemos. A renovação da Igreja sempre começa nas entranhas do coração de dois ou três que se reúnem em nome de Jesus, o Cristo. Amém!


CONTEMPLAR

O Filho Pródigo, Pierre Puvis de Chavannes, c. 1879, óleo sobre linho, 106,5 x 146,7 cm, Chester Dale Collection, National Gallery of Art, Washington, Estados-Unidos.




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Caminho da Beleza 41 - XXII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 41
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XXII Domingo do Tempo Comum              28.08.2011
Jr 20, 7-9                Rm 12, 1-2              Mt 16, 21-27


ESCUTAR
“Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder” (Jr 20, 7).
“Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12, 2).
“Se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16, 24-25).

MEDITAR
“‘A sabedoria deste mundo é loucura para Deus’. Esta loucura é aquela do extremo amor. Se, como cristãos, estamos além do razoável, é porque o clima em que o Cristo nos pediu para viver é o do amor. Se somos loucos, é por amor” (Philippe Dagonnet).
“Amar é esvaziar-se de si, ser pobre de si e fazer de si um espaço onde cada um possa respirar sua vida” (Maurice Zundel).

ORAR
            O profeta Jeremias, seduzido, coloca a descoberto as suas feridas. Não suspira, grita; não se sente culpado por sua debilidade, mas acusa Deus de prepotência. Acusa Deus de tê-lo seduzido e seduzir aqui está no mesmo sentido que compreendemos: iludir, enganar, violentar. Jeremias não diz: “Fascinaste-me!”, mas “enganaste-me e aproveitaste de mim”. Acusa Deus de conseguir o que queria e depois de abandoná-lo, expondo-o à vergonha e ao desprezo dos outros. Jeremias grita que fez papel de bobo, que se deixou seduzir como um estúpido e que perdera a cabeça. A lua de mel acabara: “Quando recebia tuas palavras, eu as devorava, tua palavra era meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16) e agora eram dramáticas as consequências: “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”. Jeremias está em crise porque viveu até as últimas consequências as exigências da sua vocação e agora não pode mais nada porque o Senhor havia tomado posse de sua pessoa como um fogo, uma paixão e uma febre incontroláveis. Jeremias decide continuar liberando o fogo que o consome, pois quando se perde, de verdade, a cabeça por Deus e sua Palavra, é melhor estar exposto aos escárnios do que reencontrar a cabeça.
            Jesus apresenta uma situação desconfortável para os que desejam segui-Lo: negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e perder a vida. É a identidade com o Cristo. Ele mesmo “que devia ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.
            Pedro está em desacordo com isto e recusa esta atitude de Jesus. Recusa, de início, a revelação e prefere ficar atrelado aos seus desejos pessoais: tranquilizadoras perspectivas triunfalistas, amplas concessões à ambição e a sedução pelo poder. Pedro e os demais se escandalizam da Cruz. Carregar a cruz é alargar a capacidade de suportar o sofrer por amor aos outros. O cristão não sofre por si mesmo, mas oferece o seu sofrer pelos outros. Uma vida cristã verdadeira confessa e testemunha o amor sem limites e discriminações.
            Pedro, a pedra, se tornou uma pedra de tropeço e de bem-aventurado é rebaixado a Satanás: o adversário. Jesus exige que o discipulado não pense em si mesmo. Tanto Jeremias quanto Pedro testemunham que o desígnio de Deus nunca foi, é ou será confortável. Dietrich Bonhöeffer, teólogo luterano, martirizado nas prisões nazistas escrevia: “Quando Deus chama um profeta, ordena que vá e morra!”.
            Sofremos, tantas vezes, a tentação de calar, de não dizer mais nada, de deixar que o mundo siga o seu caminho e que cada um fique na sua. Como diz o ditado nordestino: “Cada quem com seu cada qual!”. Mas ao desejo de se calar se contrapõe a Palavra que, queimando nossas entranhas, nos desinstala e nos leva a proclamar, custe o que custar, a Boa Nova.  Paulo escreve que devemos oferecer nossos corpos como hóstias vivas e santas. A entrega de nossas vidas faz da existência inteira uma única celebração litúrgica.
            Pedro foge como o diabo da cruz e quase divide a comunidade de Jesus. Os que apostam na divisão temem a cruz porque ela é a união e a força dos que amam. Os que dividem sempre hão de procurar para si saídas e escapes individuais. A cruz é a encruzilhada do divino com o humano e na Sua mesa celebramos as núpcias de Deus com a Humanidade porque o pão e o vinho se transformam em seu Corpo e seu Sangue, comida e bebida, dos que se amam e se fundem em vínculos de amor: “Um é o pão e um é o corpo que formamos, apesar de muitos; pois todos partilhamos o único pão” (1 Cor 10, 17).
            Gravemos na travessia as palavras do poeta: “Cheio de Deus não temo o que virá, pois venha o que vier nunca será maior do que minha alma” (Fernando Pessoa).

CONTEMPLAR
Domine, quo vadis?, Annibale Carraci, 1595, óleo sobre madeira, 77,4 x 56,3 cm, National Gallery, Londres, Reino Unido.


           

           

           




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Caminho da Beleza 40 - Assunção de Nossa Senhora

O Caminho da Beleza 40
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Assunção de Nossa Senhora             21.08.2011
Ap 11, 19; 12, 1.3-6.10                1 Cor 15, 20-27                  Lc 1, 39-56


ESCUTAR
“Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a arca da Aliança. Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 11, 19.12, 1).
“Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (...) O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Cor 15, 20.26).
“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do seu ventre”(Lc 1, 42).

MEDITAR
“Ser grande é prosseguir; prosseguir é estar longe e estar longe é voltar” (Lao Tsé).
“Pai, rogo-te que me guardes nesse silêncio para que eu aprenda dele a palavra da tua paz, a palavra da tua misericórdia e a palavra da tua mansidão para com o mundo. E que por mim, talvez, tua palavra de paz possa ser ouvida onde, por muito tempo, não foi possível a ninguém ouvi-la” (Thomas Merton).

ORAR
            A encarnação de Jesus é nupcial e significa uma nova criação esponsal: “Já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19, 5). Maria é fecundada pelo Espírito do Senhor e faz uma só carne, como uma união nupcial, com o seu Filho Jesus e de Deus com a humanidade.
            A festa de hoje nos assegura que não estamos caminhando para a morte, mas para a ressurreição e a vida eterna. O céu não representa uma ameaça nem uma chantagem, pois é uma possibilidade inaudita e uma chamada à liberdade.
            Hoje celebramos a festa do corpo e um corpo destinado à imortalidade. Os maniqueísmos estão derrubados e a totalidade do nosso ser – corpo, alma e mente (soma, pneuma e psique) – participa da glória. Maria, no seu Magnificat, recupera o sentido do corpo nessa experiência do céu na terra que é a oração.
            Orar significa desatar-se. Significa virar do avesso nosso corpo: arrancar a máscara da sisudez dos rostos e rir; estender as mãos encolhidas e retesadas num gesto de dom; caminhar com os pés na direção do amor, da amizade, da paz e não mais em qualquer direção. Orar é desatar-se, pois uma oração que nos mantenha rígidos, endurecidos pelo hábito, entediados com o reto tono das invocações não é uma oração. Deus não quer mais rituais de devoção com holocaustos e sacrifícios. Ele quer o homem e a sua resposta pela oração. Bento XVI nos diz: “a oração, a abertura do espírito humano para Deus é o verdadeiro culto. Quanto mais o homem se torna palavra – ou melhor, se torna resposta a Deus com a sua vida inteira –, tanto mais ele realiza o culto justo” (Jesus de Nazaré, vol. 2).
            Davi dançou diante da Arca (2 Sm 6, 14) e nós que proclamamos ter encontrado Deus nos assemelhamos a múmias enfaixadas e sem rosto. A Sabedoria exclama, ao estar com Deus, no momento da criação, que “dançava sem cessar” (Pv 8, 30-31). Mesmo João, o Batista, o homem austero que caminhava pelo deserto e se alimentava de gafanhotos e mel, deu cambalhotas no ventre de sua mãe Isabel assim que sentiu, no abraço visceral entre elas, a presença do mistério escondido no corpo de Maria.
            A Arca da Aliança não está mais colocada no marco solene do Templo, rodeada de símbolos quase indecifráveis e objeto de ritos solenes. A Arca da Aliança é, desde a encarnação, uma mulher de carne e osso que leva um filho em suas entranhas. O encontro de Isabel e Maria, grávidas, acontece conforme os ritos cotidianos da hospitalidade, mas significa muito mais do que isto. O encontro de Maria e Isabel é uma silenciosa cumplicidade e um diálogo de entranhas. O corpo de Maria se faz tabernáculo da divindade, pois Deus tem pressa para vir ao encontro dos homens e mulheres concretos e caminhar, lado a lado, com eles. O Emmanuel – Deus Conosco – tem urgência para entrar em casa e estar no meio de Deus como uma tenda de luz armada no meio do sofrimento e das trevas do mundo e dar a conhecer o Seu rosto de compaixão, de ternura e de misericórdia.
            Seguirá os nossos passos para que possamos seguir os Dele; chorará as nossas lágrimas para que possamos chorar com os nossos irmãos e irmãs que são Ele próprio; amará o nosso amor para que jamais esqueçamos Dele em cada ser humano que nos interpela: “Tive fome...tive sede...estava nu...sem casa...; me deste de comer...me deste de beber...me vestiste...me hospedaste!” (Mt 24, 31-46). E nos congrega em torno da Eucaristia para que nos alimentando com o Pão da Vida e o Cálice da Salvação, ingressemos, eternamente, com nossos amados e amadas, no Reino preparado para nós.
            O corpo de Maria resplandece o Espírito de Ternura por ela ter consentido com o desígnio do Senhor e, na sua Assunção, ela não entra na posse da sua própria glória, mas da glória do Senhor. E esta glória do Senhor será de geração em geração, pois Maria esposou a misericórdia de Deus em profunda comunhão com as gerações e seu destino.
            O Livro do Apocalipse desvela que a Arca da Aliança apareceu no Templo de Deus, que está no céu, e nos deu um grande sinal: “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”.
            Maria nos entrega este Cristo presente em todos os momentos da história dos homens e nos permite tocar o Alfa e contemplar o Ômega, o começo e o fim desta “travessia perigosa, mas é a da vida”(Guimarães Rosa).
            Está na hora de sermos nós mesmos o nosso próprio milagre e virarmos do avesso nossas vidas ao converter a nossa escuridão e angústia numa grande luz; a nossa secura de amar em encontros férteis de amor e a nossa desesperança em horizontes sem fim. Basta que aprendamos, com Maria, a dizer: “Que a sua palavra se cumpra em mim”(Lc 1, 38).

CONTEMPLAR
O Encontro de Maria e de Elizabeth (Isabel), Jean-Marie Pirot (Arcabas), 1986, acetato de polivinil, óleo sobre tela de linho, 65 x 54 cm, França.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Caminho da Beleza 39 - XX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 39
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XX Domingo do Tempo Comum                 14.08.2011
Is 56, 1.6-7             Rm 11, 13-15.29-32                     Mt 15, 21-28



ESCUTAR

“A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56, 7).

“Pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (...)Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos” (Rm 11, 32).

“Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”. Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres” (Mt 15, 26-27).


MEDITAR

“O homem tem a consciência de ser Deus, e tem razão, pois Deus está nele. Ele tem consciência de ser um porco e tem igualmente razão porque o porco está nele. Mas ele se engana cruelmente quando ele toma o porco por um Deus” (Leon Tolstoi).

“Nós somos somente grãos de areia, mas nós estamos juntos. Nós somos como grãos de areia sobre a praia, mas sem os grãos de areia, a praia não existiria” (Bernard Werber).

“Eu sonho com comunidades cristãs em que outros crentes poderiam vir, mas também pessoas que não têm fé, e que se diriam: ‘O que podemos fazer juntos? Há coisas que gostaríamos de suprimir ou de corrigir, ou outras que teríamos vontade de inventar?’; pessoas que refletiriam sobre tudo isso e que decidiriam o que fazer. É assim que se poderá espalhar o espírito do Evangelho” (Joseph Moingt).


ORAR

            Havia em Jerusalém e na Judéia um grande número de estrangeiros. A Lei previa para os estrangeiros – os gerim (prosélitos, os que se aproximam) – um estatuto favorável e eles usufruíam de certo número de direitos. O Levítico os assimila como o “próximo” que deve ser “amado como a si mesmo” (Lv 19, 33-34). Ao contrário, os imigrantes instalados por um tempo limite – os nokrin (ambulantes) – só tinham como proteção os costumes da hospitalidade e eram apenas tolerados. Eram, algumas vezes, assimilados aos inimigos, excluídos do culto e privados de inúmeras vantagens.
 O profeta denuncia estas discriminações em nome do direito e da justiça, pois a salvação do Senhor está próxima. Esta expressão significa que o Senhor está pronto a intervir, pois Ele é o protetor dos fracos. O profeta anuncia a universalidade da mensagem: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”.
 No cristianismo atual, se fosse somente a questão de abrir a porta das igrejas para “os estrangeiros”, tudo poderia se resolver, mas isto não basta e nem é o problema. O problema é que os “estranhos” sintam o desejo de entrar, encontrem um atrativo e algo mais do que uma simples curiosidade. A questão não é manter abertas as portas do templo, nem colocar a Bíblia ao alcance de todos, multiplicando ao máximo a comodidade dos fiéis. A fronteira mais difícil de ser superada é a da nossa mentalidade que nos coloca numa situação de risco: a de exercermos, no encontro com os estrangeiros, as atitudes de uma mal dissimulada superioridade e, às vezes, de desprezo e condescendência diante deles.
Não é uma atitude justa, ao abrir as portas das igrejas, querer impor aos “diferentes” os nossos gostos e cerimônias; transplantar nossos esquemas mentais, nossas repugnâncias, medos e obsessões. Só existe a acolhida verdadeira de uma pessoa se nos abrirmos a ela e tentarmos descobrir seus valores, até o ponto em que se possam colocar em xeque as nossas posições e se possam abalar as nossas certezas ou falsas seguranças. As discriminações mais odiosas são as que acontecem entre os irmãos de fé. Não basta abrir as portas da casa se antes não abrimos as portas em casa. O papa Paulo VI declarava, em 1964: “O diálogo da salvação ficou ao alcance de todos; foi destinado a todos sem qualquer discriminação”(Ecclesiam Suam 44).
Jesus ultrapassou as fronteiras da Palestina e entrou em território pagão (O Líbano atual). Num primeiro momento, Ele parece não querer ouvir a súplica da mulher e responde-lhe com uma frieza inesperada: “não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. A mulher não se ofende, pois está segura do que pede: “Os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”. Jesus que parecia tão seguro de sua missão de ser enviado “somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” deixa-se ensinar e corrigir por esta mulher pagã e a presenteia com o milagre solicitado com obstinada doçura: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!”.
O sofrimento não conhece fronteiras e a compaixão de Deus deve chegar a qualquer pessoa que está sofrendo. Saibamos que, ao encontrarmos uma pessoa que está sofrendo, o desígnio de Deus resplandece ali com toda a claridade. Isto é o primeiro, todo o resto vem por acréscimo, pois este foi o caminho de Jesus para ser fiel ao Pai: a compaixão irrestrita pelos que sofrem.


CONTEMPLAR

Jovem Mulher Cananeia da Galileia, Abdel Rahman Al Muzain, 1979, 13,5” x 20”, The Palestine Project Poster Archives, Palestina.






segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Caminho da Beleza 38 - XIX Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 38
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XIX Domingo do Tempo Comum                07.08.2011
1 Rs 19, 9.11-13                 Rm 9, 1-5                Mt 14, 22-33


ESCUTAR

“Ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” (1 Rs 19, 12).

“Não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência. Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua” (Rm 9, 1).

“Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro caminhando sobre a água. E Jesus respondeu: ‘Vem!’. Mas, quando sentiu o vento ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’. Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” (Mt 14, 28.30-31).


MEDITAR

“Nosso corpo é o primeiro evangelho, pois é por meio da expressão do nosso rosto, da nossa abertura, da nossa terna cordialidade e nosso sorriso que se deve passar o testemunho da Presença Divina. O que devemos viver é permitir Deus passar, comunicar a sua Luz, permitir Deus dar aos outros, por meio da nossa solicitude humana, a Presença adorável do Eterno Amor” (Maurice Zundel).

“Nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez” (Cardeal Joseph Ratzinger).


ORAR

            O profeta Elias vê desaparecer o seu velho Deus do Terror: uma imagem deformada a que estava apegado. O silêncio lhe entrega o verdadeiro Deus que estava no murmúrio de um silêncio sutil. Deus é silêncio, paz, intimidade e uma presença serenante. E Elias sai desta experiência transformado, transfigurado. O profeta guerreiro se converte num homem pacificado e, desde então, pode falar de Deus sem vociferar e invocar o fogo do céu: “O Senhor enviou um raio que incendiou a vítima, a lenha, as pedras e o pó, secando a água do canal (...) Eles os prenderam [os profetas de Baal], Elias os fez descer à torrente Quison e aí os degolou”(1 Rs 18, 38.40).
            O silêncio não profana o mistério, pois somente na calma de um ânimo sereno é possível vislumbrar, como num espelho, a imagem de Deus. Como afirma Raimon Panikkar: “A Palavra é o êxtase do Silêncio”.
            Deus é paz, mas os apóstolos devem atravessar a tempestade e a sua frágil embarcação parece não suportar a fúria de um vento que levanta ondas cada vez mais altas. Na tradição do Antigo Testamento, a expressão vento forte evoca tirania política e, simbolicamente, os apóstolos temem o enfrentamento político e religioso decorrente do seu seguimento a Jesus.
 O encontro de Jesus traz paz; no entanto Pedro, o pescador profissional de outras tempestades, corre o perigo de afundar nas águas que lhe faltaram debaixo dos pés. Pedro/pedra se torna pesado pelo medo e tendo pouca fé é arrastado pelo próprio peso da ambição de se sobressair e se distinguir dos outros.
            O segredo de Jesus é a oração. A oração derrota o medo, liberta de tudo o que pesa. Jesus despede a multidão e se afasta para orar porque sabia que “pensavam proclamá-lo rei” (Jo 6, 15). E retirado para rezar a sós, não se separou das dificuldades e problemas da multidão, pois pela oração estava próximo do Pai e dos homens e mulheres.
            Jesus afirma a sua identidade divina: “Sou eu/Eu sou”: “O mar te viu, ó Deus, o mar te viu e tremeu, as ondas estremeceram” (Sl 77, 17). Devemos caminhar para Jesus ainda que não tenhamos terra firme sob os pés, mas água; ainda que não possamos nos apoiar em argumentos seguros, mas na debilidade da nossa fé, com a certeza e a segurança que, no limite, Jesus sempre nos estenderá a mão.
            Devemos enfrentar nossas crises de secura interior, de indiferença e ceticismo, quando temos a sensação de termos nos perdido de Deus, ou, pior ainda, que Ele tenha se perdido de nós. Nestes momentos e nestas horas, basta uma súplica orante: “Senhor, salva-me!” e sentiremos, como Pedro, a mão estendida a nos segurar e a nos pedir que não duvidemos mais da Sua presença em nós e conosco. Jesus não chama ninguém de incrédulo, mas de ter pouca fé e é esta pouca fé que nos faz duvidar de nós mesmos e, consequentemente, de Deus.
            Temos que aprender esta postura vital de nos prostrar diante do Senhor em oração e dizer com o coração sereno: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus”. Assim poderemos nos aventurar a dar alguns passos pelo caminho dos homens sem que nos falte terra debaixo dos pés.
            Sejamos ou não fracos na fé, covardes diante do pecado do mundo, omissos perante os enfrentamentos, dissimulados por medo da verdade, Jesus sempre nos estenderá a mão para que na travessia do mar da vida possamos ter a oportunidade da reconciliação.
            Abrir as mentes, abrigar nos corações uma ternura visceral, pois, no meio dos despossuídos, a fome é uma realidade concreta e, por isso, Jesus rejeita a piedade do jejum em favor da prática de ir ao encontro das necessidades humanas reais. Jesus foi orar a sós depois de saciar, pela multiplicação dos pães, a multidão que o seguia e que parecia aos olhos do seu coração como um rebanho de ovelhas sem pastor (Mc 6, 34).


CONTEMPLAR

Cristo andando sobre a água, depois da “Navicella” de Giotto, Antoniazzo Romano, c. 1485, óleo sobre madeira, 190 x 179 cm, Museu do Petit Palais, Avignon, França.