terça-feira, 26 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 37 - XVIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 37
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XVIII Domingo do Tempo Comum            31.07.2011
Is 55, 1-3                 Rm 8, 35.37-39                Mt 14, 13-21


ESCUTAR

“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga” (Is 55, 1).

“Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” (Rm 8, 35-37)

“Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14, 16).


MEDITAR

“O templo tornou-se uma vasta companhia de seguros para a vida eterna, com o mínimo de risco, com uma técnica de consolação e de truques apropriados para cada caso. Prega-se a fé cristã como o melhor investimento da vida, oferece-se a Santa Ceia como um comprimido de eternidade. O que pôs a perder o cristianismo histórico foi o otimismo da beatice vazia de toda a existência trágica” (Paul Evdokimov, O amor louco de Deus).

 “A vocação de toda criatura não é suportar a sua existência, mas fazer dela uma oferenda e um dom” (Maurice Zundel, Le problème que nous sommes).


ORAR

            Deus pede a todos os homens e mulheres que peçam: “Ó vós todos...”, pois devemos nos dar conta de que a fome e a sede nos conduzem ao risco de morrer por sermos incapazes de pedir o que precisamos para viver. Estar sedento é provocar um desejo intenso. Deus é gratuito, mas não é supérfluo e oferece seus dons sob o signo da gratuidade: “Comprai sem dinheiro... comei e bebei sem pagar”.
            Quantos de nós O temos considerado supérfluo e decorativo na nossa existência? Quantos de nós O consideramos custoso e difícil e tentamos pagar por Sua proteção com uma sobretaxa monetária depositada nos envelopes do dízimo ou nas caixas dominicais como se a sua bênção estivesse na razão direta da quantia dada?
            Para os que pensam que tudo e todos têm um preço, um Deus gratuito, mas não supérfluo é embaraçoso e até insuportável. Enquanto tentamos regatear com Ele num infindável toma lá dá cá. Ele apenas nos conclama: “Vinde todos!”.
            O Evangelho de hoje revela que os cristãos não podem assumir uma postura demissionária, como a dos apóstolos, de indiferença e estranheza: “Despede as multidões, para que possam comprar comida”. O desejo mais profundo de Jesus, cheio de compaixão, antes de efetivar a multiplicação dos pães, é realizar o milagre da multiplicação de discípulos responsáveis e solidários: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Ele os faz cair em contradição e os deixa indignados. Jesus sabia que haviam contrariado a sua ordem e que teriam que gastar as moedas de prata que angariaram para comprar os alimentos e saciar a fome das pessoas
            Jesus no deserto conheceu a fome e por esta razão quer que a sua Igreja nunca coma primeiro do que os outros que têm tanta fome quanto ela. A Igreja de Jesus depois de ter servido a todos os outros, quaisquer que sejam, deve comer por último do que sobrou, pois o milagre de Deus é fazer sobrar sempre em abundância.
            Milagre é se deixar envolver na situação do outro, comover-se pela dor alheia, sentir-se questionado por suas necessidades, compadecer-se de suas misérias e ser sensível a uma situação desesperadora. Jesus nos testemunha que cada um de nós é responsável pela fome do outro: fome de pão, fome de amor, fome de amizade, fome de compreensão, fome de escuta e fome de justiça. Não temos o direito de fazer do culto a Deus um espetáculo e enterrarmos nas catacumbas dos nossos corações os nossos desmazelos inconfessáveis.
            Para o cristão jamais soa a hora de despedir quem quer que seja, porque sempre será a hora de acolher, de estar vigilante e de se comprometer. Paulo revela que se estamos ligados ao amor do Cristo, este vínculo é mais forte do que qualquer contrariedade ou divisão. Por esta razão nenhum cristão será alguém que despede, pois para os cristãos jamais existe a hora da separação. Se dermos as costas aos famintos do mundo, aos que não sabem o que é viver com pão e dignidade, perderemos a nossa identidade samaritana, seremos desleais ao Cristo, desonraremos a sua Palavra e nos converteremos em réus nas celebrações eucarísticas.
            Escutemos as palavras de João Crisóstomo: “Quereis honrar o Corpo do Salvador? Então não O desprezeis quando O virdes coberto de andrajos. Depois de O teres honrado na igreja com vestes de seda, não O deixes do lado de fora, sofrendo frio, miséria e abandono. Deus não precisa de cálices de ouro, mas de almas e vidas de ouro. Que importa que a mesa do Cristo cintile com cálices de ouro se Ele próprio morre de fome e sede? Aliás, saibam que o templo deste irmão é mais precioso do que o de Deus”.


CONTEMPLAR

A Alimentação dos Cinco Mil, Daniel Bonnell, s.d., óleo sobre tela, 24” x 48”, Coleção Particular, Estados-Unidos.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 36 - XVII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 36
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).


XVII Domingo do Tempo Comum              24.07.2011
1 Rs 3, 5.7-12                     Rm 8, 28-30                      Mt 13, 44-52


ESCUTAR

“Dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal” (1 Rs 3, 9).

“Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o desígnio de Deus” (Rm 8, 28).

“O Reino de Deus é como um tesouro escondido... uma pérola de grande valor... uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo” (Mt 13, 44.45.47).


MEDITAR

“Na sua natureza, a fé é a acolhida de uma verdade que nossa inteligência não pode atingir; ela repousa de maneira simples e indispensável sobre o testemunho” (John Henry Newman, cardeal).

 “Quem rompe a amizade com Jesus, quem se recusa a carregar o seu ‘jugo suave’, não chega à liberdade, não se torna livre, pelo contrário torna-se escravo de outras potências” (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré, vol 2).


ORAR

            O Senhor, na sua delicadeza, aparece em sonhos a Salomão porque nos sonhos este poderia pedir, sem enrubescer, riquezas imensas, êxitos, glórias, honras, uma vida longa e, sobretudo, o extermínio dos inimigos. Salomão não pensa que basta estar refastelado no trono para fazer justiça em qualquer circunstância, nem que o poder de rei lhe confere, automaticamente, a capacidade de distinguir entre o bem e o mal. Salomão, na sua sabedoria, pede ao Senhor um coração dócil e não súditos dóceis e submissos.
            O evangelho pede para sermos servos e discípulos antes de sermos letrados: “Todo mestre da lei que se torna discípulo do reino dos céus é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. O cristão é o homem da alegria por descobrir o fluxo da vida que é sempre marcado pelos encontros sem anonimatos.
            Os que seguem a Cristo e que tudo abandonam não podem fazer os outros pagarem o preço do que, livremente, decidiram. Deus nos livre dos desafortunados, dos frustrados, dos insatisfeitos, dos que se deleitam em fazer o maior mal possível aos seus próximos ou à sua comunidade por viverem amargos e enfurecidos nos seus secretos pesares das coisas que não abandonaram de verdade e que os tornariam capazes de um amor que liberta. Jesus fala que devemos esvaziar o cofre das nossas riquezas, mas nunca deixar secar o coração.
            Paulo nos relembra que a pedra mais dura da existência, quando suavemente roçada com a pedra do amor de Deus, produz uma fagulha que acende o fogo que ilumina e acalenta a nossa vida e a de todos que nos circundam, pois “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”.
            O mais triste é encontrarmos tantos cristãos e cristãs cujas vidas não estão marcadas pela alegria, pelo encantamento e pela surpresa de Deus. São vidas que nunca tiveram estas marcas em seus corpos e seus corações. São vidas encerradas em sua religiosidade individual; são vidas que jamais encontraram, por terem passado ao largo, nenhum tesouro que lhes valeria mais do que a própria vida.
            Para os que seguem a Jesus, cuidar da vida interior, como um grande tesouro que os conduz à vida fraterna e comunitária, não é uma coisa a mais no seu cotidiano. É o imprescindível para que possam viver abertos e disponíveis às surpresas de Deus.
            Ainda é tempo de compreender o diálogo entre o papa e o santo: “Um dia, o papa Inocêncio IV, estava a contar peças de ouro e disse a São Tomás de Aquino: ‘Veja, Tomás, a Igreja não está mais obrigada a dizer, como no seu nascimento: ‘Eu não tenho ouro e nem prata!’ São Tomás , com modéstia, respondeu: ‘Santo Padre, eu reconheço esta riqueza, mas também a Igreja não pode mais dizer hoje, como antes, ao aleijado: ‘Levanta-te e anda!’” (Cornelius Lapide, Commentaires sur l’Ecriture Sainte, J.C.C. Ed., 1856, pp. 158-9).


CONTEMPLAR

Descobrindo a Pérola de Grande Valor, Daniel Bonnell, s.d., óleo sobre tela, 24” x 48”, Coleção Particular, Estados-Unidos.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 35
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XVI Domingo do Tempo Comum                17.07.2011
Sb 12, 13.16-19                  Rm 8, 26-27                      Mt 13, 24-43

ESCUTAR
“A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente” (Sb 12, 13).
“E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos nossos santos” (Rm 8, 27).
“Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora” (Mt 13, 25).

MEDITAR
“Sabemos ao menos que não lutamos contra a vida mas por ela, e que a pureza é justamente a resposta da vida, como a impureza é a nossa ignorância e o desprezo por ela (Maurice Zundel, A Ternura de Deus).
 “Não temos nenhum poder sobre o passado e nenhuma ideia do futuro: só nos resta o presente. O instante presente é uma janela aberta para a eternidade, um piscar d’olhos de Deus no qual vivemos. Só podemos atingir Deus no instante presente, neste e no seguinte: é o perpétuo sacramento da presença e da ação de Deus” (Jean Lafrance).

ORAR
            Tudo indica que Deus permaneceu na estação da semeadura, que é a estação da esperança e da paciência e nós ainda insistimos em queimar etapas e nos mantermos na estação da impaciência. O Reino de Deus é sempre um início, um minúsculo e insignificante início. Jesus é, ao mesmo tempo, semeador e semente e este abnegado semeador não hesitará em se converter em grão caído na terra, no sulco manchado de sangue do Calvário para morrer: “Asseguro-vos que, se o grão caído na terra não morrer, ficará só; se morrer, dará muito fruto” (Jo 12, 24).
            O grão de mostarda se converte em árvore e celebra a sua grandeza, não pela sua imponência, mas porque faz viver os pássaros do céu. Jesus nos revela que a política de Deus é a misericórdia e a sua diplomacia, a compaixão. Devemos aprender e a decorar a delicadeza de Deus, a sua solicitude, a sua benevolência e a sua vigilante espera. A parábola do joio é o mais categórico desmentido aos fanatismos, às intolerâncias e às visões apocalípticas. Com a justificativa ilusória de impedir o contágio com o trigo, se propaga a aniquilação pela aparência; com o pretexto de eliminar os galhos secos, matam-se os rebentos verdes neles quase que invisíveis.
            O que devemos temer é a descarada hipocrisia. Com o falso propósito de aniquilar o mal do joio, queremos apenas nos livrar do que nos molesta, nos enfadonha e ameaça as nossas ambições. E, no momento mesmo em que julgamos, condenamos e desprezamos os outros, por nos considerarmos puros, tornamo-nos feixes de erva daninha para serem queimados. Os verdadeiros malvados são os que em vez de empenhar-se no humilde esforço da prática do evangelho, arrogam-se uma tarefa que é da exclusiva competência de Deus: “Quando chegar aquele dia, muitos me dirão: Senhor, Senhor! Não profetizamos em teu nome?, não expulsamos demônios em teu nome?, não fizemos milagres em teu nome? E eu lhes declararei: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, malfeitores” (Mt 7, 22-23).
            Os que nos faz vacilar na fé são certos campeões de uma fé arrogante, presunçosa, afetada, que não aceitam ser confrontados e, por princípio, suspeitam, com atrevida ignorância, dos outros. Deus é paciente porque cuida de todos. A parábola do joio e do trigo nos remete à colheita final: a ninguém é dado antecipar as tarefas e quem não entregar a sua vida pelos outros não tem e nunca terá o direito de julgar ninguém.
            A frase do samba da Estação Primeira da Mangueira sintetiza o evangelho de hoje: “A vida não é só isso que se vê”. Para Ezequiel, o Senhor é um cedro magnífico plantado numa montanha elevada e em sua ramagem se aninharão todas as aves (Ez 17, 22-23). Para Jesus, a vida é mais do que se vê, é o ínfimo grão de mostarda, pequeno e insignificante, a menor de todas as sementes, que ao crescer fica maior do que as outras plantas, uma árvore na qual os pássaros fazem ninhos em seus ramos.
            Oxalá aprendamos, de uma vez por todas, que o Pai de Jesus não se encontra no poder e na superioridade. A sua presença salvadora está no pequeno, no ordinário e no cotidiano.

CONTEMPLAR
Grãos e Ervas Daninhas, James B. Janknegt, 2001, óleo sobre tela, 40” x 30”, Texas, Estados-Unidos.



terça-feira, 5 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 34
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XV Domingo do Tempo Comum                  10.07.2011
Is 55, 10-11             Rm 8, 18-23                      Mt 13, 1-23

ESCUTAR

“A palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia” (Is 55,11)

“De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus” (Rm 8, 19).

“Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem” (Mt 13, 16).


MEDITAR

“Quando tomamos consciência de que existe em nós o desejo de Deus e o desejo de um além; de um mundo que supera nosso mundo, estamos a ponto de nos reconciliar com a realidade, muitas vezes tão banal, da nossa vida” (Anselm Grün).

“A paciência tem a face tranquila e calma, uma fonte serena sobre a qual nem a tristeza e nem a cólera imprimem rugas; seus olhos se inclinam pelo sentimento da humildade e não da infelicidade; sua boca fechada presta homenagem ao cotidiano do silêncio” (Tertuliano, Livro da paciência, 15).


ORAR

            Vivemos momentos em que a palavra da Igreja tem sido caricaturada, relativizada e, muitas vezes, rejeitada. Muitos se perturbam na sua fé, como nos primeiros tempos do cristianismo, diante da aparente lentidão do avanço do Reino de Deus e dos inúmeros fracassos do anúncio do Evangelho. Apesar de tudo, a palavra de Deus guarda uma eficácia inusitada para os que apresentam um coração disponível.
            O evangelho nos revela que ¾ da semente se reduziram a nada e sugere que a missão de Jesus e de seus seguidores poderá ser frequentemente infrutífera. Mesmo assim, Jesus nos apela a sermos, ao mesmo tempo, semeador e terreno fértil; anunciadores da mensagem e, por sua vez, seus destinatários.
            Nos dias de hoje, devemos semear a esperança e semear com abundância, generosidade, sem cálculos mesquinhos e sem exclusões preconceituosas. Não é tempo de ceifar, mas de semear. Não nos cabe decidir o terreno da semeadura e proclamar de antemão qual o melhor terreno, o mais receptivo, o mais merecedor e o que pode oferecer perspectivas alentadoras. O salmista evoca: “Os que semeiam com lágrimas colhem com júbilo. Indo, ia chorando, levando a sacola de semente; voltando, volta cantando, trazendo seus feixes” (Sl 126, 5-6).
            Como semeadores da Palavra, não podemos estar desiludidos de antemão. É a semente que deve nos consolar e nos encher de alegria, porque não sabemos qual é o bom terreno, quais as circunstâncias favoráveis e o tempo justo para germinar, frutificar e colher.
            Somos também terrenos que devem estar predispostos à acolhida da Palavra e ser fecundados pela chuva benéfica. A Palavra de Deus apenas fica depositada em nós quando não a interiorizamos para que alguma coisa mude em nosso coração e em nosso agir. Ela pode ficar ali dentro, estratificada, inútil, intacta, mas, sobretudo, expressão de uma recusa ou de inúmeras recusas que fazemos ao largo do caminho.
            A Palavra vem mandada pelo Senhor para nos anunciar alguma coisa e nos interpelar a uma resposta que não seja evasiva e nem esteja reduzida a gostos pessoais: “Assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55, 11). Só o Senhor pode prever aonde chegará a semente e o que está destinada a produzir.
            O Evangelho é lúcido ao afirmar que não basta ter olhos e ouvidos: “Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem”. A Criação, como Deus, também está “aguardando a plena manifestação dos filhos de Deus”. Até agora, a Criação tem, tragicamente, pago, as consequências dos nossos descuidos, omissões e indiferenças, frutos da ganância e da voracidade do lucro e da acumulação que desfiguram a obra belíssima saída das mãos de Deus. As dores do parto têm se prolongado até o infinito, porque os filhos de Deus não respondem, nem se revelam porque se escondem e se evadem das suas responsabilidades.
            Jesus encontrou todas as dificuldades e rejeições para semear a sua Palavra e até entre os seus seguidores mais próximos despertava desalento e desconfiança: valia a pena seguir este homem de Nazaré? Não podemos ceder ao desalento, ao contrário, devemos continuar semeando na esperança de que haverá uma colheita abundante.
            Na Igreja de Jesus não precisamos de colhedores de êxito, nem dos que dominam a sociedade, dos que enchem os prédios das igrejas e tentam impor a sua crença religiosa. A Igreja de Jesus precisa de semeadores, dos que semeiam palavras de esperança, gestos de compaixão e abraços de solidariedade. Mais do que nunca, devemos romper a obsessão de colher para o presente e valorizar o trabalho do semear. Jesus nos deixou, como herança, a parábola do semeador e não a parábola do que colhe o que ceifou.


CONTEMPLAR

O Semeador, Edy-Legrand (Edouard Léon Louis Warschawsky), obra a carvão em Bíblia editada por François Amiot e Robert Tamisier, França, 1950.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 33 - São Pedro e São Paulo

O Caminho da Beleza 33
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



São Pedro e São Paulo             03.07.2011
At 12, 1-11               2 Tm 4, 6-8.17-18                        Mt 16, 13-19


ESCUTAR

“O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: ‘Levanta-te depressa!’ As correntes caíram-lhe das mãos. O anjo continuou: ‘Coloca o cinto e calça tuas sandálias!’ Pedro obedeceu” (At 12, 7-8).

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2 Tm 4, 7).

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).


MEDITAR

“O rico avarento é semelhante a um asno carregado de ouro, que só come palha” (Provérbio argelino).

“Pense em Deus com fé, pense no próximo com amor, pense em ti mesmo com humildade” (S. João Bosco).

“Nós devemos nos dar e só nos possuímos à medida do dom que fazemos de nós mesmos. Nós só nos expandimos na gratuidade. Nossa liberdade consiste precisamente viver desta gratuidade, a existir em ação de graças e a passar da servidão ao serviço” (Jean-Guy Saint Arnaud).


ORAR

A Igreja de Jesus, pobre e hospitaleira, nunca poderá estar aprisionada aos grilhões do poder, sejam os da perseguição ou os dos privilégios. Os mistérios foram e são revelados pelo Pai aos pequenos e não aos eruditos ou astutos. Pedro pertence à categoria dos simples seguidores que vivem com o coração aberto. É Jesus quem constrói a Igreja. Ela é sua e Jesus não a constrói sobre a areia. Pedro, como nós, será uma pedra nesta Igreja não por ter a solidez e a firmeza de temperamento. Pedro, honesto e apaixonado, é também inconstante e inconsistente. Seu poder repousa, simplesmente, sobre a sua fé em Cristo.
Pedro é libertado da boca do leão, os dois sustentáculos do poder utilizados, em todo tempo, para a submissão de todos: o Estado e a Religião. Pedro exclama: “Agora eu sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”.
A Igreja de Jesus vive da sua dimensão peregrina diversa e plural. Uma Igreja que durante a sua existência enfrentará situações de dilaceramentos e que nelas forjar-se-á como uma Igreja solidária e portadora da paz para todos os que sofrem perseguição por amor à justiça.
Paulo, o que vive na liberdade do Espírito, revela que a travessia é duelo: combater, completar a corrida e guardar a fé. É a de sermos testemunhas vivas de que, apesar de tudo, somos capazes de manter a lealdade à comunidade fraterna de Jesus na qual aquele que se perde é o que se encontra.
O Concílio Vaticano II vai consagrar a Igreja do Serviço: “Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo, ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido” (Gaudium et Spes, 3).
Devemos ter cuidado ao usarmos metáforas para a Igreja de Jesus, sobretudo a da barca. No final do livro de Atos, todos são salvos não por estarem protegidos na barca, mas pela partilha do pão abençoado na presença de todos, por todos comidos e, por isso, animados, alimentados e saciados. A barca encalhou nas correntes de suas próprias âncoras e, ironia do destino, ficou presa em si e por si mesma (At 27, 41).
A comunidade eclesial deve ser a comunidade concreta de homens e mulheres, a Igreja de Jesus, que vai ao encontro e ao diálogo com todos os outros homens e mulheres do mundo. Uma Igreja pobre, mas rica de compaixão que não faz nas barcas do poder a sua travessia para a vida eterna, pois o Senhor prevenira que destas barcas sobrarão apenas os pedaços espalhados pelo mar da história.
O Papa Bento XVI é enfático: “A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho salpicado de sofrimento e de amor, de provas e de uma fidelidade que deve se renovar todos os dias” (Audiência 24.05.2006), pois “O Deus misterioso não constitui uma solidão infinita, Ele é um acontecimento de Amor... Agora é nos dado saber: O Espírito Criador tem um Coração” (Homilia de Pentecostes, 2006).


CONTEMPLAR

São Pedro e São Paulo, Ícone Anônimo.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 32 - XIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 32
Leituras para a travessia da vida



A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XIII Domingo do Tempo Comum               26.06.2011
2Rs 4, 8-11.14-16             Rm 6, 3-4.8-11                  Mt 10, 37-42



ESCUTAR

“Façamos para ele, no terraço, um pequeno quarto de alvenaria, onde colocaremos uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro. Assim, quando vier à nossa casa, poderá acomodar-se aí” (2 Rs 4, 10).

“Assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6, 4).

“Quem vos recebe a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10, 40).


MEDITAR

“Jesus quer nos iniciar na verdadeira vida, na arte de viver verdadeiramente. A vida floresce se nós lhe damos tempo e se somos, suficientemente, livres para viver num instante” (Anselm Grün).

“O homem não sabe jamais o que lhe acontecerá amanhã, senão, ele não seria mais livre; sem cessar ele é colocado diante de escolhas a fazer e é ele quem constrói ou destrói a sua existência” (Jean Lafrance).


ORAR

            A primeira leitura deste domingo nos revela que a hospitalidade era uma prática corrente e usual nos povos antigos, pois eram e continuam sendo de vital importância aos olhos de Deus todos os gestos desinteressados de acolhida e caridade feitos pelos que são capazes das virtudes da abertura e do dom.
            O evangelho apresenta a exigência de uma renúncia total, de um seguimento sem reticências, sem volta, e de um amor sem restrições. A comunidade cristã há de ser acolhedora com os que renunciaram a seus privilégios e nestes ver o próprio Cristo e “Aquele que O enviou”. Seguir a Cristo e “tomar a Cruz” implica desprendimentos, renúncias, contrastes e lutas. Nesta travessia, as escolhas são decisivas e o próprio Jesus, na sua prática, fez emergir as contradições e provocou dilaceramentos profundos entre pessoas e grupos: “Esse discurso é bem duro: quem poderá escutá-lo? (Jo 6, 60). As frases deste discurso não são simbólicas, mas revelam a realidade que assistimos ainda hoje em tantos lugares do planeta: o testemunho valente da fé paga-se com perseguição; a denúncia da injustiça pode custar um assassinato; levantar a voz contra os poderosos, em defesa dos pobres, como fizeram tantos cristãos e cristãs, pode ter como prêmio uma rajada de metralhadora e na cabeça, não a auréola do martírio, mas uma etiqueta de subversivo.
Apesar de tudo, muitos cristãos testemunham o seguimento, ao mesmo tempo em que para tantos outros tudo isto parece uma possibilidade remota. Estes, pertencendo a qualquer movimento religioso oficial, têm a sua carreira facilitada por cargos, promoções e carreiras hierárquicas nas igrejas, num estilo de cristianismo de baixo custo que, ao assegurar privilégios e favores, tem pouco a ver com o Cristo.
Jesus nos chama a perder a vida e não a medi-la com cálculos oportunistas. Jesus nos apela a arriscar tudo, a nos entregarmos sem reservas, a nos doarmos apaixonadamente, a nos dispormos a tudo perder por valores que valem mais do que uma vida. Viver o Cristo é viver a vida sem blefar.
O evangelho se encerra com um benéfico “copo de água fresca dado a um desses pequeninos”, desvelando a chave da hospitalidade, sinal indelével do cristão. A hospitalidade oferecida aos profetas, aos poetas, aos considerados marginais é, sem dúvida, a mais difícil porque estas pessoas, como o Cristo, nunca aparecem demasiado recomendáveis segundo as mentalidades dirigentes, sociais e religiosas: “Seus familiares saíram para dominar Jesus, pois diziam que estava fora de si” (Mc 3, 21).
Estar a caminho é condição do seguimento, pois o Evangelho nos impulsiona para outros lugares e os que acolhem e oferecem generosa hospitalidade, sem se importar com outros títulos, fora o de servo, participam do mesmo prêmio que é o do serviço prestado ao próprio Jesus.
Neste domingo, sem maiores especulações e pirotecnias, devemos saber que, certamente, a salvação passa pela Cruz, mas também passa por um copo d’água fresca oferecido com fraternidade e por compaixão.

CONTEMPLAR

Cruz, Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador.

















segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 31 - Santíssima Trindade

O Caminho da Beleza 31
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).


Domingo da Santíssima Trindade           19.06.2011
Ex 34, 4-6.8-9             2 Cor 13, 11-13            Jo 3, 16-18

  
ESCUTAR

“Senhor, Deus compassivo e misericordioso, lento na ira e rico em clemência” (Ex 34, 6).

“Encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13, 11).

“Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).


MEDITAR

“A experiência do Espírito é uma experiência viva, é vida, pois dela alimentamos nossa vida em Deus e nela é que vivemos nossa vida em Deus, de adesão à Palavra e de docilidade ao Pai, no Espírito. Essa vida não é apenas nossa, mas participada por todos aqueles que dizem sim a Deus no fundo do coração. Tem, portanto, o que poderíamos denominar uma dimensão comunitária que lhe é inerente. Não há experiência no Espírito independente da comunidade. É esse, precisamente, o mistério da Igreja.” (Francisco Catão).

“Não é o clero, mas sim a comunidade, a Igreja concretamente reunida, que celebra a Ceia comemorativa na qual o Senhor se faz presente e incorpora os reunidos transformando-os em seu próprio corpo” (Urs von Balthasar).


ORAR

Na tradição oriental a comunidade eclesial é o ícone da Trindade. No entanto, no Ocidente tivemos e temos dificuldade de compreender o mistério trinitário que ficou hipotecado nas abstrações dos teólogos e confinado na atmosfera da metafísica ou ainda sepultado na espessa pátina de pó das bibliotecas. Por esta razão, entre outras, acabamos dando prioridade ao aspecto burocrático, administrativo-institucional da Igreja; na acentuação exasperada dos elementos jurídicos; no empenho para criar aparatos centralizadores que nos conduziram a uma hipertrofia das estruturas; e na diluição do amor fraterno e comunitário em obras sociais de caridade.

O Concílio Vaticano II assume uma expressão de Cipriano e declara que a Igreja é “o povo unido pela unidade mesma do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4) e declara ainda que “todos os homens, aliás, são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, de quem procedemos, por quem vivemos e para quem tendemos” (LG 3).

A Igreja, ao viver o dinamismo vital da Trindade, faz viver o povo de Deus na mais profunda comunicação e comunhão e torna-se, desta maneira, o lugar da visibilidade e da transparência. Não há vitalidade na Igreja sem uma comunidade, pois sem comunhão a comunidade se torna apenas uma casca vazia de substância, uma justaposição de pessoas que nunca serão capazes de criar vínculos profundos entre si. A comunidade eclesial avança e se expande quando a comunhão fraterna se converte em sinal do amor do Pai, revelado pelo Filho e infundado em nossos corações no Espírito.

A comunidade eclesial deve viver esta dança nupcial da Trindade que nos faz participar da explosão de vida que brota desta comunhão pessoal e trinitária na qual o Pai é o Amante que toma a iniciativa; o filho é o Amado, que recebendo o amor do Pai, se entrega totalmente aos seus desígnios; e o Espírito é o Vínculo fecundo do amor celebrado como banquete nupcial do Cordeiro. Um amor calcado na misericórdia e na compaixão do Senhor, cujo nome revelado e proclamado a Moisés é o de um “Deus misericordioso, compassivo, lento na ira e rico em clemência”.

Não podemos ser um contratestemunho deste amor trinitário a nós revelado e derramado em nossos corações. E o damos quando nos intimidamos diante da miséria construída do mundo; quando perdermos a capacidade de indignação diante das injustiças e nos submetemos à crueza de um cotidiano sem horizontes, cravado em nossas instituições de desamor, poder e opressão.

Como nos proclama Paulo: “Assim sereis íntegros e irreprováveis, filhos de Deus sem defeito, em meio a uma geração perversa e depravada diante da qual brilhais como estrelas no mundo, ostentando a mensagem da vida” (Fl 2, 15-16).

A Trindade é a base existencial da vida cristã como um locus amoris – o lugar de amor – onde a palavra e o pão se encontram no e para o banquete nupcial com a Humanidade redimida.

CONTEMPLAR

A Trindade, José de Ribera, c. 1635, óleo sobre tela, 226 x 181 cm, Museu do Prado, Madrid, Espanha.