segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 35 - XVI Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 35
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XVI Domingo do Tempo Comum                17.07.2011
Sb 12, 13.16-19                  Rm 8, 26-27                      Mt 13, 24-43

ESCUTAR
“A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente” (Sb 12, 13).
“E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos nossos santos” (Rm 8, 27).
“Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora” (Mt 13, 25).

MEDITAR
“Sabemos ao menos que não lutamos contra a vida mas por ela, e que a pureza é justamente a resposta da vida, como a impureza é a nossa ignorância e o desprezo por ela (Maurice Zundel, A Ternura de Deus).
 “Não temos nenhum poder sobre o passado e nenhuma ideia do futuro: só nos resta o presente. O instante presente é uma janela aberta para a eternidade, um piscar d’olhos de Deus no qual vivemos. Só podemos atingir Deus no instante presente, neste e no seguinte: é o perpétuo sacramento da presença e da ação de Deus” (Jean Lafrance).

ORAR
            Tudo indica que Deus permaneceu na estação da semeadura, que é a estação da esperança e da paciência e nós ainda insistimos em queimar etapas e nos mantermos na estação da impaciência. O Reino de Deus é sempre um início, um minúsculo e insignificante início. Jesus é, ao mesmo tempo, semeador e semente e este abnegado semeador não hesitará em se converter em grão caído na terra, no sulco manchado de sangue do Calvário para morrer: “Asseguro-vos que, se o grão caído na terra não morrer, ficará só; se morrer, dará muito fruto” (Jo 12, 24).
            O grão de mostarda se converte em árvore e celebra a sua grandeza, não pela sua imponência, mas porque faz viver os pássaros do céu. Jesus nos revela que a política de Deus é a misericórdia e a sua diplomacia, a compaixão. Devemos aprender e a decorar a delicadeza de Deus, a sua solicitude, a sua benevolência e a sua vigilante espera. A parábola do joio é o mais categórico desmentido aos fanatismos, às intolerâncias e às visões apocalípticas. Com a justificativa ilusória de impedir o contágio com o trigo, se propaga a aniquilação pela aparência; com o pretexto de eliminar os galhos secos, matam-se os rebentos verdes neles quase que invisíveis.
            O que devemos temer é a descarada hipocrisia. Com o falso propósito de aniquilar o mal do joio, queremos apenas nos livrar do que nos molesta, nos enfadonha e ameaça as nossas ambições. E, no momento mesmo em que julgamos, condenamos e desprezamos os outros, por nos considerarmos puros, tornamo-nos feixes de erva daninha para serem queimados. Os verdadeiros malvados são os que em vez de empenhar-se no humilde esforço da prática do evangelho, arrogam-se uma tarefa que é da exclusiva competência de Deus: “Quando chegar aquele dia, muitos me dirão: Senhor, Senhor! Não profetizamos em teu nome?, não expulsamos demônios em teu nome?, não fizemos milagres em teu nome? E eu lhes declararei: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, malfeitores” (Mt 7, 22-23).
            Os que nos faz vacilar na fé são certos campeões de uma fé arrogante, presunçosa, afetada, que não aceitam ser confrontados e, por princípio, suspeitam, com atrevida ignorância, dos outros. Deus é paciente porque cuida de todos. A parábola do joio e do trigo nos remete à colheita final: a ninguém é dado antecipar as tarefas e quem não entregar a sua vida pelos outros não tem e nunca terá o direito de julgar ninguém.
            A frase do samba da Estação Primeira da Mangueira sintetiza o evangelho de hoje: “A vida não é só isso que se vê”. Para Ezequiel, o Senhor é um cedro magnífico plantado numa montanha elevada e em sua ramagem se aninharão todas as aves (Ez 17, 22-23). Para Jesus, a vida é mais do que se vê, é o ínfimo grão de mostarda, pequeno e insignificante, a menor de todas as sementes, que ao crescer fica maior do que as outras plantas, uma árvore na qual os pássaros fazem ninhos em seus ramos.
            Oxalá aprendamos, de uma vez por todas, que o Pai de Jesus não se encontra no poder e na superioridade. A sua presença salvadora está no pequeno, no ordinário e no cotidiano.

CONTEMPLAR
Grãos e Ervas Daninhas, James B. Janknegt, 2001, óleo sobre tela, 40” x 30”, Texas, Estados-Unidos.



terça-feira, 5 de julho de 2011

O Caminho da Beleza 34 - XV Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 34
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XV Domingo do Tempo Comum                  10.07.2011
Is 55, 10-11             Rm 8, 18-23                      Mt 13, 1-23

ESCUTAR

“A palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia” (Is 55,11)

“De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus” (Rm 8, 19).

“Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem” (Mt 13, 16).


MEDITAR

“Quando tomamos consciência de que existe em nós o desejo de Deus e o desejo de um além; de um mundo que supera nosso mundo, estamos a ponto de nos reconciliar com a realidade, muitas vezes tão banal, da nossa vida” (Anselm Grün).

“A paciência tem a face tranquila e calma, uma fonte serena sobre a qual nem a tristeza e nem a cólera imprimem rugas; seus olhos se inclinam pelo sentimento da humildade e não da infelicidade; sua boca fechada presta homenagem ao cotidiano do silêncio” (Tertuliano, Livro da paciência, 15).


ORAR

            Vivemos momentos em que a palavra da Igreja tem sido caricaturada, relativizada e, muitas vezes, rejeitada. Muitos se perturbam na sua fé, como nos primeiros tempos do cristianismo, diante da aparente lentidão do avanço do Reino de Deus e dos inúmeros fracassos do anúncio do Evangelho. Apesar de tudo, a palavra de Deus guarda uma eficácia inusitada para os que apresentam um coração disponível.
            O evangelho nos revela que ¾ da semente se reduziram a nada e sugere que a missão de Jesus e de seus seguidores poderá ser frequentemente infrutífera. Mesmo assim, Jesus nos apela a sermos, ao mesmo tempo, semeador e terreno fértil; anunciadores da mensagem e, por sua vez, seus destinatários.
            Nos dias de hoje, devemos semear a esperança e semear com abundância, generosidade, sem cálculos mesquinhos e sem exclusões preconceituosas. Não é tempo de ceifar, mas de semear. Não nos cabe decidir o terreno da semeadura e proclamar de antemão qual o melhor terreno, o mais receptivo, o mais merecedor e o que pode oferecer perspectivas alentadoras. O salmista evoca: “Os que semeiam com lágrimas colhem com júbilo. Indo, ia chorando, levando a sacola de semente; voltando, volta cantando, trazendo seus feixes” (Sl 126, 5-6).
            Como semeadores da Palavra, não podemos estar desiludidos de antemão. É a semente que deve nos consolar e nos encher de alegria, porque não sabemos qual é o bom terreno, quais as circunstâncias favoráveis e o tempo justo para germinar, frutificar e colher.
            Somos também terrenos que devem estar predispostos à acolhida da Palavra e ser fecundados pela chuva benéfica. A Palavra de Deus apenas fica depositada em nós quando não a interiorizamos para que alguma coisa mude em nosso coração e em nosso agir. Ela pode ficar ali dentro, estratificada, inútil, intacta, mas, sobretudo, expressão de uma recusa ou de inúmeras recusas que fazemos ao largo do caminho.
            A Palavra vem mandada pelo Senhor para nos anunciar alguma coisa e nos interpelar a uma resposta que não seja evasiva e nem esteja reduzida a gostos pessoais: “Assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55, 11). Só o Senhor pode prever aonde chegará a semente e o que está destinada a produzir.
            O Evangelho é lúcido ao afirmar que não basta ter olhos e ouvidos: “Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem”. A Criação, como Deus, também está “aguardando a plena manifestação dos filhos de Deus”. Até agora, a Criação tem, tragicamente, pago, as consequências dos nossos descuidos, omissões e indiferenças, frutos da ganância e da voracidade do lucro e da acumulação que desfiguram a obra belíssima saída das mãos de Deus. As dores do parto têm se prolongado até o infinito, porque os filhos de Deus não respondem, nem se revelam porque se escondem e se evadem das suas responsabilidades.
            Jesus encontrou todas as dificuldades e rejeições para semear a sua Palavra e até entre os seus seguidores mais próximos despertava desalento e desconfiança: valia a pena seguir este homem de Nazaré? Não podemos ceder ao desalento, ao contrário, devemos continuar semeando na esperança de que haverá uma colheita abundante.
            Na Igreja de Jesus não precisamos de colhedores de êxito, nem dos que dominam a sociedade, dos que enchem os prédios das igrejas e tentam impor a sua crença religiosa. A Igreja de Jesus precisa de semeadores, dos que semeiam palavras de esperança, gestos de compaixão e abraços de solidariedade. Mais do que nunca, devemos romper a obsessão de colher para o presente e valorizar o trabalho do semear. Jesus nos deixou, como herança, a parábola do semeador e não a parábola do que colhe o que ceifou.


CONTEMPLAR

O Semeador, Edy-Legrand (Edouard Léon Louis Warschawsky), obra a carvão em Bíblia editada por François Amiot e Robert Tamisier, França, 1950.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 33 - São Pedro e São Paulo

O Caminho da Beleza 33
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



São Pedro e São Paulo             03.07.2011
At 12, 1-11               2 Tm 4, 6-8.17-18                        Mt 16, 13-19


ESCUTAR

“O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: ‘Levanta-te depressa!’ As correntes caíram-lhe das mãos. O anjo continuou: ‘Coloca o cinto e calça tuas sandálias!’ Pedro obedeceu” (At 12, 7-8).

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2 Tm 4, 7).

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).


MEDITAR

“O rico avarento é semelhante a um asno carregado de ouro, que só come palha” (Provérbio argelino).

“Pense em Deus com fé, pense no próximo com amor, pense em ti mesmo com humildade” (S. João Bosco).

“Nós devemos nos dar e só nos possuímos à medida do dom que fazemos de nós mesmos. Nós só nos expandimos na gratuidade. Nossa liberdade consiste precisamente viver desta gratuidade, a existir em ação de graças e a passar da servidão ao serviço” (Jean-Guy Saint Arnaud).


ORAR

A Igreja de Jesus, pobre e hospitaleira, nunca poderá estar aprisionada aos grilhões do poder, sejam os da perseguição ou os dos privilégios. Os mistérios foram e são revelados pelo Pai aos pequenos e não aos eruditos ou astutos. Pedro pertence à categoria dos simples seguidores que vivem com o coração aberto. É Jesus quem constrói a Igreja. Ela é sua e Jesus não a constrói sobre a areia. Pedro, como nós, será uma pedra nesta Igreja não por ter a solidez e a firmeza de temperamento. Pedro, honesto e apaixonado, é também inconstante e inconsistente. Seu poder repousa, simplesmente, sobre a sua fé em Cristo.
Pedro é libertado da boca do leão, os dois sustentáculos do poder utilizados, em todo tempo, para a submissão de todos: o Estado e a Religião. Pedro exclama: “Agora eu sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”.
A Igreja de Jesus vive da sua dimensão peregrina diversa e plural. Uma Igreja que durante a sua existência enfrentará situações de dilaceramentos e que nelas forjar-se-á como uma Igreja solidária e portadora da paz para todos os que sofrem perseguição por amor à justiça.
Paulo, o que vive na liberdade do Espírito, revela que a travessia é duelo: combater, completar a corrida e guardar a fé. É a de sermos testemunhas vivas de que, apesar de tudo, somos capazes de manter a lealdade à comunidade fraterna de Jesus na qual aquele que se perde é o que se encontra.
O Concílio Vaticano II vai consagrar a Igreja do Serviço: “Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo, ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido” (Gaudium et Spes, 3).
Devemos ter cuidado ao usarmos metáforas para a Igreja de Jesus, sobretudo a da barca. No final do livro de Atos, todos são salvos não por estarem protegidos na barca, mas pela partilha do pão abençoado na presença de todos, por todos comidos e, por isso, animados, alimentados e saciados. A barca encalhou nas correntes de suas próprias âncoras e, ironia do destino, ficou presa em si e por si mesma (At 27, 41).
A comunidade eclesial deve ser a comunidade concreta de homens e mulheres, a Igreja de Jesus, que vai ao encontro e ao diálogo com todos os outros homens e mulheres do mundo. Uma Igreja pobre, mas rica de compaixão que não faz nas barcas do poder a sua travessia para a vida eterna, pois o Senhor prevenira que destas barcas sobrarão apenas os pedaços espalhados pelo mar da história.
O Papa Bento XVI é enfático: “A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho salpicado de sofrimento e de amor, de provas e de uma fidelidade que deve se renovar todos os dias” (Audiência 24.05.2006), pois “O Deus misterioso não constitui uma solidão infinita, Ele é um acontecimento de Amor... Agora é nos dado saber: O Espírito Criador tem um Coração” (Homilia de Pentecostes, 2006).


CONTEMPLAR

São Pedro e São Paulo, Ícone Anônimo.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 32 - XIII Domingo do Tempo Comum

O Caminho da Beleza 32
Leituras para a travessia da vida



A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



XIII Domingo do Tempo Comum               26.06.2011
2Rs 4, 8-11.14-16             Rm 6, 3-4.8-11                  Mt 10, 37-42



ESCUTAR

“Façamos para ele, no terraço, um pequeno quarto de alvenaria, onde colocaremos uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro. Assim, quando vier à nossa casa, poderá acomodar-se aí” (2 Rs 4, 10).

“Assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6, 4).

“Quem vos recebe a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10, 40).


MEDITAR

“Jesus quer nos iniciar na verdadeira vida, na arte de viver verdadeiramente. A vida floresce se nós lhe damos tempo e se somos, suficientemente, livres para viver num instante” (Anselm Grün).

“O homem não sabe jamais o que lhe acontecerá amanhã, senão, ele não seria mais livre; sem cessar ele é colocado diante de escolhas a fazer e é ele quem constrói ou destrói a sua existência” (Jean Lafrance).


ORAR

            A primeira leitura deste domingo nos revela que a hospitalidade era uma prática corrente e usual nos povos antigos, pois eram e continuam sendo de vital importância aos olhos de Deus todos os gestos desinteressados de acolhida e caridade feitos pelos que são capazes das virtudes da abertura e do dom.
            O evangelho apresenta a exigência de uma renúncia total, de um seguimento sem reticências, sem volta, e de um amor sem restrições. A comunidade cristã há de ser acolhedora com os que renunciaram a seus privilégios e nestes ver o próprio Cristo e “Aquele que O enviou”. Seguir a Cristo e “tomar a Cruz” implica desprendimentos, renúncias, contrastes e lutas. Nesta travessia, as escolhas são decisivas e o próprio Jesus, na sua prática, fez emergir as contradições e provocou dilaceramentos profundos entre pessoas e grupos: “Esse discurso é bem duro: quem poderá escutá-lo? (Jo 6, 60). As frases deste discurso não são simbólicas, mas revelam a realidade que assistimos ainda hoje em tantos lugares do planeta: o testemunho valente da fé paga-se com perseguição; a denúncia da injustiça pode custar um assassinato; levantar a voz contra os poderosos, em defesa dos pobres, como fizeram tantos cristãos e cristãs, pode ter como prêmio uma rajada de metralhadora e na cabeça, não a auréola do martírio, mas uma etiqueta de subversivo.
Apesar de tudo, muitos cristãos testemunham o seguimento, ao mesmo tempo em que para tantos outros tudo isto parece uma possibilidade remota. Estes, pertencendo a qualquer movimento religioso oficial, têm a sua carreira facilitada por cargos, promoções e carreiras hierárquicas nas igrejas, num estilo de cristianismo de baixo custo que, ao assegurar privilégios e favores, tem pouco a ver com o Cristo.
Jesus nos chama a perder a vida e não a medi-la com cálculos oportunistas. Jesus nos apela a arriscar tudo, a nos entregarmos sem reservas, a nos doarmos apaixonadamente, a nos dispormos a tudo perder por valores que valem mais do que uma vida. Viver o Cristo é viver a vida sem blefar.
O evangelho se encerra com um benéfico “copo de água fresca dado a um desses pequeninos”, desvelando a chave da hospitalidade, sinal indelével do cristão. A hospitalidade oferecida aos profetas, aos poetas, aos considerados marginais é, sem dúvida, a mais difícil porque estas pessoas, como o Cristo, nunca aparecem demasiado recomendáveis segundo as mentalidades dirigentes, sociais e religiosas: “Seus familiares saíram para dominar Jesus, pois diziam que estava fora de si” (Mc 3, 21).
Estar a caminho é condição do seguimento, pois o Evangelho nos impulsiona para outros lugares e os que acolhem e oferecem generosa hospitalidade, sem se importar com outros títulos, fora o de servo, participam do mesmo prêmio que é o do serviço prestado ao próprio Jesus.
Neste domingo, sem maiores especulações e pirotecnias, devemos saber que, certamente, a salvação passa pela Cruz, mas também passa por um copo d’água fresca oferecido com fraternidade e por compaixão.

CONTEMPLAR

Cruz, Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador.

















segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 31 - Santíssima Trindade

O Caminho da Beleza 31
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).


Domingo da Santíssima Trindade           19.06.2011
Ex 34, 4-6.8-9             2 Cor 13, 11-13            Jo 3, 16-18

  
ESCUTAR

“Senhor, Deus compassivo e misericordioso, lento na ira e rico em clemência” (Ex 34, 6).

“Encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13, 11).

“Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).


MEDITAR

“A experiência do Espírito é uma experiência viva, é vida, pois dela alimentamos nossa vida em Deus e nela é que vivemos nossa vida em Deus, de adesão à Palavra e de docilidade ao Pai, no Espírito. Essa vida não é apenas nossa, mas participada por todos aqueles que dizem sim a Deus no fundo do coração. Tem, portanto, o que poderíamos denominar uma dimensão comunitária que lhe é inerente. Não há experiência no Espírito independente da comunidade. É esse, precisamente, o mistério da Igreja.” (Francisco Catão).

“Não é o clero, mas sim a comunidade, a Igreja concretamente reunida, que celebra a Ceia comemorativa na qual o Senhor se faz presente e incorpora os reunidos transformando-os em seu próprio corpo” (Urs von Balthasar).


ORAR

Na tradição oriental a comunidade eclesial é o ícone da Trindade. No entanto, no Ocidente tivemos e temos dificuldade de compreender o mistério trinitário que ficou hipotecado nas abstrações dos teólogos e confinado na atmosfera da metafísica ou ainda sepultado na espessa pátina de pó das bibliotecas. Por esta razão, entre outras, acabamos dando prioridade ao aspecto burocrático, administrativo-institucional da Igreja; na acentuação exasperada dos elementos jurídicos; no empenho para criar aparatos centralizadores que nos conduziram a uma hipertrofia das estruturas; e na diluição do amor fraterno e comunitário em obras sociais de caridade.

O Concílio Vaticano II assume uma expressão de Cipriano e declara que a Igreja é “o povo unido pela unidade mesma do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4) e declara ainda que “todos os homens, aliás, são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, de quem procedemos, por quem vivemos e para quem tendemos” (LG 3).

A Igreja, ao viver o dinamismo vital da Trindade, faz viver o povo de Deus na mais profunda comunicação e comunhão e torna-se, desta maneira, o lugar da visibilidade e da transparência. Não há vitalidade na Igreja sem uma comunidade, pois sem comunhão a comunidade se torna apenas uma casca vazia de substância, uma justaposição de pessoas que nunca serão capazes de criar vínculos profundos entre si. A comunidade eclesial avança e se expande quando a comunhão fraterna se converte em sinal do amor do Pai, revelado pelo Filho e infundado em nossos corações no Espírito.

A comunidade eclesial deve viver esta dança nupcial da Trindade que nos faz participar da explosão de vida que brota desta comunhão pessoal e trinitária na qual o Pai é o Amante que toma a iniciativa; o filho é o Amado, que recebendo o amor do Pai, se entrega totalmente aos seus desígnios; e o Espírito é o Vínculo fecundo do amor celebrado como banquete nupcial do Cordeiro. Um amor calcado na misericórdia e na compaixão do Senhor, cujo nome revelado e proclamado a Moisés é o de um “Deus misericordioso, compassivo, lento na ira e rico em clemência”.

Não podemos ser um contratestemunho deste amor trinitário a nós revelado e derramado em nossos corações. E o damos quando nos intimidamos diante da miséria construída do mundo; quando perdermos a capacidade de indignação diante das injustiças e nos submetemos à crueza de um cotidiano sem horizontes, cravado em nossas instituições de desamor, poder e opressão.

Como nos proclama Paulo: “Assim sereis íntegros e irreprováveis, filhos de Deus sem defeito, em meio a uma geração perversa e depravada diante da qual brilhais como estrelas no mundo, ostentando a mensagem da vida” (Fl 2, 15-16).

A Trindade é a base existencial da vida cristã como um locus amoris – o lugar de amor – onde a palavra e o pão se encontram no e para o banquete nupcial com a Humanidade redimida.

CONTEMPLAR

A Trindade, José de Ribera, c. 1635, óleo sobre tela, 226 x 181 cm, Museu do Prado, Madrid, Espanha.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Caminho da Beleza 30 - Pentecostes

O Caminho da Beleza 30
Leituras para a travessia da vida



A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).


Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Domingo de Pentecostes                     12.06.2011
At 2, 1-11                 1 Cor 12, 3b.7.12-13                    Jo 20, 19-23


ESCUTAR

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (At 2, 4).

“A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 7)

“A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,22-23).


MEDITAR

“Se ao invés de nos entregarmos a uma comédia imaginária de Pentecostes, obedecermos ao Cristo e ao Espírito, talvez as multidões gritem: ‘Aos leões os cristãos’; ‘À morte!’; ‘Aos campos de concentração!’” (Cardeal Lustiger).

“Os verdadeiros servidores de Deus sempre estimaram suas adversidades. Elas estão em conformidade com o caminho percorrido por nosso Senhor, pois foi pela cruz e os opróbios sofridos que Ele nos salvou” (Pe. Pio).


ORAR

            Com frequência tentamos administrar o Espírito, coisificá-lo e regrá-lo. Deveríamos, ao menos uma vez, acolher o Espírito como elemento de desordem, de improvisação, de verdadeira inspiração, de desajuste das regras fixadas e portador de coisas jamais vistas, ouvidas e antes experimentadas. Tenhamos a coragem e a ousadia de nos deixarmos habitar pelo vento e pelo fogo.
            O Espírito vem acender uma paixão e surpreender a todos, transformando-os em enamorados capazes de palavras apaixonadas. O Espírito produz entre nós um impulso, uma vibração, um entretenimento, uma comoção e um gesto de liberdade.
            Neste domingo, devemos nos deixar inebriar pelo perfume e nos permitir ser invadidos pela alegria de viver e nos surpreender pela variedade dos dons do Espírito que, na sua prodigalidade, os distribui por todas as partes e a todos sem pedir, de antemão, nenhuma autorização. O Espírito, vento e fogo, brinca, se diverte, ri da nossa seriedade e sisudez. E este Espírito, vento e fogo, tem uma característica em comum: é incontrolável e imprevisível e deixa a todos, como os apóstolos, fora de si: “Todos ficaram confusos, cheios de espanto e admiração, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2, 6).
            A Igreja de Jesus só despertará entusiasmo se anunciar as maravilhas de Deus que vira tudo do avesso, como cantou Maria em seu Magnificat. Os seguidores de Jesus devem ser ousados e capazes de ultrapassar as fronteiras em busca de novos horizontes. Os homens de Pentecostes surpreenderam, não porque apareceram comedidos, discretos e ajustados, mas porque apareceram excessivos: um pouco loucos e poetas.
            O vento irrompe barulhento na casa e coloca para fora os seus ocupantes. O Espírito de Jesus arranca o medo, destrói a angústia e abre as portas que jamais deverão ser trancadas novamente. Impele os seus seguidores ao confronto cotidiano em que deverão testemunhar a vida nova e não mais a capitular em seus sonhos e nem a se acomodar na esterilidade passiva dos que buscam certezas e seguranças. O teólogo von Balthasar adverte: “Se o Espírito não tivesse vindo, o mundo e a Igreja nunca teriam compreendido que a causa do judeu de Nazaré crucificado era algo mais que um assunto provinciano e historicamente sem importância”.
            Pentecostes nos faz saber que todas as formas organizacionais, todos os nossos conteúdos programáticos estarão sempre em processo de mudança. O Espírito da Liberdade assim o quer e assim o faz, pois só ele é absoluto e definitivo na distribuição infinita e plural de dons e carismas para a construção do Bem Comum. E o Concílio Vaticano II assegura que “Deus também não está longe daqueles que o buscam como a um desconhecido, por meio de suas sombras e imagens, pois a todos dá vida, inspiração e tudo o mais (At 17, 25-28) e, como salvador, os quer salvar a todos (1 Tm 2, 4)” (LG 16).
            Jesus nos falou de uma blasfêmia e de um pecado contra o Espírito que não terá perdão. Este pecado misterioso não será, por acaso, ignorar o movimento do Espírito e termos pavor de nos queimar com o seu fogo e sermos arrastados, ao deus dará, pelo seu vento? Esta blasfêmia não será a de Lhe conceder apenas uma sutil e controlada rachadura nos muros do coração em lugar de portas e janelas abertas no corpo inteiro para que entrem o vento e o fogo?
            Não será o pecado sem perdão o de ficar em casa tiritando de frio e pretender se aquecer, estendendo as mãos sobre uma chama de faz-de-conta pintada na parede do quarto?
            Finalmente, não será um pecado sem perdão e uma blasfêmia irreparável a de sempre apregoarmos a coragem cristã sem nunca termos tentado oferecer ao Espírito, ao menos a outra metade do espaço interior que sempre preenchemos com o medo e a angústia? Não será a covardia de falarmos sempre de Pentecostes sem jamais termos nos abandonado à sua embriaguez?
            Meditemos as palavras de São Basílio Magno, do século IV: “Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus. Dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado”.



CONTEMPLAR

Pentecost, Andrew Wyeth, 1989, têmpera, 20,75” x 30,625”, Coleção Particular, Estados-Unidos.



terça-feira, 31 de maio de 2011

O Caminho da Beleza 29 - Ascensão do Senhor

O Caminho da Beleza 29
Leituras para a travessia da vida



A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Ascensão do Senhor                  05.06.2011
At 1, 1-11                  Ef 1, 17-23               Mt 28, 16-20


ESCUTAR

“Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo (...) ‘Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?’” (At 1, 9.11).

“Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar à sua direita nos céus” (Ef 1, 20).

“Ide ao mundo inteiro... Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).


MEDITAR

“A pessoa humana é o valor absoluto para Deus porque ela O contém. Na verdade, é um grande mistério: Deus entre os homens, Deus com eles, Deus neles. Nossa dignidade é de Lhe pertencer. Desde o Natal, somos construídos com a mesma matéria do Reino” (Françoise Burtz).

“O que conta não é o que damos, mas o amor com que damos” (Madre Teresa de Calcutá).


ORAR

O evangelista Mateus permanece fiel ao seu tema de fundo anunciado desde o início do seu evangelho: Deus Conosco. A impossibilidade, de agora em diante, de ver o Cristo com nossos olhos, substancialmente não muda nada, pois Deus continua conosco. Não devemos pensar que a dinâmica de Jesus é a de uma chegada, de uma permanência e de uma partida. A dinâmica de Jesus é a de uma chegada e a de uma presença continuada ainda que de formas diversas.
Não é mais Jesus quem atua fisicamente entre nós. Jesus nos pede que façamos e anunciemos a sua presença no meio de nós. A frase chave é “Ide e fazei!”. Neste domingo não comemoramos a “partida” do Mestre, mas a nossa partida, pois somos nós que devemos garantir a sua presença no mundo. Há uma solene investidura: é urgente partir uma vez que o Evangelho deve começar a sua aventura no mundo. A promessa de que o Cristo estará conosco “todos os dias, até o fim do mundo”, desafia a sua Igreja a não banalizar esta presença eficaz e obscurecê-la. Somos chamados a nos encarnar, ou seja, ser uma carne real numa história real; a realizar a missão de anunciar a Boa Nova do Reino; a carregar os pecados do mundo sem ficar, de fora, olhando o que acontece aos seres humanos; e finalmente, ressuscitar dando a todos um quinhão de vida, esperança e gozo.
A missão da Igreja de Jesus se inicia com uma partida. Não se trata de multiplicar viagens e atividades, mas dar intensidade e visibilidade evangélica à própria existência. O princípio estruturante da Igreja deve ser o mesmo da vida de Jesus: a misericórdia. É a misericórdia que deve atuar na Igreja de Jesus e configurá-la.
Não somos chamados a construir uma comunidade como recordação e ficarmos parados olhando para o céu, pois esta atitude pode nos conduzir a buscar em lugares equivocados e nos emperrar o caminho: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?”(Lc 24, 5). Não se trata de congelar lugares especiais e criar peregrinações, mas descobrir juntos, num ponto qualquer do mundo, o lugar e o rosto em que Jesus está presente na terra.
A ascensão é um apelo para seguir agindo e esperando apesar das decepções, desenganos e desalentos que nos ameaçam. Somos chamados a “remir os tempos porque os dias são maus” (Ef 5, 16), a ter paciência “até que venha o Senhor” (Tg 5, 7), a resistir como Jó para conhecer “o desfecho que Deus lhe proporcionou, pois o Senhor é compassivo e misericordioso” (Tg 5, 11) e testemunhar que “a paciência engendra a esperança” (Rm 5,4).
Entre o dom do Espírito Santo e o acontecimento definitivo do Reino existe uma espera que é o tempo do testemunho e de proclamar a Boa Nova a toda Humanidade. O evangelho começa e termina em Jerusalém. Os Atos começam em Jerusalém e terminam em Roma, ponto de encontro de todos os caminhos do mundo conhecidos na época. O Novo Testamento ultrapassa as fronteiras de Israel e o céu de Jesus é a participação plena na vida do Amor e na construção de comunidades que amam e se colocam abertas ao mundo, servindo a todos sem discriminação. Uma Igreja samaritana marcada e animada pelo princípio da misericórdia é a que deve ser presença no mundo de hoje.
Que neste domingo tenhamos a lucidez de proclamar que o Espírito de Jesus não é privilégio dos cristãos, mas de todos os homens e mulheres: “De fato, todos nós judeus ou gregos, escravos ou livre, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo e todos nós bebemos de um único e mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13).



CONTEMPLAR

Ascensão, Salvador Dalí, 1958, óleo sobre tela, 115 x 123 cm, Coleção Simon Perez, México.