segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Caminho da Beleza 23 - Semana Santa


Cruz (detalhe), Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador.


O Caminho da Beleza 23
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



Domingo de Ramos                   17.04.2011
Is 50, 4-7                 Fl 2, 6-11                 Mt 27, 11-54


ESCUTAR

“O Senhor Deus deu-me língua adestrada para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50, 4)

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

“Senhor, nós nos lembramos de que quando este impostor ainda estava vivo, disse: ‘Depois de três dias eu ressuscitarei!’ Portanto, manda guardar o sepulcro até o terceiro dia para não acontecer que os discípulos venham roubar o corpo e digam ao povo: ‘Ele ressuscitou dos mortos!’ pois essa última impostura seria pior do que a primeira” (Mt 27, 62-64).


MEDITAR

“O Logos, que em si não podia morrer, assumiu um corpo que podia morrer, para oferecê-lo por todos. Após o pecado teríamos de alcançar de novo a graça, não de dentro, mas em união com o corpo. A redenção não é uma simples eliminação do pecado, mas acontece mediante uma superabundância de vida, mediante o sangue e o sacrifício deste Deus encarnado” (Atanásio, Da encarnação).

“O engajamento de Deus pelo homem é tão definitivo que toda objeção contra a ordem do mundo e a Providência está reduzida ao silêncio. O Novo Testamento é um livro em que a alegria é capaz de abranger, novamente, mesmo o sofrimento mais extremo: o abandono de Deus por Deus” (Urs Von Balthasar, O engajamento de Deus).


ORAR

            A existência de Jesus encontra a sua razão de ser no Sim prévio aos desígnios do Pai. Toda a sua vida e o seu empenho repousam sobre um pacto permanente entre Ele e o Pai. No entanto, ao chegar a hora esperada se produz a entrada nas trevas: a fonte paternal se cala; o Pai sempre presente se retira; sua luz se extingue e o Filho que carrega o pecado do mundo se vê abandonado. Paradoxalmente, somente alguém tão inseparavelmente próximo do Pai, como o Filho, expressão de uma presença e união indestrutíveis, pode experimentar tal abandono.
            Desde a ressurreição de Lázaro, os inimigos de Jesus decidiram a sua morte e Ele, que até então se esquivara do entusiasmo das massas, vai aceitar, deliberadamente, ser acolhido como um rei, um messias e um grande profeta. Ele quer se deixar reconhecer como tal, pois a sua hora soou: Ele é o Senhor e não há mais nada a perder.
            A mula era outrora a montaria dos chefes de Israel antes de Davi. Era a montaria do povo miúdo. Posteriormente, foi suplantada pelo cavalo que era a montaria dos ricos e o sinal do chefe militar. Jesus é um rei pacífico cujo reino não tem nenhuma pretensão de dominação. A multidão aclama Jesus, como o salmo 118 cantado na festa das Tendas que tem um significado messiânico: “Bendito em nome do Senhor aquele que vem! Nós vos abençoamos desde a casa do Senhor. O Senhor é Deus, ele nos ilumina. Ordenai uma procissão com ramos até os ângulos do altar. Tu és meu Deus, eu te dou graças, Deus meu, eu te exalto. Dai graças ao Senhor porque é bom, porque é eterna sua misericórdia” (Sl 118, 24-29). Os hosanas pedem e desejam que o Messias arme a sua tenda no meio do seu povo e o seu entusiasmo vinha dos que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro. A multidão aclama aquele que venceu a morte.
            Na sua hora, Jesus é abandonado por seus discípulos que dormem. O único vínculo com o Pai, que persiste, está centrado no cálice: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice. Mas não se faça a minha vontade e sim a tua” (Lc 22, 42). Este não-sim é todo o vínculo restante com o Pai. Um vínculo que, ao final, vivenciará somente na Cruz como abandono de Deus.
            Jesus deu um sentido à sua morte ao dizer que não havia maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos e se esta frase é verdadeira, então é imperativo que Ele morra. Três dias mais tarde esta mesma frase iluminará os peregrinos do caminho de Emaús: “Como sois insensatos e lentos para crer em tudo o que disseram os profetas! Não tinha o Messias de sofrer isso para entrar em sua glória?” (Lc 24, 25-26). E entrar na glória é revelar o amor de Deus.
            Neste domingo de Ramos, devemos ter a lucidez, como comunidade eclesial, que o pecado é essencialmente o medo do futuro e uma tentativa desesperada para impedir o seu advento. E o Cristo nos evoca, com a sua entrega de amor, que a libertação do pecado consiste em sermos fulminados pela coragem da esperança: “No mundo passareis tribulações; mas tende ânimo, pois eu venci o mundo” (Jo 16, 33).


CONTEMPLAR

Ingresso em Jerusalém, Duccio di Buoninsegna, painel de Maestà, 1309-1311, Museu dell'Opera del duomo, Siena, Itália.




Quinta Feira Santa                    21.04. 2011
Ex 12, 1-8.11-14                 1 Cor 11, 23-26                  Jo 13, 1-15


ESCUTAR

“Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é Páscoa, isto é, a ‘Passagem’ do Senhor!” (Ex 12, 11).

“Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Cor 11, 26).

“Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos laveis os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13, 14-15).


MEDITAR

“Aquele que está coberto com o manto de luz, se despoja do manto que estava vestido. Aquele que cinge o céu com nuvens amarra um pano branco na cintura. Aquele que faz correr a água dos lagos e dos rios verte a água na bacia. Ele, diante do qual ‘todo joelho se dobra no céu, na terra e nos abismos’ lava ajoelhado os pés dos seus discípulos. Ele não ofende a sua dignidade, mas mostra seu imenso amor pelos homens” (Severiano de Gabala, Homilia sobre o Lava-pés).

“A cruz é o início da liberdade do homem frente a Deus. Abdicando da sua potência, Deus revela que Ele é apenas amor e é o amor que salva da morte” (Joseph Moingt).


ORAR

            Jesus testemunha que o Senhor é o Servidor de todos e por esta razão veio “não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate por todos” (Mc 10, 45). Jesus nos ama porque simplesmente nos ama, sem nenhuma outra razão além de ser, Ele mesmo, o próprio Amor.
 Jesus assume a posição humilde à revelia do que era legislado pelas autoridades religiosas judaicas: evitar que escravos de origem israelita fizessem o trabalho penoso e humilhante de tirar as sandálias de seu senhor ou lavar os seus pés: “Se um irmão teu se arruinar e se vender a ti, não o tratarás como escravo, mas como diarista ou empregado” (Lev 25, 39). Ao contrário da hospitalidade judaica, que oferecia água para os hóspedes lavarem a poeira de seus pés antes de sentarem-se à mesa, Jesus faz o gesto no meio da ceia para marcar o seu significado espiritual: a pureza que o homem não pode adquirir por si mesmo, porque vem de Deus, pois é Deus que toma a iniciativa. Jesus lava os pés dos que serão portadores da sua Palavra cumprindo o profetizado por Isaías: “Como são belos os pés dos que anunciam a Boa Nova” (Is 52, 7).
Um dos primeiros sentidos que Jesus dá à sua morte é o de uma nova gênese. Seu sacrifício vai inaugurar uma nova criação, instaurar uma nova ordem em que os valores serão virados do avesso e as hierarquias tomarão outro sentido: serem um serviço de amor fraterno recíproco. Nesta recriação de uma humanidade nova regenerada pela Cruz, poderemos ainda descobrir a presença de Satanás que reside no espírito de Judas, o traidor. Pedro se nega num primeiro momento e se arrepende no segundo; Judas não suporta a profunda auto-humilhação daquele que se apresentava como Mestre e Senhor.
            Nesta tarde, celebramos este pão partido que resume a história inteira do mundo: um grão de trigo que germina na terra e que a vitalidade da terra, da água, do ar e dos raios do sol transforma em talo verde, em espiga dourada. Celebramos a água, o fogo, o suor de muitos homens e mulheres que transformaram este grão de trigo em pão. E o pão se transforma em nosso corpo e no corpo de Jesus quando a sua memória nos une.
            O vinho que celebramos hoje representa a agridoce história da vida: após um largo inverno, nos retorcidos troncos da cepa brotarão alguns tenros rebentos. O céu e a terra os converterão em uva e vinho para celebrar o amor e aliviar as penas. Este vinho se converterá no próprio Jesus quando nos reunirmos para celebrar a vida, pois Jesus é a própria vida.
            Nesta tarde, cubramos o nosso coração com as palavras de Edith Stein: “Na boca do Cristo, as antigas fórmulas da benção se tornaram uma palavra criadora de vida. Os frutos da terra se tornaram sua carne e seu sangue cheios de vida. A criação visível no seio da qual Ele já penetrou pela Encarnação Lhe é agora unida de uma maneira nova e misteriosa. As substâncias que servem ao crescimento do corpo humano são radicalmente transformadas: tornam-se participantes da vida do Cristo e plenos de sua vida divina” (in Source cachée).


CONTEMPLAR

Lava-pés e última ceia, Anônimo.




Sexta Feira da Paixão                         22.04.2011
Is 52, 13-53,12          Hb 4, 14-16; 5, 7-9              Jo 18, 1-19, 42


ESCUTAR

“Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 52, 5).

“Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4, 16).

“Tudo está consumado” (Jo 19, 29).


MEDITAR

“Eis os mistérios terríveis da batalha deste dia, os assustadores troféus da guerra contra o inferno; a indescritível destruição total do antigo tirano. Maior do que poderíamos esperar, é a vitória que tem alcançado por nós Aquele que assumiu a nossa carne. Pois, morto ele lutou contra a morte; Deus forte e poderoso destruirá o inferno” (Proclus de Constantinopla, Discurso para a Páscoa).

“O Deus que se revela na cruz não é um Deus que quer o sofrimento do homem, mas um Deus capaz de aceitá-lo em si mesmo para que desapareça para sempre da existência humana. Um Deus que não está diante do Crucificado enviando-lhe provas, purificações ou castigos, mas um Deus que está ao lado dele, sofrendo com ele e preparando já a sua ressurreição e felicidade definitiva” (José Antonio Pagola, É bom ter fé).


ORAR

            O texto do profeta Isaías constitui a página mais misteriosa e mais perturbadora da Antiga Tradição. No início, ele proclama a vitória do Servo: “Ei-lo, o meu servo será bem sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau”.  A tradição judaica reconhece na figura do Servo Sofredor a personificação do Israel humilhado, exilado, assassinado, mas que o Senhor faz recuperar a liberdade e a glória, exaltando-o como testemunho diante das nações. Para a tradição cristã, este texto perde o seu caráter coletivo para uma interpretação pessoal: é uma antecipação da Paixão do Cristo e um anúncio velado da sua Ressurreição.
O profeta faz uma autocrítica: “Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz e suas feridas o preço da nossa cura”. A narrativa do profeta nos evoca a paixão de Jesus: “Foi maltratado e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca. Foi atormentado pela angústia e foi condenado”. Na sua obra “Paixão segundo São Mateus”, Bach invoca a atitude exemplar de Jesus: “também na adversidade devemos, como ele, permanecer em silêncio na perseguição” (Recitativo 40).
            Jesus anuncia a sua Paixão e se apóia nas Escrituras. Os evangelistas referendam a Sua fala: “Este é o meu corpo, que é entregue por vós” (Lc 22, 19) e “Este é o meu sangue da aliança, que se derrama por todos para o perdão dos pecados” (Mt 26, 28).
 Esta entrega dilacerante torna-se um hino comovente pela inspiração de Bach: “Ó fronte ensangüentada e ferida, dolorida e escarnecida! Ó fronte ferida, para zombaria, por uma coroa de espinhos! Ó fronte, antes belamente adornada, com a mais alta das honras e agora assim atacada: Eu te saúdo! Tu, nobre rosto, ante o qual teme e treme o juízo final, de que forma cospem sobre ti! Quão lívido estás! Quem apagou de forma tão infame a luz sem igual dos teus olhos?” (Coral 63).
            Jesus Crucificado se revela como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, pois “entregou o corpo à morte sendo contado como um malfeitor; ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores”. O profeta termina a sua poesia como a começou, por uma proclamação do Senhor exaltando o seu Servo: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita” e por esta razão nenhuma esperança é sepultada. O élan vital se incendeia no escuro da noite, repousa apenas a grande luz que sabe ser procurada e amada até a madrugada de domingo em que se consuma a nova Criação e as novas Bodas do Cordeiro. Bach empresta do Cântico dos cânticos a poesia do encontro a ser vingado: “Aonde foi o teu amado, ó tu a mais bela dentre as mulheres? Para onde se encaminhou o teu amado? Queremos ajudar-te a buscá-lo” (Coro 36).
            Nesta tarde surda não podemos passar ao largo da Cruz destes homens e mulheres crucificados com o Cristo e cuja aparência de feiúra os torna desprezados pelos cristãos asseados que freqüentam os cultos e se acreditam justos de mãos limpas.
            Na hora da nossa morte, como a de Jesus, peçamos com a poesia de Bach: “Quando eu tiver de partir, não te afastes de mim! Quando eu tiver de sofrer a morte, vem para o meu lado! Quando meu coração estiver invadido pelos maiores temores, arrebata-me da minha aflição com tua angústia e a tua pena! (Coral 72)
            Mais do que nunca é preciso saber que Jesus se fez pão: “Eu sou o pão vivo descido do céu” (Jo 6, 51) e que, se fará, agora e sempre, o Caminho que nos conduzirá à Verdade e à Vida (Jo 14, 6).


CONTEMPLAR

Agnus Dei, Francisco de Zubaran, 1635-40, óleo sobre tela, 38 x 62 cm, Museu Nacional do Prado, Madri, Espanha.



Sábado Santo                   23.04.2011
Gn1, 1-2;Ex 14, 15-15; Ez 36, 16-17a.18-28          Rm 6, 3-11           Mt 18, 1-10


ESCUTAR

“Ó noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir da morte, vencedor: de que nos valeria ter nascido, se não nos resgatasse em seu amor?” (Proclamação da Páscoa).

“Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele” (Rm 6, 8-9).

“Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava” (Mt 28,6).


MEDITAR

“Agora a Palavra desce para a Serpente. A pequena Criança que nos nasceu e nos foi dada, desce na cova da áspide, a estrangula e a mata reduzindo a nada sua violência e o seu orgulho. Agora os infernos se tornam céu, o Hades está cheio de luz, as trevas que outrora amedrontavam se afastaram e os cegos recuperam a visão. Pois o Sol levante, Luz do alto apareceu aos que permaneciam nas trevas e na sombra da morte” (João Damasceno, Homilia para o Sábado Santo).

“Ele ressuscitou não para mostrar que deixa definitivamente o túmulo de nossa terra, mas para provar que mesmo este túmulo dos mortos que é a terra e o corpo do homem estão definitivamente transformados na morada esplêndida e incomensurável do Deus vivo e da alma do Filho em que habita a plenitude da divindade” (Karl Rahner).


ORAR

            O sábado santo é o único dia do vazio litúrgico do ano. A Igreja observa o luto e não celebra a Eucaristia, sacramento da presença do Cristo. Jesus se deixou vencer pela morte para ser tragado com ela nas profundezas mais secretas do mundo para fazer germinar aí o princípio da sua vida divina. Neste momento, Ele começa a transformar o mundo nisto que é Ele mesmo. Nasce uma segunda vez como criança da terra, mas de uma terra transfigurada, liberada e libertada de todo limite; de uma terra que Nele encontra sua base eterna, pois está para sempre livre dos grilhões da morte e da vaidade.
            Quando nos esvaziamos há lugar em nós para a ação de Deus e nesta noite de sábado há alguma coisa a ver e a receber: o Dom mais forte do que a Morte.
            O monge trapista Luc, 82 anos, do mosteiro de Notre Dame de l’Atlas, em Thibirine, na Argélia, antes de ser martirizado após cinqüenta e oito dias de angústia e tortura, e degolado, em 1996, com mais seis dos seus irmãos, escrevera: “A troca da nossa parte é somente o dom. O retorno do dom não depende de nós e é nisto que se arrisca a fé, o salto no vazio. Perder a sua vida é ter a lucidez de que o Cristo não existe para si próprio e é, por esta razão, que encontramos a nossa salvação existindo para Ele, ou seja, para seus irmãos que são também nossos irmãos”.
            Esta passagem da noite à luz exprime a fé no Cristo que passa da morte à vida e torna-se a nossa Luz. Este é o sentido da vigília pascal: uma esperança confiante do Cristo preparada ao longo de três grandes noites: a da Criação, a de Abraão e a da saída do Egito. Escrevia o monge Luc: “Minha única defesa é uma Esperança cega em Deus. É preciso saber a travessia depois morrer e que isso seja, em plena lucidez, na paz do Cristo e no amor aos homens. Deus nos conduz pela mão. A peregrinação continua. Adiante de nós, o Cristo carregando a sua cruz nos mostra o caminho e que no seu término brilha a luz pascal da Ressurreição”.
            A liturgia desta noite nos reafirma a grandeza de Sua presença hoje. Devemos nos deixar impregnar desta generosidade narrativa das imagens e permitir que o Espírito de Deus possa agir profundamente em nosso ser. Tantas vezes sufocamos este Espírito e esta generosa liberdade para nos mantermos nas trevas da segurança e da acomodação.
            “Alegrai-vos!” e “Não temais!” são as palavras de ordem que nos devolvem a esperança e nos arrancam da demissão da vida. Jesus, nesta noite de sábado, nos convida a passar do costume de si para a descoberta de si e nos faz saber que não é o caminho percorrido e nem as suas palavras repetidas que marcam o seguimento, mas o testemunho que oferecemos e damos pela prática do amor fraterno. É este testemunho que destrói o ciclo da morte e nos abre o caminho da Luz.
            Nesta noite de vigília, precisamos ter a esperança de que uma luz grandiosa, que iluminará o mundo, está prestes a nascer das profundezas da noite. É preciso vigiar na esperança para que não morramos um minuto antes de que tudo aconteça. Nesta noite é preciso ser profeta da luz: “Vigia, o que resta da noite? Vigia o que resta da noite? O vigia responde: Virá a manhã e também a noite. Se quereis perguntar, perguntai, vinde outra vez”(Is 21, 11-12).
            Meditemos as palavras de Fr. Christophe, martirizado em Thibirine: “Ora humilhado, ora exaltado, escondido agora, manifestado de repente para ser um dia cumulado pela dileção, é preciso arriscar muita aventura antes de atingirmos este ponto em que experimentamos a pura essência do Amor”.


CONTEMPLAR

Lamentação sobre o Cristo morto, Sandro Botticelli, 1490-1492, têmpera sobre painel de madeira, 107 cm x 71 cm, Alte Pinakotheck, Munique, Alemanha (detalhe Maria Madalena e o Cristo).







Páscoa da Ressurreição                      24.4.2011
At 10, 34a.37-43               Cl 3, 1-4                   Jo 20, 1-9


ESCUTAR

“E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e mortos” (At 10, 42).

“Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Cl 3, 3-4).

“Ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 8-9).


MEDITAR

“Toda história da salvação poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos cânticos. Porém é menos a noiva que procura o noivo que o Deus fiel que procura seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele; ele a procura para ‘lhe falar ao coração’ e reconduzi-la ao seu primeiro amor. Na Páscoa, as bodas são consumadas e no Ressuscitado é a humanidade inteira e o cosmos que se encontram secretamente recriados e transfigurados: o corpo do Ressuscitado é vida pura e não esta mistura de vida e de morte, esta ‘vida morte’ que chamamos de vida” (Athenágoras de Constantinopla).

“Se olharmos nossa vida nesta luz, se nós pensarmos que somos chamados pelo Amor a ser o Templo de Deus, o Santuário do Espírito e o Corpo de Jesus, teremos, frente a nós mesmos, uma atitude de respeito que fará de nós o altar, o tabernáculo onde Deus se revela, onde Deus manifesta Sua vida, transfigurando a nossa para que a nossa comunique a Sua” (Maurice Zundel).


ORAR

            Em Atos, o discurso de Pedro é pronunciado na casa de Cornélio, centurião romano e pagão. O evangelho começara a ultrapassar as fronteiras de Israel e Pedro, contrariando a sua educação e certezas, decide batizar um pagão. A última frase de Pedro é vital nesta sua nova compreensão da realidade espiritual do Evangelho: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”. Se, no início, a salvação fora anunciada a Israel, doravante basta crer em Jesus, o Cristo para receber o perdão dos pecados, ou seja, entrar na Aliança com Deus.
            A liturgia da Igreja, neste domingo de Páscoa, nos faz ouvir um texto tardio após a Ressurreição do Cristo, para nos fazer compreender, de uma vez por todas, a razão da vinda do Cristo entre nós: “Eu nasci, para isso vim ao mundo, para testemunhar a verdade. Quem está a favor da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37). Todos podem ouvir e compreender esta Voz.
            A ressurreição de Jesus não é como o ressurgimento de Lázaro no mesmo corpo conhecido pelas suas irmãs e vizinhos e para um resto de vida que teria o seu término. Lázaro, ao ser trazido de volta à vida, saiu todo atado nas faixas mortuárias. Seu corpo estava ainda prisioneiro dos grilhões do mundo, pois não era ainda um corpo ressuscitado.
             Ninguém viu o Senhor ressuscitando. O que Madalena, Pedro e João viram foram os sinais e as aparições do Ressuscitado. Não foram os olhos do corpo que O viram, mas os olhos dos seus corações iluminados pelo amor e pela fé.
            Maria Madalena assistirá a primeira aurora desta nova humanidade que as trevas não puderam impedir. João sabe que as faixas de linho no chão são a prova de que Jesus está, doravante, livre da morte, pois estas faixas que O imobilizaram simbolizavam, a passividade da morte. Seu corpo ressuscitado não conhece e nem experimenta mais nenhum entrave ou limite. Diante destas faixas abandonadas e inúteis, João “viu e acreditou”.
            A última frase do evangelho de hoje é espantosa: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Foi preciso esperar a ressurreição para que os discípulos compreendessem o mistério do Cristo, suas palavras e suas atitudes. É a ressurreição do Cristo que ilumina todas as Escrituras e as torna luminosas.
            A nossa fé deverá ser alimentada sem nenhuma prova material, além do testemunho das comunidades cristãs que a sustentaram sempre. O desafio é encontrar a força, como Pedro e João, de ler em nossas vidas e na vida do mundo todos os sinais cotidianos da Ressurreição. O Papa Bento XVI nos exorta: “Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de ‘redenção’ que dá um sentido novo à sua vida” (Spes Salvi 26).
            O Espírito nos foi dado para que a cada “primeiro dia da semana” renovemos a gostosura de amar e ser amado e, fulminados pela Esperança, possamos correr, com todos nossos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai ao reencontro misterioso do Ressuscitado.


CONTEMPLAR

Cristo levantado do túmulo, Bergognone, c. 1490, óleo sobre painel, 114,5 cm x 61,2 cm, Galeria Nacional de Arte, Estados-Unidos.




terça-feira, 5 de abril de 2011

O Caminho da Beleza 22 - V Domingo da Quaresma


O Caminho da Beleza 22
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



V Domingo da Quaresma                                       10.04.2011
Ez 37, 12-14                         Rm 8, 8-11                           Jo 11, 1-45


ESCUTAR

“Porei em vós o meu espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço – oráculo do Senhor” (Ez 37, 14).

“E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8, 11).

“Então Jesus disse: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isso?” (Jo 11, 25-26).


MEDITAR

“Tudo o que é votado à morte vem terminar na minha vida; tudo o que se torna outono encalha na praia da minha primavera; tudo o que se desfaz em podridão vem nutrir as minhas flores” (Urs von Balthasar).

“Deus somente sabe o túmulo dos tempos e Ele aí bate. Ele fala e o que já está sepultado se levanta, sai da sombra e avança para Ele, pois a morte se retirou diante do Deus da Páscoa” (Patrice de la Tour).


ORAR

Lázaro representa toda a humanidade sepultada e atada aos nós da morte que Jesus, por terna compaixão, salvará ao se entregar livremente por amor. Ressuscitar é desatar os nós que nos prendem à realidade cruel de uma sociedade civil e religiosa sustentada pela ganância e pela competição; de uma sociedade que incentiva a promiscuidade do amor; de uma política que tolera e incentiva a corrupção; de igrejas que abandonam o seu papel profético e fazem todas as concessões para esposarem os privilégios do poder. Jesus não é um dos ressuscitados. Jesus é a Ressurreição! A travessia cristã é uma contradição permanente: temos a certeza da morte, mas vivemos esta certeza na imprevisibilidade do quando e do como. Para um cristão, em espírito e verdade, morrer é aprender a se lançar no abismo das entranhas do Amor onde começou a Vida. Na sua mística do viver, a Igreja de Jesus confronta os poderes políticos e religiosos e os coloca em xeque sobre a dimensão espiritual de suas vidas. A fidelidade de Deus é mais forte do que a morte. Ele soprará seu Espírito para fazer viver o seu povo e abrirá os túmulos da desesperança. A escolha é nossa: podemos nos fechar sobre nós mesmos num movimento auto-destruidor e suicida ou acolher o transbordamento da ressurreição dada por Deus que é vida em plenitude. Vivemos tempos sombrios em que “nossos olhos se ressecaram, nossa esperança se extinguiu” (Ez 37, 11). Jesus testemunha que para Ele o mais importante é vencer a morte do que afastar a doença. Amar, para o Cristo, não é arrancar do leito, mas dos Infernos, pois o que prepara para nós, lázaros da existência, não é um remédio para nossas enfermidades, mas a glória da Ressurreição (cf. Pedro Chrysólogo, Sermão 63). Meditemos esta frase desconcertante de Jesus: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais”. E Aquele que chorou a morte do amigo nos fez saber para todo o sempre de que era necessária esta morte, daquele que amava, para que a nossa fé sepultada com Lázaro ressuscitasse com Ele para a glória bendita de Deus. Somos chamados à liberdade do Espírito, basta ouvirmos no mais íntimo de nós e arriscar na travessia o apelo de Jesus que ecoará até o fim dos tempos: “Desatai-o e deixai-o caminhar!”.


CONTEMPLAR

A Ressurreição de Lázaro, János Vaszary, 1912, óleo sobre tela, Galeria Nacional Húngara, Budapeste, Hungria.



segunda-feira, 28 de março de 2011

O Caminho da Beleza 21 - IV Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 21
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



IV Domingo da Quaresma                                   03.04.2011
1 Sm 16, 1b.6-7.10-13a                  Ef 5, 8-14                     Jo 9, 1-41


ESCUTAR

“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1 Sm 16, 7).

“O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz” (Ef 5, 12-13).

“Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam e os que vêem se tornem cegos. Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: ‘Porventura também nós somos cegos?’. Respondeu-lhes Jesus: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas, como dizeis ‘nós vemos’, o vosso pecado permanece”(Jo 9, 39-41).


MEDITAR

“Ele veio a este mundo para o julgamento, para que os cegos vejam e os que vêem fiquem cegos. Os que se reconhecem nas trevas do erro, recebam a luz eterna que os libertará da obscuridade de suas faltas. E os arrogantes que pretendem possuir em si mesmos a luz da justiça, fossem mergulhados com razão, nas suas próprias trevas: inchados com seu orgulho e seguros de sua justiça, não procurarem médico para os curar. Teriam acesso ao Pai por Jesus que se declarou a porta, mas insolentes se orgulharam de seus méritos e permaneceram na sua cegueira”(Prefácio Mozarábio).

“É o amor das riquezas que causa a cegueira, a loucura dos homens e a sua perversidade” (Thégnis de Megare).


ORAR

A unção de Davi se passa em Belém, o lugar onde mil anos mais tarde nascerá Jesus, um lugar insignificante entre os clãs de Judá. Davi, pastor, era o mais jovem dos filhos de Jessé. Foi o escolhido pelo Senhor, mesmo não sendo o primogênito conforme a lei. Toda eleição divina é sempre desconcertante, pois a sua dileção recai sobre os humildes e os pequenos. O Evangelho narra o episódio da cura do cego na maior festa judaica, a festa das Tendas, impregnada de uma espera impaciente e fervorosa do Messias. Os filhos das trevas não abrem nenhuma exceção, mas fazem todas as concessões uma vez que se consideram seus próprios salvadores. No entanto, o Cristo exige exceções para que possamos amar os outros. Jesus abre uma exceção na regra intransigente do sábado para curar o cego. Não concede uma polegada aos defensores aguerridos da Lei e testemunha que só os que decidem praticar o amor abrem e fazem exceções. O Evangelho de Jesus encontra o tom da verdade nos humilhados, nos machucados e nos que são considerados um nada pelos que só sabem calcular seus “custos e benefícios” e investem as suas vidas para “agregar valor” aos sistemas políticos e religiosos da exclusão. Curar um cego é um ato de Deus e esta crença está na raiz do mundo judeu que a sabia de cor! No livro do Êxodo, quando Moisés se inquieta da missão que Deus lhe confiava, disse: “Perdão, meu Senhor. Eu não tenho facilidade de falar, nem antes nem agora que falastes ao teu servo; tenho boca e língua travados. O Senhor replicou: ‘Quem dá a boca ao homem? Quem o torna mudo ou surdo? Quem faz o que vê ou o cego? Não sou eu, o Senhor?” (Ex 4, 10-11). O evangelista é incisivo: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam e os que vêem se tornem cegos”. A cura da cegueira coincide com o nascimento da fé: “Eu creio, Senhor”, afirma o que agora vê. O que era cego sai, pouco a pouco, da sua noite enquanto os fariseus chafurdam nas trevas da inveja, da mentira, da contradição e fazem de Jesus, apesar das evidências, um possuído que não respeita o sábado e dissipa o mal pelo mal. Paulo reconhece esta cisão e exclama: “Somos o aroma de Cristo oferecido a Deus para os que se salvam e para os que se perdem. Para estes, cheiro de morte que mata; para aqueles, fragância de vida que vivifica” (2 C0r 2, 15). A declaração pública de Jesus: “Eu sou a Luz do Mundo” (Jo 8, 12) é uma declaração afrontosa aos filhos das trevas espalhados em todas as instituições políticas, sociais e religiosas que só se preocupam com o poder para serem servidos e dele se servir. Jesus veio para remover a cegueira dos homens e, sobretudo, a pior cegueira que é a do cego que vê. Os corações interesseiros são e serão sempre movidos pelo veneno da ingratidão e, revestidos da hipocrisia das belas almas, “participam nas obras estéreis das trevas”. Somos nós que nos julgamos diante da Palavra da Verdade: uns se enclausuram na revolta e na mentira e outros se abrem cada vez mais à vida, à verdade e à liberdade de amar. A Igreja de Jesus deve ser humilde para reconhecer, muitas vezes, a sua cegueira no meio do Povo de Deus que se sente perdido com tanta pompa e com tanta circunstância. Que o Santo Espírito nos alinhe entre os cegos, os surdos e os paralíticos, pois é a única condição para que sejamos renovados pela Páscoa do Senhor e, admiravelmente, recriados para a vida eterna.


CONTEMPLAR

O cego de Jericó, Macha Chmakoff, 92 cm x 73 cm, Diocese de Valence, França.


terça-feira, 22 de março de 2011

O Caminho da Beleza 20 - III Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 20
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



III Domingo da Quaresma                            27.03.2011
Ex 17, 3-7                     Rm 5, 1-2.5-8                   Jo 4, 5-42


ESCUTAR

“Então o povo começou a disputar com Moisés, dizendo: “Dá-nos água para beber!”. Moisés respondeu-lhes: “Porque disputais comigo? Por que tentais o Senhor”. Mas o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: “Por que nos fizestes sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado” (Ex 17, 2-3).

“E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5, 5-8).

“Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna... Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4, 14.23).


MEDITAR

“Nosso Senhor vem à fonte como um caçador; pediu água para poder dá-la. Pediu de beber como qualquer um que está sedento, para ter ocasião de aplacar a sede. Fez um pedido para a samaritana para poder ensinar-lhe e ela, por sua vez, lhes fez um pedido. Ainda que rico, não se envergonhou de mendigar como um indigente para ensinar a indigente a pedir. E, dominando o pudor, não temeu falar a uma mulher sozinha para ensiná-la que quem se mantém na verdade não pode ser perturbado. Pede água, porque promete água viva. Pede, mas depois parou de pedir, porque a mulher deixou o seu cântaro. Os pretextos haviam cessado, porque a verdade que se devia esperar estava já presente” (Efrén, Comentários sobre o Diatesaaran 12, 16).

“Morrer ou amar Deus: não tenho outro desejo. A morte ou o amor: pois viver sem amor é pior que a morte e isto me seria mais insuportável do que a vida presente” (Pe. Pio).


ORAR

Esta é a primeira cena de intimidade de Jesus com uma mulher; a outra é com Maria Madalena no jardim da Ressurreição. Jesus está só com estas mulheres e para elas revela o seu ser mais profundo. O evangelho acentua a insistência de Jesus sobre o dom, pois com o Deus de Amor tudo é entrega e compaixão. A samaritana, pouco virtuosa, simplesmente acolhe o dom e o perdão. Jesus ao falar da fonte transbordante quer dizer que a água que jorra dos corações, doravante, saciará a todos. A samaritana ao declarar que encontrou o Messias revela ao mundo que o Messias esperado é aquele que é capaz, sem nenhuma discriminação, do dom e do perdão. Jesus escolhe este momento de fragilidade para declarar o seu verdadeiro título e revelar a sua missão. Do presépio à cruz, passando por um pedaço de pão ázimo, Jesus desconcerta sempre e o ponto culminante disto é quando reconhece sua proclamação como rei, quando interrogado no cárcere: “És tu o rei dos judeus” e Jesus declara: “Tu o dizes” (Mt 27, 11). Jesus desvela para esta mulher a chave do mistério da existência: “Se tu conhecesses o dom de Deus”. Ele é o depositário do segredo que os homens não conhecem. Ele, fatigado, sedento, que solicita um pouco de água para se refrescar é o mesmo que oferece a água viva. O detalhe sutil sobre as bodas e o esposo pode nos passar desapercebido. Jesus pede que a samaritana chame o seu marido, pois um homem não podia prolongar uma conversa com uma mulher fora da presença do seu esposo. O evangelista acentua o significado profundo desta ausência do marido. Jesus, em Caná, assumiu o papel do esposo ao proporcionar aos convidados o vinho que faltara; João, o Batista, lhe confere o título de esposo e se auto-intitula “o amigo do Esposo”. Os tempos messiânicos são os tempos da renovação da Aliança esponsal de Deus com o seu povo. Jesus, na sua liberdade ousada, propõe uma Nova Aliança e a oferece a todos, sem discriminação: aos pecadores, aos excluídos da Sinagoga, aos proscritos da sociedade, aos não-judeus e aos samaritanos. A Samaria que fora desligada da Aliança vai, neste momento, realizá-la graças a esta mulher que anunciará a toda cidade que encontrara o “Salvador do Mundo”. É pela Samaria que se iniciará a evangelização fora da Palestina e será um sucesso (cf. At 8, 5). O evangelista encerra o seu relato evocando o título que os primeiros samaritanos convertidos dão a Jesus: Salvador do Mundo. Mais uma vez são os proscritos que nos revelam e anunciam a universalidade da salvação. A Igreja de Jesus deve saber que somente o transbordamento do amor – o servir a todos sem discriminação – rompe o círculo de uma comunidade limítrofe, medíocre e isolada que bebe de qualquer coisa para iludir a sua sede. Paulo nos reitera que “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Nesta quaresma, somos chamados a manter viva a nossa esperança e a nossa sede de viver para proclamar como o poeta: “Cheio de Deus não temo o que virá, pois venha o que vier nunca será maior do que a minha alma” (Fernando Pessoa).


CONTEMPLAR

Da Mihi Bibere, Salvador Dalí, 1963-1964, guache, Coleção “Bíblia Sacra”.



segunda-feira, 14 de março de 2011

O Caminho da Beleza 19 - II Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 19
Leituras para a travessia da vida

A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).




II Domigo da Quaresma                              20.02.2011
Gn 12, 1-4                  2 Tm 1, 8-10                     Mt 17, 1-9


ESCUTAR

“Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!” (Gn 2, 1-3).

“Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho”(2 Tm, 10).

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 1-2).


MEDITAR

“Todos nós seríamos transformados se tivéssemos a coragem de ser o que somos” (Marguerite Yourcenar).

“A Palavra de Deus convida cada pessoa a viver totalmente. Com suas forças de ser. Com seus limites. E sem se sentir culpada de ser uma criatura inacabada e sacudida pelos seus desvios e suas contradições. Finalmente, a única indagação de Deus será talvez: ‘Você se tornou você mesma?” (Yvan Portras).


ORAR

Após a prova do deserto, o episódio da Transfiguração é a iluminação que desperta a esperança. O relato faz brilhar, por antecipação, a glória de Deus na paixão do Cristo. A nuvem luminosa que cobre a todos é a mesma que criou o mundo no primeiro dia do Gênesis e a que envolveu Maria na Anunciação. É o mesmo Espírito que consagra o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Cristo para a vida do mundo. A Transfiguração é uma resposta à indignação de Pedro uns dias antes ao ouvir de Jesus o anúncio de sua Paixão: “Deus te livre, Senhor! Tal coisa não te acontecerá” (Mt 16, 22). Jesus recebe no monte Tabor a sustentação psicológica e espiritual mais significativa no decorrer do seu ministério. Jesus tem a garantia de que o doloroso caminho que vai percorrer O conduzirá à glória. A Transfiguração é a antítese do Calvário. Nela, Jesus, glorificado, está entre as duas mais ilustres personagens da história de Israel: Moisés que recebera a revelação de Deus e as tábuas da lei na sarça ardente; e Elias que a recebera na brisa leve e ligeira que o fazia vivenciar o Deus da Ternura. Apesar desta visão gloriosa, o chefe dos apóstolos e seus companheiros terão que pregar o Cristo Crucificado entre dois ladrões. Nesta antítese se edifica a solidez de uma fé na qual repousa toda a fé da Igreja de Jesus. Os apóstolos testemunharam a ressurreição da filha de Jairo e a transfiguração de Jesus para que proclamassem a ligação íntima entre Ressurreição e Transfiguração. Apesar de tudo, toda vocação autêntica é uma missão a serviço dos outros, anunciada e testemunhada em nossas vidas pela exclamação do salmista: “A terra está plena do seu amor e transborda em toda a terra a sua graça” (Sl 119, 64). O Papa Bento XVI nos exorta: “Somente quem se faz livre para Deus e suas exigências, abre-se ao outro que chama à porta do seu coração” (Sermão de Cinzas, 2008). A Transfiguração de Jesus antecipa a certeza da sua Ressurreição dentre os mortos, como será com cada um de nós pela graça e pelo amor de Deus ao se cumprir a profecia de Daniel: “Continuei olhando, e na visão noturna notei vir nas nuvens do céu uma figura humana, que se aproximou do ancião e foi apresentada diante dele. Deram-lhe poder real e domínio: todos os povos, nações e línguas o respeitarão. Seu domínio é eterno e não passa, seu reino não terá fim” (Dn 7, 13-14). Neste mundo e nestas igrejas comprometidas com uma moral do espetáculo, que estimula o ardor religioso individual sem nenhum compromisso comunitário, um Jesus Morto é absolutamente comum e sem atrativos de sedução. Para nós, além do Jesus da História, devemos estar intimamente ligados ao Cristo da Fé e Neste o que conta não é o fenômeno da luz, mas a humanidade de Jesus que durante a sua travessia testemunhou e praticou para todos e com todos, sem exceção ou discriminação, suas entranhas de misericórdia.


CONTEMPLAR

Transfiguração, Beato Angélico, 1440 circa, Convento de São Marcos, Florença, Itália.





terça-feira, 8 de março de 2011

O Caminho da Beleza 18 - I Domingo da Quaresma

O Caminho da Beleza 18
Leituras para a travessia da vida


A beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual brota o tronco de nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convite à liberdade e arranca do egoísmo” (Bento XVI, Barcelona, 2010).

Quando recebia tuas palavras, eu as devorava; tua palavra era o meu prazer e minha íntima alegria” (Jr 15, 16).



I Domingo da Quaresma                  13.03.2011
Gn 2, 7-9                          Rm 5, 12.17-19                         Mt 4, 1-11


ESCUTAR

“O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao oriente, e ali pôs o homem que havia formado” (Gn 2, 7-8).

“Por um só homem, pela falta de um só homem, a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e superabundante da justiça” (Rm 5, 17).

“Naquele tempo: o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome... Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram Jesus” (Mt 4, 1-2.11).


MEDITAR

“É melhor mal amar, amar a torto e a direito do que nunca amar, pois o que ama mal pode sempre aprender e descobrir como amar melhor, mas aquele que não ama está perdido” (Jean-Guy Saint-Arnaud).

“A alma que fica na superfície de si mesma, que não se habita a si mesma, torna-se estrangeira de si própria. A interioridade nos faz descobrir verdadeiramente a nós mesmos, Deus e os outros” (Maître Eckhart).


ORAR

Somos um misto frágil de pó da terra e de sopro divino. Por esta razão sempre sofremos a tentação de sucumbirmos ao pecado da vaidade. Jesus se retira sob o sol de Satanás e sofrerá um batismo de fogo após o seu batismo de água no Jordão. A sua tentação é proporcional à sua missão e como a nossa é expressa humanamente: a de ter seus desejos imediatamente satisfeitos e assegurar a sua sobrevivência; a de experimentar a sua onipotência e se tornar igual a Deus e, finalmente, a de dominar os homens e reinar sobre a Terra. O mesmo Espírito que conduz Jesus ao deserto permite reconhecer em nossos desertos a presença de Deus agindo do nosso lado nas provas e tentações cotidianas. A tentação não é um mistério de vitrine, mas um mistério de vertigem que cada um carrega em si, no seu próprio precipício possível. Na sua agonia, Jesus é abandonado pelos seus, na sua tentação é abandonado a si mesmo e se reencontra só com todos os possíveis da sua humanidade. O Enganador se engana: se somos filhos de Deus, é inútil transformar pedras em pão, pois o Pai dá naturalmente o pão a seus filhos (Mt 6, 11); se somos filhos de Deus é impossível se lançar abaixo, porque seguros nas mãos de Deus não teremos vertigens e se somos seus filhos será em vão fazer vilezas e vulgaridades para se ganhar todos os reinos do mundo, porque já somos herdeiros com o Filho do reino do Pai (Rm 8, 17). Este período de quaresma nos permite uma profunda revisão no nosso deserto interior para que possamos, como Jesus, permanecer nos desígnios do Pai. A nossa vitória está na conquista da lucidez de sermos filhos e filhas bem-amados. O evangelista nos remete à experiência humana mais profunda que acarreta apreensão e angústia por desfilar diante dos olhos as imagens mais sedutoras. Há um debate interior que une, na vida de Jesus, dois momentos cruciais: a solidão do deserto e a solidão do Jardim das Oliveiras. Jesus não escolhe os bens terrestres, mas a pobreza; não escolhe o prestígio, mas a humildade e as humilhações; não sucumbe à idolatria do poder político, mas prefere ser condenado injustamente como “rei dos judeus”. A tentação do deserto desvela a união diabólica e a natureza maléfica do poder político e da elite religiosa. A liderança política e religiosa é a forma institucional visível de uma realidade interna que resiste aos propósitos de Deus e se empenha em cumprir a sua agenda por meio da injustiça e do poder opressor. A Igreja de Jesus deve aprender com Ele a não sucumbir à tentação maior que é a de agir em benefício próprio. Como diz Paulo: “Conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por vós se tornou pobre para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9).


CONTEMPLAR

Jesus no deserto, Macha Chmakoff, Diocese de Valence, França.